Aline Barros e os preconceitos que mancham a história do gospel

‘A artista gozou de sua liberdade de expressão para emitir sua opinião? Pois bem, ao disseminar preconceitos, acabou por emitir, além de sua opinião, um atestado de ignorância’

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Em setembro de 1963, 4 meninas negras foram assassinadas por um bombardeio preconizado por um membro da Ku Klux Klan numa igreja batista em Birmingham, no Alabama. Este episódio triste da história dos estados sulistas teria caído em esquecimento se não fosse a Nina Simone compor uma canção que ficou consagrada contra o racismo no Sul em memória às meninas com Mississippi Goddam. Na música ela liga a tristeza que sentira pelo que ocorrera no Alabama às chagas do racismo no Tennessee e no Mississippi.


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Nina Simone, Billy Holliday e Bessie Smith fazem parte de uma vasta tradição do gospel com movimentos de direitos civis, desde os "spirituals" e das "work songs" que se remetem à escravatura. Evidentemente essas cantoras elencavam o gospel com outros arranjos musicais, mas no hibridismo da música, reafirmam suas raízes no gospel. Até hoje os corais gospel do Harlem cantam contra injustiças sociais nas pentecostais. Os processos reflexivos de um gospel que almeja a inclusão, o acolhimento e a justiça social, contudo, não são o único timbre audível neste universo musical.

A força da empatia não encontra ressonância quando a cantora gospel brasileira Aline Barros - que diga-se de passagem, não tem as cordas vocais eletrizantes de uma Nina Simone, Billy Holliday ou de Lauryn Hill - vem ao público para manifestar que “não concorda com a homossexualidade”.

Reprodução/Facebook

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Atualmente, cantores gospel vêm se assumindo abertamente, como Sam Alves, Trey Pearson, Vicky Beeching, Rey Boltz, Jennifer Knapp, entre muitos outros. É comum encontrar bandeiras de arco-íris nas portas de templos evangélicos em várias partes do mundo para identificar que se trata de um espaço seguro para LGBTs. Inclusive nos deparamos com a crescente iminência de pastores abertamente homossexuais. Ao trazer a diversidade para os templos evangélicos, sinalizam que a homossexualidade coexiste pacificamente com o sagrado.

Até o Papa Francisco já se retratou sobre o tratamento preconceituoso da Igreja com os LGBTs. Ou seja, está mais do que na hora de pararmos de usar o sagrado como desculpa para disseminar preconceitos.

Preconceito não é opinião, posto que fere e mata todos os dias. Liberdade de expressão não é liberdade de racismo, machismo ou de homofobia. Preconceitos geram violência. Se um vestido azul ficou bem na artista é uma questão de opinião. Se ela prefere jazz ou música sertaneja é questão de opinião. Se ela prefere ler James Joyce ou Paulo Coelho é questão de opinião. Mas quando sua opinião fere a declaração universal dos direitos humanos, ela não está apenas emitindo uma opinião, mas disseminando ódio. Não cabe a ela ou a ninguém concordar ou discordar de uma pessoa ser homossexual ou ser de uma minoria. A pessoa que é gay não escolhe sê-lo, ela apenas ama outra pessoa do mesmo sexo. É amor. Não precisa concordar, precisa respeitar.

O que os preconceituosos chamam de "ditadura do politicamente correto" eu chamo de inteligência, respeito aos diferentes e bondade no sentido mais cristão da palavra: "amai ao próximo como a ti mesmo". Jesus Cristo defendeu uma prostituta incitando quem fosse isento de pecados a atirar a primeira pedra. Pois bem, cada palavra de ódio e segregação social é uma pedra lançada contra as palavras de Jesus Cristo.

Com efeito, não existe liberdade irrestrita de expressão. Se você entrar num cinema e gritar "fogo", você vai preso. Pois por mais livre que você seja para se expressar, você é responsável pelas consequências do que você diz. Ao gritar "fogo" numa sala de cinema, você provoca um alvoroço, um temor coletivo.

Quando alguém vai a uma rede pública e explicita racismo, isso é um crime inafiançável, pois endossa uma exclusão racial que produziu um abismo socioeconômico desde a chegada dos primeiros navios negreiros e prevalece até os dias de hoje. Embora a homofobia não seja criminalizada, ela é socialmente reprovável, por motivos análogos.

O que isso significa? Que apesar de não dar cadeia, muitas pessoas, mas muitas pessoas mesmo, vão desprezar a pessoa por sua falta de inteligência. Aline Barros é livre para falar contra LGBTs, mas sua crueldade não passará incólume pela opinião pública. A artista gozou de sua liberdade de expressão para emitir sua opinião? Pois bem, ao disseminar preconceitos, acabou por emitir, além de sua opinião, um atestado de ignorância. E a boca do povo jamais perdoa a ignorância dos preconceituosos.

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