República Centro-Africana: 'As únicas pessoas que estão em Zemio agora são as que não conseguiram fugir', diz Médicos Sem Fronteiras

Confira entrevista completa com Wil van Roekel sobre a situação do conflito no país; organizações humanitárias tem sido forçadas a sair do país

Conflito iniciado em 2013 entre milícias mulçumanas e cristãs na República Centro-Africana vem aumentando de proporção. Ataques recentes em Zemio, na região sudeste do país, forçaram o hospital local a fechar suas portas e a população a fugir. Conversamos com o coordenador médico de Médicos Sem Fronteiras (MSF) Wil van Roekel que descreve os desdobramentos e impactos da violência. A ONG atua junto ao hospital de Zemio desde 2010 com foco no programa de HIV e em atividades de sensibilização da comunidade, que incluem o apoio a dois postos de saúde e dois centros de malária.


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Opera Mundi - Como é a situação em Zemio hoje?

 

Wil van Roekel - “Durante as últimas semanas, Zemio se tornou uma cidade fantasma. Quase todos foram embora, com medo de novos ataques e de que a cidade se transformasse em um campo de batalha entre diferentes grupos armados. Ao dirigir pela cidade, você encontra casas incendiadas e lojas saqueadas.

A população de Zemio está desacostumada com esse nível de violência e com o fato de ser forçada a fugir sem tempo de se planejar. Os ataques pegaram todo mundo de surpresa. Quando os grupos armados chegaram, as pessoas corriam em todas as direções, deixando panelas no fogão aceso e roupas jogadas por toda parte. Famílias foram separadas e pessoas perderam contato com seus entes queridos.

O risco de ser baleado nas ruas era tão alto que alguns subiam de árvore em árvore à procura de seus familiares. Um dos nossos profissionais locais da equipe teve que esperar dias no hospital antes de poder ir até o campo de pessoas deslocadas internamente, a apenas quatro quilômetros, onde sua família estava se abrigando”.

Como a violência afetou o trabalho de Médicos Sem Fronteiras em Zemio?

No dia 11 de julho, após um bebê ser baleado dentro do hospital de Zemio nos braços da mãe, grande parte da equipe de MSF foi evacuada. Porém, muitos de nossos profissionais locais – homens e mulheres de Zemio – continuaram trabalhando pelo tempo que puderam.

No dia 18 de agosto, homens armados atacaram o hospital novamente e abriram fogo contra as 7 mil pessoas deslocadas que se refugiavam ali, matando 11 delas. Depois disso, quase toda a população de Zemio – incluindo membros de nossa equipe e suas famílias – fugiu.

Cerca de 10 mil pessoas fugiram para o bosque nos arredores da cidade ou para lugares próximos. Outras 10 mil cruzaram a fronteira para a República Democrática do Congo (RDC) e estão abrigadas em um acampamento improvisado na região. O acampamento fica localizado em uma área remota, a dois dias de caminhada do vilarejo mais próximo. Mulheres grávidas são obrigadas a dar à luz no bosque. O número de abrigos é pequeno e há poucos mosqueteiros, o que aumenta o risco já alto de propagação da malária. Não há água potável ou saneamento e nossa equipe de profissionais locais relata um aumento no número de casos de diarreia.

No mês passado, conseguimos realizar algumas visitas a Zemio, quando evacuamos sete pacientes de avião. Esses eram casos mais graves, em sua maioria de ferimentos a bala, incluindo o filho de um profissional de MSF que passou por uma cirurgia na capital, Bangui, e que agora se recuperou”.

Quem a violência mais afetou?

“Mulheres e crianças definitivamente são as mais vulneráveis. Uma menina de 13 anos chegou ao nosso hospital com um ferimento a bala no tórax. Ela havia sido baleada dez dias antes em outra parte da cidade. Para chegar ao hospital apoiado por MSF, ela e sua mãe tiveram que desviar de parte da cidade, cruzando para a RDC e voltando à RCA. Eu fiquei impressionado de ela ter conseguido chegar.

Nós pudemos ajuda-la, mas há milhares de pessoas que passam pela mesma situação e que, agora, estão completamente abandonadas e sem acesso a cuidados médicos básicos.

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Como a violência afetou os pacientes do programa de HIV de MSF em Zemio?

“Nosso programa de HIV era comunitário, com pacientes divididos em grupo. Alguns viviam longe, a até 250 quilômetros de distância. Uma pessoa de cada grupo visitava nossa clínica e buscava uma quantidade suficiente de medicamentos antirretrovirais para que o grupo todo pudesse usar por três meses. Atendíamos cerca de 1.600 pacientes.

Depois do primeiro ataque, nossos profissionais locais tentaram continuar o programa, mas com homens armados nas redondezas do hospital, ficou muito arriscado para os pacientes ir até a clínica e buscar os medicamentos.

Josh Rosenstein

Pessoas esperam para pegar água limpa no hospital de Zemio

Pouco depois do primeiro ataque, nosso estoque, que guardava medicamentos para até seis meses, foi saqueado. Alguns pacientes também relataram que os suprimentos que eles mantinham em casa haviam sido incendiados. Desde os últimos ataques, quando a maioria da população fugiu, perdemos o acesso a esses pacientes e tivemos que suspender o programa”.

Qual efeito a suspensão do programa de HIV de MSF tem no tratamento dos pacientes?

“Nossos pacientes precisam recomeçar o tratamento o mais rapidamente possível, mas claro que isso é ilusório na atual situação. Muito provavelmente, eles estão vivendo com uma quantidade mínima de alimento e sem qualquer acesso a cuidados básicos, então sua condição de saúde vai se deteriorar.

Sem medicamentos antirretrovirais, eles correm grande risco de contrair infecções relacionadas ao HIV, como tuberculose (TB), que também é perigosa para pessoas que não vivem com HIV. A suspensão do programa com certeza aumentará o número de infecções na comunidade”.

MSF ainda trabalha em Zemio?

“Como MSF, estamos acostumados a trabalhar em zonas de conflito e sob condições difíceis, mas hoje a chance de oferecer assistência humanitária em Zemio é próxima de zero. A população caiu de 21 mil pessoas para menos de mil. As únicas pessoas que continuam ali são as que não conseguiram fugir – idosos, deficientes e pessoas retidas no bairro muçulmano, cercadas por diversas facções armadas que batalham entre si.

Os grupos armados em Zemio não respeitam mais agentes humanitários e não se preocupam nem um pouco com os valores de neutralidade e imparcialidade de MSF. Há um grande número de pessoas em risco – algumas delas feridas, todas elas sofrendo – que estão inacessíveis e impossibilitadas de receber assistência.

O hospital de Zemio está deserto porque não é mais considerado um lugar seguro para se estar. Mas as equipes de MSF continuam trabalhando – elas estão indo até o bosque, carregando os medicamentos em mochilas e tentado dar apoio às pessoas que se escondem ali. Também estamos planejando oferecer cuidados médicos do outro lado da fronteira, na RDC. Essas pessoas não podem ser abandonadas”.

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