Um ano depois, turcos ainda sofrem efeitos do golpe frustrado

Consequências do golpe de Estado fracassado de 15 de julho de 2016 foram drásticas, e ainda são visíveis; na esteira da acusação ao dissidente Fethullah Gülen, instituições de ensino e da mídia foram as mais atingidas
Era uma noite de sexta-feira normal para muitos cidadãos turcos. Habituados às medidas de segurança de praxe, na esteira de diversos atentados recentes, eles interpretaram como manobras preventivas contra um possível ataque terrorista as notícias de soldados bloqueando a ponte do Bósforo, em Istambul, assim como os aviões voando baixo sobre os prédios governamentais em Ancara.


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Poucas horas mais tarde, naquele 15 de julho de 2016, o primeiro-ministro Binali Yildirim comunicava na televisão que uma tentativa de golpe de Estado estava em andamento. Naquela noite, 249 pessoas foram mortas e mais de 2 mil, feridas. Dezenas de prédios públicos, inclusive o Parlamento e a sede presidencial, em Ancara, foram danificados. Em choque, muitos turcos lembraram o sangrento golpe de Estado de 1980.
 
Estado de emergência
 
Uma das primeiras reações do presidente Recep Tayyip Erdogan e de seu Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) foi decretar o estado de emergência em 20 de julho, como medida de segurança, a fim de localizar e processar os responsáveis. Depois dos três meses iniciais, ela já foi prorrogado três vezes, devendo expirar no próximo 20 de julho, se não houver nova ampliação.
 
O resultado mais visível do estado de emergência, no nível político, foi o uso de ordens executivas: assim o presidente pode impor leis prescindindo de aprovação parlamentar. Em um ano, foram expedidas 24 dessas ordens, criticadas pela oposição por serem antidemocráticas e neutralizarem, na prática, a ação do Parlamento.
 
Desde logo Erdogan atribuiu o golpe fracassado a adeptos do sacerdote muçulmano dissidente Fethullah Gülen, que vive autoexilado nos Estados Unidos. Mais de 169 mil pessoas foram acusadas de conexão com o Movimento Gülen, classificado pelo governo como terrorista. Segundo o ministro turco da Justiça, Bekir Bozdag, mais de 50 mil pessoas foram presas desde o golpe de 15 de julho, e outras 8 mil são procuradas pelas autoridades.
 
Em decorrência das ordens executivas, milhares de instituições foram fechadas, incluindo universidades, escolas e repúblicas estudantis particulares, centros de saúde, fundações e associações com supostas conexões com o movimento Gülen.
 
Mais de dois terços desses fechamentos foram de escolas e repúblicas estudantis particulares. O fato não surpreende, diante da ênfase que Fethullah Gülen vinha colocando na educação.
 
Demissões em massa
 
Além disso, 965 empresas alegadamente ligadas ao movimento dissidente foram colocadas sob a custódia do Fundo de Seguro de Depósitos de Poupança da Turquia (TMSF), instituição governamental de seguros e de gestão de fundos que supervisa o setor bancário.

picture-alliance/dpa/S. Suna

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Segundo as cifras mais recentes do TMSF, os ativos combinados dessas companhias perfazem cerca de 10 bilhões de euros, e seu patrimônio líquido, 4,5 bilhões de euros. O futuro de seus 46.357 empregados continua indefinido.
 
Mais de 150 mil funcionários públicos foram suspensos e outros 100 mil foram demitidos. O Ministério da Educação da Turquia foi o mais atingido, com 33 mil professores despedidos, seguidos por 10 mil empregados das forças policiais, 7.655 membros das Forças Armadas e 3.396 do sistema judiciário.
 
As universidades da Turquia foram outro alvo preferencial da purgação pós-golpe. De acordo com o sindicato dos funcionários públicos Genel-Is, em 2016, 5.295 foram despedidos e mais de 100 detidos. A mais recente onda de prisões ocorreu nesta segunda semana de julho.
 
Golpe contra a liberdade de imprensa
 
O panorama midiático, já fragmentado devido às continuadas investigações e fechamentos anteriores ao golpe, sofreu forte impacto com o estado de emergência. Segundo a iniciativa independente de monitoramento da mídia Platform 24, atualmente 166 jornalistas estão atrás de grades na Turquia. Antes da tentativa de golpe, eles eram cerca de 40.
 
O governo turco afirma que esses profissionais foram encarcerados com base em suas conexões com o Movimento Gülen, ou por atividades relacionadas ao terrorismo – uma alegação contestada pelas organizações de jornalistas. Por outro lado, as leis turcas antiterror são abertas à interpretação, podendo ser facilmente empregadas para legitimar prisões convenientes ao regime.
 
A ONG Anistia Internacional registra que, das organizações de mídia fechadas após o golpe de 15 de julho, apenas 24 conseguiram reabrir, após uma breve interdição. Outras 160 permanecem silenciadas.
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