Chuck Berry jamais morrerá

'Chuck Berry nunca deveria morrer. Não vai morrer e pronto. Não vou aceitar que num dia qualquer, uma rede social, um portal ou um amigo me ligue e diga que Chuck Berry morreu', escreveu Ricardo Queiroz em 2011

Em dezembro de 2011, na semana em que Joãozinho Trinta e Cesária Évora morreram, o bibliotecário Ricardo Queiroz publicou o texto abaixo, em que evocava a imagem de Chuck Berry. A morte chegou também para Chuck Berry - e republicar esse texto é uma forma de prestar-lhe um tributo.

Dizia o filosofo romeno Emil Cioran: ”eu prefiro me agarrar ao inacreditável presente e ao inacreditável passado”. Cioran brilhou em citações em meados da década de 80 e 90. O tempo era sombrio. Cioran adorava fazer apologia à morte, até que morreu. Vive desfigurado na boca dos niilistas, mas por ora, segue esquecido. Cioran um dia volta.


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A morte rondou o final de semana, foram muitos: Joãosinho Trinta, Vaclav Havel (ex-presidente da Tchecoslováquia, hoje também morta), o ator Sérgio Brito, a cantora Cesária Evora, o mandatário da Coréia do Norte, Kim Jong-Il, morte presente. Fiquei sabendo que Etta James (at laaaaast) está terminal com leucemia. Não param de chegar coisas assim… a inquestionável morte.

Domingo pela manhã ao navegar livremente (como gosto) topei com um vídeo bem conhecido, onde Chuck Berry toca um dos seus hits “Oh, Carol” ladeado por Keith Richards. Chuck, velho de guerra, insiste que Keith não acerta um efeito no meio do riff inicial da música. É um momento engraçado do rock’n roll. Para constranger e trollar um corsário velho como Richards, só mesmo outro corsário de mil águas a frente.

Chuck Berry & Keith Richards - Oh Carol from Music Management USA on Vimeo.

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Aquela imagem e a versão pulsante de “Oh, Carol” me instigou o pensamento de que Chuck Berry nunca deveria morrer. Não vai morrer e pronto. Não vou aceitar que num dia qualquer, uma rede social, um portal ou um amigo me ligue e diga que Chuck Berry morreu. Não vai haver este dia. Passará em brancas nuvens. Não haverá futuro sem Chuck Berry. Neste momento me alinho com Cioran que paradoxalmente só falava de morte. Sofismar o romeno servirá como despiste.

Os bordões mais sacados do rock e o passo de pato não vão deixar esta terra. E não adianta dizer que Chuck é um ranzinza que vende 60 minutos de apresentação e sai no exato sexagésimo minuto, mesmo que esteja no meio de uma música. Nada de sovinice, Chuck cumpre contratos. Não adianta querer levá-lo antes ou depois, ele insiste em cumprir tudo no ponto. Chuck Berry não vai morrer antes de tocar o último riff. Que atrasem os riffs. Chuck Berry é um jovem rocker de 85 anos.

Agência Efe

Chuck Berry durante apresentação em Las Vegas em 1972

Os Beatles, os Stones, tantas bandas, os punks, os retrôs todos emularam, revisitaram, atrasaram o tempo para voltar a Chuck Berry. Para quê e para quem ele vai morrer? Até completar o set todo: Maybelline, Roll Over Beethoven, Johnny Be Good, Bound To Lose, Rock And Roll Music, Sweet Little Sixteen … levará muito tempo. E que o tempo se atrase, como o riff que Keith teimava em não tocar direito. Que seja atrasado por longo tempo o último hit de Chuck Berry. O que será do rock’n roll sem ele? E que o futuro seja como o tal Cioran pressentiu, uma negação, uma falsa espera.

Chuck Berry Fields Forever.

Definitivamente e dane-se a realidade: Chuck Berry jamais morrerá.

Publicado originalmente no blog Klaxonsbc em 19/12/2011. 

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