Operação Carne Fraca: por que a imprensa blinda Blairo Maggi?

PF fez busca a apreensão no gabinete do ministro, em sala que abriga responsáveis por contato com o Congresso; em agosto, ele reduziu fiscalização sanitária

De Olho nos Ruralistas informa: ““Carne Fraca”: PF fez busca e apreensão no gabinete de Blairo Maggi“. Não na sala específica do ministro da Agricultura, mas no gabinete, no mesmo andar – na sala onde ficam os responsáveis pela articulação política e pela relação com o Congresso. A grande imprensa não deu, embora a informação (com endereço e tudo) esteja escancarada na lista de busca e apreensões divulgada pela Polícia Federal.


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Não deu porque é distraída ou porque há interesse de patrões e editores em blindar o ministro?

Em agosto, Maggi anunciou que reduziria a fiscalização sanitária. Foi uma das medidas anunciadas no plano Agro+. A imprensa também ignorou. É novamente o De Olho nos Ruralistas – um observatório sobre agronegócio no Brasil – que informa, em notícia na semana de inauguração do site, em setembro: “Maggi reduz fiscalização sanitária: ‘É o mercado que vai punir quem faz coisas erradas'”.

Disse o ministro, em fala registrada em vídeo:

– Não é possível que uma empresa de café, maçã, fumo, que investe milhões de dólares em processo, e tem controle absoluto, o Estado tem de chancelar. O Estado tem de fazer fiscalizações pontuais, seletivas, e a gente liberar. É (para fiscalizar) onde tem mais riscos.

No entanto, ele informou que a avicultura era exatamente uma das áreas que perderiam fiscalização. Exatamente a avicultura, um dos pivôs da Operação Carne Fraca. Avicultura “e abates”, detalha ele.

O leitor está estarrecido com as informações? Pode checar. São todas oficiais. Veja o vídeo. Leia a lista de buscas e apreensões da PF. Não ficou sabendo por que as informações não despertaram o interesse da grande imprensa.

E, portanto, temos um ministro blindado. Há quem ataque o juiz que determinou a investigação, a Polícia Federal, os carnívoros (ou os vegetarianos, dependendo do ponto de vista), todo mundo – menos o ministro que tirou uma curiosa licença de dez dias na noite exatamente anterior à da operação da PF, na quinta-feira.

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No máximo se questionam as conexões do ministro da Justiça, Osmar Serraglio, com o ex-superintendente do Ministério da Agricultura (olhem ele aqui de novo) acusado pela PF de ser o líder do esquema, a quem Serraglio chamava de “grande chefe”. Mas, novamente, Blairo Maggi passa despercebido – como se chefiasse uma pasta distante.

Um nacionalismo curioso

Parte da esquerda e, portanto, da imprensa alternativa, mostra-se subitamente preocupada com a “indústria nacional”, ou coisa parecida. Em exercício bastante conspiratório, e como se o modelo agropecuário que dá sustentação à BRF e à JBS fosse algo próximo do nacionalismo. (Seria mais coerente defender camponeses e povos indígenas.) Não é. E é novamente Maggi que ilustra isso.

José Cruz/Agência Brasil/Fotos Públicas

O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, durante entrevista sobre a Operação Carne Fraca

Maggi e a bancada ruralista querem liberar a venda de terras para estrangeiros. Os interesses nacionais só são invocados quando convêm. O ministro da Agricultura, um dos maiores produtores de soja e milho do mundo, enxerga apenas um setor a ser blindado nessa entrega – coincidentemente, o de grãos, como soja e milho.

No caso do café, Maggi quer a liberação das importações. Produtores nacionais são contra. Mas ele defende a indústria, internacionalizada – essa mesma que alguns estão supondo que atenda interesses nacionais. Há uma contradição interna no universo ruralista, nesse caso. Embora todos se unam na hora de se posicionarem contra direitos indígenas, camponeses, quilombolas.

Mas o ministro só aparecerá nos jornais como eventual apagador de incêndio. Em reunião com Michel Temer para defender as exportações do agronegócio brasileiro – essas que têm um poder de fogo historicamente superestimado, como se fossem (não são) a salvação da economia brasileira.

Seria melhor se nos informassem o teor das conversas entre o gabinete do ministro – em particular da sala onde houve busca e apreensão – e o Congresso. Ou se contassem à população brasileira que, para o ministro, é o mercado quem vai punir quem vende carne podre. 

(*) Publicado orginalmente em Outras Palavras

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