'Uberizar' o país e mudar leis trabalhistas: quem é (e o que defende) Emmanuel Macron, novo presidente da França?

Ex-banqueiro, candidato da grande mídia e do patronato francês, ele já se disse nem de esquerda nem de direita, para logo depois começar a se afirmar "de esquerda e de direita"

Em 2002, Jacques Chirac, candidato da direita, recusou-se a debater com Jean-Marie Le Pen, do Front National (FN, de extrema-direita), segundo colocado no primeiro turno.


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A chegada ao segundo turno do fundador do Front National e a exclusão do candidato do Partido Socialista Lionel Jospin foram um verdadeiro eletrochoque para os franceses. Milhões de pessoas foram às ruas das principais cidades dizer “não” à extrema-direita e a seu líder. Chirac ganhou com 82% dos votos. Apesar de ser o candidato da direita (UMP, na época), ele teve os votos de praticamente toda a esquerda francesa que se uniu à direita no Front Républicain (Frente Republicana).

Os tempos mudaram. A Frente Republicana não é uma evidência e a abstenção foi defendida por muitos que acreditavam que entre Marine Le Pen e Emmanuel Macron era escolher entre “a peste e a cólera”, na expressão francesa.

De 2002 para cá, o Front National banalizou-se, sofreu uma maquiagem profunda, a tal ponto que muitos o consideram um partido como outro qualquer. Mas a maioria dos franceses ainda o vê como um partido fascista e xenofóbico, uma ameaça à democracia francesa.

A maior prova da banalização do FN é que Emmanuel Macron aceitou debater com Marine Le Pen.

Muitos intelectuais e políticos de esquerda têm martelado em artigos e entrevistas que era preciso votar Macron no segundo turno, pois quanto maior fosse sua votação, mais marcante seria a prova da rejeição da França às teses extremas do FN. A pesquisa de opinião feita pelo IFOP divulgada dia 1° de maio dava 59% dos votos para Emmanuel Macron e 41% para Marine Le Pen. Em relação a semana anterior, ele perdeu um ponto e ela ganhou um.

Os mais reticentes em votar Macron eram os eleitores de Jean-Luc Mélenchon (19,6% no primeiro turno). Mélenchon se recusou a estimular seus eleitores a votar por Macron por sua posição radicalmente oposta ao programa do candidato, mas afirmou que os franceses não podem eleger Marine Le Pen, considerada por toda a esquerda como um perigo para a République.

Macron venceu com 61%, contra 39% de Le Pen. Fato inédito na história da França, o novo presidente vai festejar, em dezembro, seus 40 anos no Eliseu. Sua mulher Brigitte, tem 64 anos e era professora de francês no liceu em que ele estudou, em sua cidade Natal, Amiens.

Os boatos sobre a homossexualidade de Emmanuel Macron, que lhe atribuíam até mesmo um amante (o PDG de Radio France, Mathieu Gallet) foram desmentidos com fair play pelo próprio candidato. Houve quem sugerisse que o boato veio de Moscou, pois foi publicado pela primeira vez na imprensa russa.

Na atual recomposição do cenário político francês, as alianças mais improváveis  acontecem e não se pode esquecer que Marine Le Pen é próxima de Vladimir Putin.

Ambiguidade
 
A fulgurante carreira de Emmanuel Macron, totalmente atípica na França, já faz parte da história do país, pois ele revolucionou todos os rígidos códigos do mundo político francês no qual a separação entre a direita e a esquerda, que se alternam no poder, é muito clara.

Mas quem é Emmanuel Macron? O futuro presidente francês de 39 anos nunca exerceu um mandato eletivo nem mesmo de vereador (conseiller municipal) e era desconhecido dos franceses até três anos atrás, quando François Hollande o nomeou ministro da Economia, no governo do primeiro-ministro Manuel Valls.

Desde o ano passado, quando pediu demissão do ministério, nenhum político ocupou tanto espaço na mídia francesa como Macron, prova de que os proprietários de jornais, TV e revistas lançaram todas as suas fichas na candidatura do ex-ministro. O jornalista Marc Endeweld escreveu um livro cujo título já fala da ambiguidade do personagem : “L’ambigu monsieur Macron”.

Para ressaltar as hesitações de Macron, seus adversários o acusam de ambiguidade porque ele é capaz de defender uma posição hoje e amanhã mudar de opinião fazendo nuances em seu raciocínio. Para os mais críticos, ele encarna dois personagens : Dr. Emmanuel e Monsieur Macron.

Agência Efe

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Antes de declarar seu voto em Emmanuel Macron para o segundo turno, o economista Thomas Piketty – que assessorou o candidato do Partido Socialista Benoît Hamon no primeiro turno – havia escrito que “Macron é um banqueiro que vai governar para os banqueiros”. Não mudou de opinião, mas não quer ver Marine Le Pen no Eliseu.

