Equipe de cientistas liderada por português testa substância que pode se tornar 1ª vacina contra malária da história

Tentativas anteriores usavam parasita Plasmodium falciparum, que médico qualifica como duvidoso do ponto de vista da segurança e da eficácia; equipe atual utiliza variedade distinta

Começou no último 6 de junho, na Universidade de Radboud, Holanda, a fase prática de uma experiência que pode mudar o mundo. Um grupo internacional de cientistas, liderado por uma equipe portuguesa, testará em voluntários uma substância que pretende se tornar a primeira vacina contra a malária.


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A Sputnik Brasil conseguiu falar com o dirigente da pesquisa, Miguel Prudêncio, do Instituto de Medicina Molecular (iMM) da Universidade de Lisboa. Ele assegura que, essencialmente, os voluntários – 30 pessoas saudáveis – não enfrentem nenhum perigo por causa da experiência.

"Não existe perigo para os voluntários, uma vez que a vacina em si não causa qualquer doença e, no ensaio de eficácia, mesmo os grupos de voluntários controle (não-vacinados) que serão sujeitos ao parasita infeccioso (Plasmodium falciparum) serão tratados antes mesmo do aparecimento de quaisquer sintomas. Existe, no entanto, algum desconforto associado à administração da vacina, já que esta será administrada por picada de mosquitos", diz o cientista.

Você leu bem: o voluntário (ou a voluntária) precisará se deixar picar por um mosquito da espécie Anopheles stephensi, portador de uma versão geneticamente modificada do parasita Plasmodium, que geralmente transmite a doença.

O ensaio, a partir da picada, será monitorado por uma equipe de médicos de diversas instituições. Ashley Birkett, diretor-geral da Iniciativa por uma Vacina contra a Malária (MVI, na sigla em inglês), indicou, em comentário à Sputnik Brasil, que se trata de um ensaio controlado de infecção com malária humana (CHMI, na sigla em inglês), o que minimiza os riscos.

Ainda é cedo para falar em vacina. O próprio Prudêncio chama o produto testado de "nosso candidato a vacina". O que começou foi só o início do ensaio prático, a eficiência do método, em caso de êxito, deverá ser comprovada pelo tempo. E o tempo pode ser longo. Ashley Birkett precisou que será testado um efeito que perdure "pelo menos dois anos". E o Prudêncio indica que "pelo menos 10-15 anos" passarão "até a vacina, se vier a ter sucesso, ser licenciada".

Birkett e Prudêncio frisaram também que a vacina deverá ser testada nas regiões onde a malária é endêmica. Isto é, na África subsaariana (esta região é a primeira na lista). E talvez no Brasil também.

Vacina revolucionária

A malária, uma praga muito comum nas regiões tropicais do planeta, ainda não possui um antídoto, sendo uma das doenças cujo tratamento se reduz à atenuação dos sintomas, sem possibilidade de cura completa. Houve várias tentativas de superar esta situação, mas a da equipe de Prudêncio promete ser a mais inovadora (em entrevista ao Expresso, foi até chamada de "revolucionária").

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Flickr/WHO

Cientistas testam substância que pode resultar em vacina contra malária

Lembra o médico que a primeira vacina que existiu no mundo foi desenvolvida pelo britânico Edward Jenner, que tinha observado que as pessoas expostas ao vírus da varíola bovina pareciam estar protegidas contra a varíola humana. Então ele começou administrando o vírus bovino a pessoas com o intuito de protegê-las contra a versão humana do mesmo. Prudêncio pretende agir do mesmo jeito usando uma variedade do parasita Plasmodium, que é o "responsável" pela malária em diversos tipos de hóspede.

Eis aqui a diferença. As tentativas anteriores usavam o parasita Plasmodium falciparum, que Prudêncio qualifica como duvidoso do ponto de vista da segurança e da eficácia. A sua equipe utiliza uma variedade distinta do parasita:

"A nossa proposta baseia-se na utilização do P. berghei como plataforma de vacinação contra a malária humana. A ideia de plataforma é essencial, porque a nossa proposta vai além da simples utilização do P. berghei como vacina. O que propomos é utilizar as ferramentas genéticas que hoje nos permitem modificar geneticamente os parasitas Plasmodium para 'mascarar' o P. berghei de parasita humano, através da introdução de antígenos do parasita humano no genoma do parasita de roedores."

A primeira etapa da experiência é assegurada por um agente imunógeno através da modificação genética, conta o cientista:

"O parasita que será agora testado em humanos é um P. berghei geneticamente modificado para expressar a proteína circumsporozoite (CS) de P. falciparum, o imunógeno mais potente que se conhece em parasitas da malária e o responsável pela imunidade que se observa quando se administram parasitas P. falciparum atenuados como forma de vacinação. Este parasita geneticamente modificado, isto é, a vacina, designa-se PbVac."

"Desta forma, esperamos que o nosso candidato a vacina espolete duas camadas de respostas imunitárias: por um lado uma proteção cruzada entre espécies, advinda do parentesco entre o parasita de roedores e o humano (a ideia subjacente à estratégia de vacinação contra a varíola); por outro, uma resposta dirigida ao parasita humano, advinda da introdução de um antígeno deste na plataforma que é o parasita de roedores."

Para quando o fim da praga?

Sputnik Brasil aproveitou para perguntar se a malária poderá ser eliminada por completo em um futuro. A previsão não é concreta, mas as estatísticas têm demonstrado, desde 2000, uma redução de 60% nos casos de mortes provocadas pela malária. Birkett indicou que "uma série de organizações estão trabalhando para acabar com a doença até 2040".

"É um objetivo ambicioso, e novas ferramentas, como vacinas, serão precisas para chegarmos lá", diz o cientista norte-americano.

Os entrevistados excluem, por enquanto, o uso do “candidato a vacina” para tratamento de doenças típicas para as regiões tropicais da América Latina e do Brasil, como a dengue, a chikungunya e o zika. A explicação é puramente técnica: a imunização acontece através de uma "patógena diferente, não patogênico para humanos, para se proteger contra a mortal doença infecciosa". Prudêncio frisa: "Em teoria esse conceito poderia ser alargado a outras doenças, mas essa possibilidade, para já, está fora do horizonte".

(*) Publicado em Sputnik

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