Argentina: Hebe de Bonafini, líder das Mães da Praça de Maio, é indiciada por suposta fraude administrativa

Ativista de 88 anos é acusada de participar de suposto desvio de verbas equivalentes a R$ 40 milhões; 'estou honradíssima de ser processada por este Poder e por este governo', disse Bonafini, frontal opositora de Mauricio Macri

Um juiz da Argentina indiciou nesta segunda-feira (15/05) a presidente da associação de direitos humanos Mães da Praça de Maio, Hebe de Bonafini, de 88 anos, em um processo no qual é investigada uma suposta fraude ao Estado.


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Além de Bonafini, foram indiciados os irmãos Sergio e Pablo Schoklender, e o já detido ex-secretário de Obras Públicas dos governos Kirchner (2003-2015), José López, entre outros.

O expediente aborda um suposto desvio de mais de 200 milhões de pesos argentinos (cerca de R$ 40 milhões) no programa "Sonhos compartilhados", plano estatal criado pelo governo de Cristina Kirchner (2007-2015) para a construção de imóveis sociais e administrados pela fundação das Mães da Praça de Maio, por meio dos irmãos Schoklender.

O magistrado federal Marcelo Martínez de Giorgi processou Bonafini na qualidade de “participante necessária” de um delito de defraudação à administração pública por administração fraudulenta.

Em resposta à acusação, Bonafini reafirmou sua inocência e disse que “este é o preço que temos que pagar por dizer o que dizemos e fazer o que fazemos”, em referência à frontal oposição das Mães a Mauricio Macri, atual presidente e que sucedeu Cristina, a quem Bonafini e a associação seguem aliadas.

Agência Efe

Hebe de Bonafini na sede da Associação das Mães da Praça de Maio, em Buenos Aires

A ativista também voltou a dizer que Macri “é nosso inimigo” e que foi “partícipe da ditadura com suas empresas”, em referência à estreita relação entre o grupo Macri – conglomerado de empresas criado pelo pai do presidente, Francisco Macri – e a ditadura militar argentina (1976-1983), que sequestrou dois dos três filhos de Bonafini, o que levou à criação da associação Mães da Praça de Maio.

“As Mães decidimos entregar nossa vida pela liberdade, da mesma maneira que fizeram nossos filhos. O preço é este, que o Poder Judiciário, não a Justiça, me processe. Estou honradíssima de ser processada por este Poder e por este governo. Obrigada, Macri, por me dar essa honra”, ironizou Bonafini em vídeo publicado nas redes sociais da associação.

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A Justiça considera provado que os Schoklender, em sua qualidade de apoderados da fundação, "tiveram uma ativa participação na gestão e execução das construções que foram licitadas a essa instituição", e que posteriormente, uma vez injetados os montantes correspondentes a essas obras na instituição, desviaram 206,43 milhões de pesos argentinos (R$ 41,1 milhões).

A resolução judicial aponta que o "sucesso da manobra" foi possível graças à utilização do prestígio "e da trajetória" que a Associação Mães da Praça de Maio conta na área da defesa dos direitos humanos, e "ao infiel desempenho" de López e Abel Caludio Fatala, que eram responsáveis pela dotação dos recursos do Estado.

López está detido por suposto enriquecimento ilícito desde junho de 2016, quando tentava esconder quase US$ 9 milhões em um convento.

Bonafini foi considerada "participante necessária da manobra", uma vez que se avaliou que "conhecia os desvios financeiros" realizados pelos apoderados e que "pelo menos participou dessas tarefas aprovando os balanços irregulares da instituição".

“Venham ver meu patrimônio, vivo na mesma casa de sempre e não tenho nem bicicleta”, declarou a ativista. “Sabem que tenho a consciência muito tranquila, que revisem o que quiserem.”

Em 10 de agosto de 2016, Bonafini, convencida de não ter cometido nenhum delito e tal e como já tinha antecipado, se negou a responder as perguntas do juiz, que compareceu à sede das Mães da Praça de Maio para tomar seu depoimento como investigada na causa.

"Eles estão com (o presidente Mauricio) Macri e eu estou contra Macri; eles estão com os juízes, eu estou com a justiça, os juízes não são a justiça", declarou então.

"Pior que o que nos aconteceu já não pode acontecer, eu não tenho medo de ser presa", acrescentou Bonafini, que também defendeu a legalidade das operações realizadas pela associação.

 

*Com Agência Efe

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