O programa direitista de Macron prevê a supressão do imposto sobre a fortuna (ISF), a remodelação (que os neoliberais apresentam sempre no mundo inteiro como a “modernização”) do Code du Travail (a CLT francesa) e o exercício do poder por decretos quando não houver maioria no Parlamento. Os serviços públicos devem também ser atingidos por cortes de funcionários e orçamento. Além disso, ele vai esvaziar o papel dos sindicatos, com menos poder e menos repasse de dinheiro.

Mas os dividendos aos acionistas estão garantidos.

Formado na prestigiosa ENA (École Nationale d’Administration), ele foi inspetor de finanças e fez carreira no serviço público até 2008, quando entrou para o Banco Rothschild, onde ficou até 2012. O seu passado de banqueiro ficou colado como um estigma na pele do jovem candidato à presidência, numa França que não aprecia o “mélange de genres” entre o mundo dos negócios e a política.

Com a eleição de François Hollande e por ter tido uma rápida passagem de três anos pelo Partido Socialista, o jovem ambicioso entrou no Palácio do Eliseu como secretário-geral adjunto em 2012. Saiu em 2014, para voltar poucos meses depois como ministro da Economia. O jovem ministro aparentemente gostou do mundo do poder e resolveu começar por onde todos terminam. Em abril de 2016, criou o partido “En Marche” (as iniciais do seu nome), em agosto pediu demissão e lançou sua candidatura à Presidência da República.

Dizendo-se nem de esquerda nem de direita, para logo depois começar a se afirmar “de esquerda e de direita”, Macron foi comendo pelas beiradas eleitores dos dois campos.

Macronizar ou uberizar a sociedade francesa
 
Com sua biografia e seu programa neoliberal, Macron angariou a simpatia geral do mundo das finanças, do CAC 40 (as principais empresas francesas cotadas na Bolsa) e do mundo da mídia, quase 100% a seus pés, com raras exceções.

E, muito importante, começou a contribuir com a demolição do Partido Socialista ao receber o apoio de alguns dos pesos-pesados do governo Hollande, antes ainda do primeiro turno, esvaziando totalmente a candidatura de Benoît Hamon, candidato do PS. O ministro da Defesa, Jean-Yves Le Dryan, e o ex-primeiro-ministro Manuel Valls, ambos socialistas, macronizaram antes do primeiro turno.

Nunca a França fez tantas guerras e vendeu tantas armas quanto no governo Hollande, quando o ministro Le Dryan  era um verdadeiro relações públicas da indústria bélica francesa. Os fabricantes de armas deram apoio incondicional e entusiasmado ao candidato de “En Marche”.

Como parte da ambiguidade do candidato, seu livro lançado durante a campanha se chama “Révolution”. Que ninguém espere outra coisa senão uma clara e nítida virada mais à direita do aquela realizada por seu mentor François Hollande.

“Seu partido, provavelmente rebatizado no futuro, já recebeu apoio de um grande número de deputados de direita, além de ministros de Hollande. Ele se encarregará de ‘macronizar’ ou ‘uberizar’ a sociedade”, escreveu o jornalista Denis Sieffert, diretor da revista semanal “Politis”.

Consequência do cometa Macron, Sieffer acrescenta que em breve todos vão perceber que o Partido Socialista, esvaziado por Macron, vai se transformar “em um partido de centro-esquerda, que gravará no mármore o neoliberalismo”.

No entanto, assim como numerosos socialistas e comunistas, Denis Sieffert declarou voto em Emmanuel Macron dizendo que ele encarna tudo o que sua revista combate há muitos anos mas “não se brinca com o risco fascista”. “Não é uma questão de programa, iremos combatê-lo com outras armas”, acrescentou.

Quanto à jornalista Aude Lancelin, ela foi demitida da revista  Nouvel Obs por um artigo em que demonstrava a total adesão e conivência da grande mídia ao candidato Macron, no que ela chamou de “endogamia macroniana”. Baseada em fatos e exemplos irrefutáveis, ela demonstra em seu excelente artigo como este pareceu aos grandes patrões da imprensa mais palatável e seguro que o direitista François Fillon, implicado judicialmente por empregos fictícios de sua mulher e de seus filhos.

* Leneide Duarte-Plon é autora de “A tortura como arma de guerra – Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado” (Editora Civilização Brasileira, 2016)”. Texto publicado originalmente em Carta Maior, no dia 5 de maio, antes das eleições. O conteúdo foi editado por conta da eleição de Macron no último domingo (07/05)

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