Vilarejo vira símbolo de movimento antinuclear na França

Deutsche Welle
Bure, um lugarejo de 90 habitantes, resiste firme à intenção das autoridades de depositar dejetos radioativos em suas terras – apesar de violência policial e tentadoras compensações financeiras

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Os manifestantes antinucleares arrastam tábuas e vigas pelos campos enlameados fora de Bure, um lugarejo de apenas 90 habitantes no nordeste da França. Eles estão se preparando para construir uma casa de árvore no bosque de Bois Lejuc, no lugar que foram destruídas pela polícia, alguns dias antes.


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Em 22 de fevereiro de 2018, os agentes da lei foram enviados para retirar do local algumas dezenas de ativistas que ocupavam as matas em protesto contra os planos de Paris de enterrar lixo radioativo em Bure. A operação, ao nascer do dia, pegou os manifestantes de surpresa.

"Um monte de policiais veio do bosque para demolir as nossas casas e destruir tudo o que tínhamos criado", conta um ativista, pedindo para permanecer anônimo. Como muitos de seus companheiros, ele esconde o rosto atrás de uma máscara de coruja.

Embora as tensões entre a polícia e os ativistas venham crescendo nas últimas semanas, a oposição ao projeto já data de décadas. Os resíduos radioativos são um problema na França, que extrai 70% de sua eletricidade de 58 usinas nucleares.

Em 1998, a agência nacional francesa de dejetos radioativos Andra começou a trabalhar num vasto laboratório subterrâneo dedicado à pesquisa da geologia de Bure, com o fim de determinar se o sítio se adequava a abrigar um repositório geológico profundo.

A finalidade é armazenar, a 500 metros de profundidade, 80 mil toneladas cúbicas de resíduos altamente radioativos, os quais permanecem nocivos aos seres humanos por dezenas de milhares de anos.

"Nossos cientistas vêm estudando há mais de 25 anos a viabilidade de depósitos geológicos profundos", diz Frederic Plas, diretor de pesquisa da Andra. "No laboratório de Bure, pesquisamos as características do sítio e testamos a formação de rochas argilosas, para determinar se ele é capaz ou não de conter a radioatividade."

DW/C. Rush

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Segurança garantida – quase

O deputado Bertrand Pancher, do Parlamento local, afirma estar convencido de que o projeto é seguro. "É a melhor opção em termos de segurança, e nós, representantes eleitos, ficamos satisfeitos com os debates públicos travados sobre esse tópico. A lei que autoriza a pesquisa para depósitos geológicos profundos também exige que os dejetos sejam resgatáveis por um século, significando que podemos removê-los, caso apareça qualquer problema."

O conceito de "resgatabilidade" é central ao debate. Essa provisão na lei francesa sobre os repositórios profundos visa, em parte, problemas imprevistos no armazenamento, mas em primeira linha se refere à eventualidade de os cientistas descobrirem uma forma mais adequada de guardar os resíduos.

"A ideia não é enterrar e esquecer para sempre", confirma Nicolas Mazzucchi, especialista em energia do think tank parisiense Fondation pour la Recherche Stratégique (FRS).

A maior parte dos cientistas afirma que armazenar o lixo radioativo nas camadas subterrâneas é mais seguro do que sobre o solo, onde pode estar exposto aos elementos da natureza e até a atos de terrorismo. No entanto, poucas pessoas estão dispostas a viver ao lado de um desses depósitos, e por isso os sítios potenciais costumam se situar em áreas remotas como Bure.

Resistência determinada

Para adoçar o acordo, o governo francês apela para uma lei de 1991,que dá às regiões que abriguem dejetos atômicos o direito a ajuda financeira estatal. As duas municipalidades vizinhas ao laboratório de Bure recebem, cada uma, cerca de 30 milhões por ano – uma soma considerável para áreas rurais com população minguante.

Contudo, para os moradores, a intervenção violenta da polícia aos protestos, até mesmo com gás lacrimogêneo, não é um bom sinal de que o Estado esteja colocando os interesses deles em primeiro lugar.

"Tenho lutado contra esse projeto há 25 anos", comenta o agricultor local Jean-Pierre Simon. "O governo quer esmagar a oposição e se apropriar da terra. No fim das contas, não vai mais haver fazendeiros, e a Andra vai poder fazer o que quiser."

Por enquanto, Bure é apenas um laboratório, pois o governo ainda não deu autorização para que o sítio seja operado como repositório geológico profundo. E os ativistas locais estão determinados a garantir que as coisas permanecerão assim.

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