Raúl Castro: a trajetória do 'discreto e implacável' guerrilheiro cubano

Ícone da Revolução deixará cargo nesta quinta-feira (19/04) após 10 anos no poder; Raúl exerceu importante papel na derrubada de Fulgencio Batista em 1959

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Após 10 anos à frente de Cuba, Raul Castro, um dos maiores ícones da Revolução Cubana, deixará a presidência nesta quinta-feira (19/04), abrindo caminho para um novo momento de transição política na ilha. A análise de sua trajetória como guerrilheiro mostra que seu papel na história teve grande relevância e não se restringiu a estar à sombra de seu irmão mais velho, Fidel Castro.


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Nascido em 3 de junho de 1931, em Bíran, na província de Holguín, Raul é o mais novo dos sete irmãos Castro. Desde a juventude, período em que cursou ciências sociais, já demonstrava que suas tendências políticas eram consonantes, mas não submissas às de Fidel: aos 20 anos, em 1953, se vinculou à Juventude Socialista, uma divisão do Partido Socialista Popular (PSP) que tinha o modelo soviético como base teórica; ao contrário de seu irmão, que pertencia ao Partido Ortodoxo, de inclinação nacionalista de esquerda.

No mesmo ano, o discreto e implacável Raúl – como é geralmente definido – teve um papel essencial no ataque ao quartel de Moncada. O objetivo da missão era a derrubada do ditador cubano Fulgencio Batista. Depois do fracasso da tentativa, foi ele quem conseguiu desarmar um dos sargentos do regime para libertar seus companheiros.

Após ser capturado junto com os poucos sobreviventes do ataque, Raúl foi condenado a 13 anos de prisão. No entanto, depois de dois anos, em 1955, foi anistiado por Batista, sendo obrigado a se exilar junto com Fidel e os demais companheiros de guerrilha no México.

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Foi durante sua estadia no México que se desenrolou um dos momentos de maior relevância na história cubana: ele conheceu o então médico argentino Ernesto Che Guevarra. Impactado com a figura do homem que mais tarde se tornaria um dos principais símbolos do triunfo revolucionário de Cuba, Raúl decidiu apresentar Che a seu irmão Fidel.

Ciente dos riscos que envolviam seu retorno à guerrilha, Raúl escreve seu testamento político ao embarcar, em 1956, a bordo do Granma, que tinha como destino a província oriental de Cuba. O receio era justificado: a nova tentativa insurrecional contra o regime militar de Batista já era prevista pelo exército, que conseguiu eliminar parte dos combatentes, vencendo a batalha.

Sierra Maestra

Em dezembro do mesmo ano, Raúl reencontra Fidel às vésperas do início da campanha em Sierra Maestra. Seu parentesco com o então líder do Exército Rebelde não lhe rendeu nenhum privilégio: Raúl participou da batalha como um simples guerrilheiro, indistinto de qualquer outro.

Em fevereiro de 1958, após mais de um ano na linha de frente do combate, é nomeado comandante do Exército Rebelde. Sua primeira grande incumbência data deste ano, quando é encarregado por Fidel de abrir uma segunda frente de batalha no nordeste de Sierra Maestra.

A coluna de guerrilheiros nº 6, batizada de Segunda Frente “Frank País”, é responsável, sob o comando de Raúl, pela libertação de um amplo território ao nordeste de Sierra Maestra.

“A forma como estes camponeses de Sierra Maestra se esforçaram para tomar conta de nós é admirável. Toda a grandeza da alma cubana se encontra aqui”, escreve em seu diário. Para garantir a possibilidade de permanência na região e assegurar meios para que os camponeses locais sejam amparados, Raúl passa a criar hospitais, escolas e fábricas na região.

Foi responsável pela operação que sequestrou civis e militares dos Estados Unidos para obrigar que o país norte-americano parasse com os bombardeios em Sierra Maestra. O artifício obteve sucesso, encerrando os ataques. “Os militares estadunidenses foram tratados tão bem, e foram tão convencidos pelos argumentos rebeldes, que vários deles desejavam ficar e lutar contra Batista”, afirmou a revista Time. Segundo a matéria, o intuito de Raúl era "dar uma lição em Washington".

A partir de 1959, após o triunfo da revolução, Raúl se torna formalmente ministro das Forças Armadas, posto que ocupou até 2008, quando assumiu a presidência no lugar de Fidel. Neste cargo, Raúl ocupou um posto-chave no período em que Havana deu apoio às guerrilhas que lançaram campanha em outros países, como no caso da Etiópia (1977-1978) e de Angola (1975-1991).

Sobre a possibilidade de espalhar a experiência cubana para outras regiões, disse em setembro de 1961, durante discurso para a Federação Geral dos Trabalhadores do Oriente: “embora o processo histórico da humanidade seja inevitável e invariável, certamente poderia ser que a vitória e total consolidação de nossa revolução possa aproximar enormemente e encurtar muito o caminho destes povos irmãos da América Latina”.

Depois de derrubar Batista, enquanto Fidel se mantinha encarregado das funções governamentais, Raúl foi o responsável por estruturar dois pilares institucionais da revolução: o Partido Comunista e as Forças Armadas Revolucionárias (FAR).

Em 1976 é promovido a General do Exército cubano. Além disso, com a adoção da nova Constituição, implementada no mesmo ano, Raúl é eleito vice-presidente de Cuba, posto ao qual seria reeleito até 2006. Também foi eleito como deputado e vice-presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros, igualmente de 1976 a 2006.

Por causa do quadro de saúde de Fidel, assumiu a presidência interinamente em 31 de julho de 2006. “Fidel é insubstituível, a menos que o substituamos todos juntos”, afirmou ao assumir o cargo. Em 24 de fevereiro de 2008, torna-se formalmente o presidente de Cuba.

Hoje, aos 86 anos, se prepara para deixar o cargo, após promover mudanças históricas na ilha. A maior delas, a volta das negociações diplomáticas com os Estados Unidos em 2014, algo inédito desde 1960 e ameaçado com a chegada de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos.

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