'Eles estão tentando concluir o golpe', diz Dilma Rousseff sobre julgamento de Lula

rfi - português do brasil
Para petista, a condenação de Lula é a sequência de um golpe que começou com sua destituição do poder, em 2016; 'esse processo de tentar destruir o PT deu errado', disse ex-presidente

Esteja sempre bem informado
Receba todos os dias as principais notícias de Opera Mundi

Receba informações de Opera Mundi

Às vésperas do julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo Tribunal Regional Federal da 4ª região, a ex-presidente Dilma Rousseff concedeu uma entrevista exclusiva ao canal francês France 24. Para a petista, a condenação de Lula é a sequência de um golpe que começou com sua destituição do poder, em 2016. Dilma também considera que os opositores do PT estão tentando, mas não conseguem destruir o partido. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista.


Clique e faça agora uma assinatura solidária de Opera Mundi

France 24 – O ex-presidente Lula foi condenado a nove anos e meio de prisão. O que a senhora espera desse processo? A senhora acredita que ele tem chances de ser inocentado?
Dilma Rousseff – Agora ele está condenado. Amanhã podem absolvê-lo porque o processo está eivado de falhas, está eivado de problemas. O presidente é condenado porque eles estão tentando concluir o golpe. O primeiro ato do golpe é meu impeachment. Derrotamos um projeto neoliberal, a agenda neoliberal, de reforma trabalhista, reforma previdenciária, entregar a Petrobras, entregar a Eletrobras, tirar e privatizar os bancos públicos e brasileiros. Para fazer isso, eles precisam continuar o golpe. Para continuar o golpe, eles têm de eleger alguém em 2018. O presidente Lula é visivelmente inocente e pessoas visivelmente culpadas, como é o caso do atual presidente ilegítimo Temer, que foi gravado. Não é uma ilação de alguém, de um juiz. Ele foi gravado. O assessor dele foi filmado carregando uma mala. Ele foi denunciado em outras circunstâncias e não sofreu. Por quê? Porque a mesma maioria que me levou ao impeachment foi a maioria que deu a ele a impunidade diante de crimes de corrupção.

France 24 - Caso Lula não possa se candidatar, quem seria o nome do PT nessa eleição? A senhora acredita que o PT conseguirá reeleger um novo presidente em 2018?Dilma Rousseff – Por que nós, achando que o presidente é inocente, tiraremos ele do pleito? Eu quero ver tirar ele do pleito. Nós queremos que resolvam esse absurdo que construíram.

France 24 - Mas hoje o presidente Lula corre o risco de não poder se candidatar para a eleição de outubro…
Dilma Rousseff – O Tribunal Regional Federal da 4ª Região solta uma nota dizendo: este processo, que será julgado no dia 24, não é a instância definitiva e por isso o presidente Lula não pode ser preso. A realidade é a seguinte: a cada dia está ficando mais difícil para eles executarem o plano deles. Por que eu antecipo a solução para eles?

Reprodução

"Esse processo de tentar destruir o PT deu errado", disse ex-presidente

Chomsky e personalidades políticas do exterior fazem vídeos em apoio a Lula

Como manter uma colônia ou eliminar um concorrente em 15 passos

Em carta, parlamentares dos EUA falam em 'perseguição' a Lula e pedem que direitos do petista sejam respeitados

 

France 24 - Durante muito tempo o PT foi associado ao progresso social e econômico. Mas, nos últimos anos, o partido também foi implicado em processos de corrupção, como o Mensalão, o escândalo da Petrobras, a Lava-Jato. A imagem do partido foi arranhada. Como a senhora espera mudar isso até a eleição de 2018?
Dilma Rousseff - Só tem um pequeno problema. Esse processo de tentar destruir o PT, como eu te disse, deu errado. Hoje, você vai olhar as últimas pesquisas realizadas e só tem um partido no Brasil, que tem 20% de aprovação, é o PT. A ironia desta história toda é que quem criou as condições para investigação de corrupção foi o governo do presidente Lula e o meu. Um senador da República foi gravado dizendo, antes do meu impeachment, convencendo um outro senador de que eu tinha que ser afastada. Ele disse o seguinte: "vamos afastar a presidenta Dilma senão a sangria não vai ser interrompida, porque ela não vai impedir a investigação de corrupção.

France 24 - Nós assistimos a um aumento do conservadorismo no Brasil. O deputado de extrema-direita Jair Bolsonaro aparece em segundo lugar nas pesquisas para a eleição presidencial de 2018. Alguns manifestantes pedem uma intervenção militar. Como a senhora reage a tudo isso? A senhora, que combateu a ditadura e que foi vítima de tortura, acredita que podemos viver novamente algo similar em um futuro próximo?
Dilma Rousseff - Eu quero dizer que acho que essas manifestações a respeito de intervenção militar são minoritárias e absolutamente segregadas. A certeza que eu tenho em relação às Forças Armadas brasileiras é que essas são Forças Armadas muito democráticas.

France 24 - Independentemente do resultado do processo do ex-presidente Lula, quais são suas expectativas para a eleição presidencial de outubro de 2018?
Dilma Rousseff - Eu acredito que é muito importante o que vai ocorrer no Brasil em outubro de 2018. Eu acho que o presidente Lula não é uma pessoa radical e a vida dele prova. O presidente Lula é uma pessoa da conciliação, de tentar, mantendo uma direção de defesa dos interesses do povo brasileiro, ele é capaz de construir um reencontro das pessoas. Nós podemos sustar o golpe, sustar todas as medidas neoliberais que estão sendo implantadas, sustar o fato de terem submetido ao Brasil a talvez uma das maiores perdas de respeitabilidade internacional. O Brasil, do ponto de vista deste governo ilegítimo, ficou de joelhos. É isso que nós vamos ter que resolver e é lá que se joga. Vai se julgar daqui até lá. Nós conseguimos reduzir na última década a desigualdade. Agora nós estamos diante da necessidade de dar um segundo passo. O que é o segundo passo? O segundo passo é distribuição de riqueza.

France 24 - E o que a senhora responde a seus opositores, que dizem que o Partido dos Trabalhadores ficou mais de dez anos no poder e se questionam porque essas mudanças não foram feitas antes?
Dilma Rousseff - Porque, pelo mesmo motivo, que todos que eu tentei eu não consegui. Porque não é possível que esse Congresso o faça. Esse Congresso não será capaz de fazer isso. Esse Congresso faz o contrário. Esse Congresso penaliza o povo e despenaliza, sob a argumentação, a velha argumentação, que existe desde o Segundo Império, de que isso vai acabar com a economia nacional.

France 24 - A senhora pretende se candidatar para algum cargo legislativo ou executivo?
Dilma Rousseff - Olha, eu se tiver alguma possibilidade de volta, vou avaliar se eu volto e concorro a algum cargo do legislativo. Eu quero te dizer que, na minha vida toda, eu só tive dois cargos. Os dois foram para presidente da República, o meu primeiro mandato e o meu segundo. Mas na minha vida toda, eu fiz política. E eu acho que não é necessário ter um cargo legislativo ou executivo para se fazer política. Se há de convir, eu comecei a fazer política eu tinha 16 anos. Eu fui presa eu tinha 20, 21. E, na minha vida inteira, eu entendi que política, no bom sentido ocidental palavra, é você sair de si mesmo, sair de seus interesses mais egoístas, ou seus interesses não-egoístas, seus privados, sair deles, e pensar sua comunidade, né? Ou pensar seu país, ou pensar seu estado - ou quem está trabalhando em uma prefeitura - na sua prefeitura. E acho que sem política não há democracia.

Publicado originalmente em Rfi

Outras Notícias

X

Assine e receba as últimas notícias

Receba informações de Opera Mundi

Destaques

Publicidade

Escravidão e Liberdade

Escravidão e Liberdade

A editora Alameda traz uma seleção especial de livros escravidão, abolição do trabalho escravo e sobre cultura negra. Conheça o trabalho de pesquisadores que se dedicaram profundamente a esses temas, centrais para o debate da questão racial e da história do Brasil. 

Leia Mais

A revista virtual
desnorteada

O melhor da imprensa independente

Mais Lidas

Últimas notícias

Irlandeses votam a favor da legalização do aborto

Maioria significativa respondeu com 'sim' em referendo sobre reforma da atual legislação do aborto na Irlanda, uma das mais restritivas da Europa; autoridades governamentais saúdam vitória da democracia em dia histórico

 

Philip Roth: um escritor aberto ao outro

Aos poucos, a geração de escritores que me formou e que foi decisiva na minha opção por estudar a literatura contemporânea vai terminando; e eu vou ficando cada vez menos contemporâneo