Michael Löwy: Paul Singer (1932-2018), socialista solidário

Sociólogo homenageia o amigo, intelectual e incansável militante socialista Paul Singer

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Com o falecimento de Paul Singer perde o socialismo brasileiro uma de suas figuras mais generosas. Fugindo do nazismo, que havia anexado a sua Áustria natal em 1938, o menino judeu Paul Israel Singer chega ao Brasil acompanhado de sua mãe no ano de 1940. Trabalhador metalúrgico, foi um dos organizadores da grande greve de 1953. Depois de uma passagem pelo movimento de juventude sionista-socialista Dror, do qual foi um dos dirigentes, opta pela luta socialista no Brasil. Marxista convicto e confesso, se matricula no curso de Economia Política na Universidade de São Paulo em 1956 e participa, a partir de 1959, do seminário informal de leitura do Capital de Marx iniciado por Fernando Henrique Cardoso. Membro do Partido Socialista Brasileiro, é perseguido pela Ditadura Militar em 1964; excluído da Universidade, será um dos criadores do Cebrap em 1969.


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Em 1980, Singer é um dos fundadores do PT, partido ao qual permanecerá fiel até o fim de sua vida. Foi secretário de Planejamento na gestão de Luiza Erundina na Prefeitura de São Paulo entre 1989 e 1993. A partir de 1992, passa a se entusiasmar pela economia solidária, que será sua grande paixão intelectual e política nas próximas décadas. Com a eleição de Lula em 2002, assume a Secretaria de Economia Solidária, ligada ao Ministério do Trabalho, onde desenvolverá durante 14 anos um trabalho considerável de promoção de cooperativas autogeridas pelos trabalhadores.

Pensador, educador, militante, Paul Singer nunca separou teoria e prática, pensamento e ação. Generoso, se entregou de corpo e alma à causa de um socialismo democrático e autogestionário. Sua integridade, sua coerência moral e política, sua ausência de qualquer sectarismo, sua estatura de intelectual comprometido com a causa dos trabalhadores, lhe valeram a simpatia e o respeito de todas as sensibilidades da esquerda brasileira.

Reprodução

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Paulo e Michael

Gostaria de dar aqui um breve testemunho pessoal de minha amizade com Paulo (assim o chamava), desde os anos 50. Em 1954, aos 16 anos de idade, aconselhado por meu irmão Peter, que o conhecera no Dror, fui procurá-lo para pedir uma orientação. Com ele, aprendi o ABC do socialismo e do sindicalismo, alguns rudimentos de economia marxista e, sobretudo, conheci o pensamento de Rosa Luxemburgo. Foi uma verdadeira iluminação profana, uma paixão pela figura e pelas ideias da grande revolucionária – paixão que dura até hoje… Esta é uma dívida imensa que tenho com o amigo Paulo.

Singer nessa época estava saindo do Partido Socialista, decepcionado com sua adesão ao janismo. Partidário de um socialismo revolucionário, era alérgico ao stalinismo e crítico em relação ao leninismo. Sua principal referência internacional era um partido marxista norte-americano, dissidente do trotskismo, a Independent Socialist League, fundada nos anos 1940 por Max Schachtman e Hal Draper. A ISL era muito crítica à União Soviética stalinista, que ela não considerava ser um Estado operário burocratizado (tese de Leon Trótski), mas sim uma nova sociedade de classes que designava “coletivismo burocrático”. Hoje em dia essas discussões parecem exóticas, mas na época eram questões políticas candentes…

Em 1955 Paulo encontrou-se com Hermínio Sacchetta e Maurício Tragtenberg, ex-dirigentes do PCB, e depois do trotskismo brasileiro, do qual haviam recentemente se afastado – Tragtenberg, já nessa época um marxista libertário –, e junto com mais algumas outras figuras, resolveram fundar uma pequena organização de inspiração estritamente luxemburguista: a Liga Socialista Independente. Eu o acompanhei nessa aventura e permaneci na LSI quando Paulo, um ou dois mais tarde, acabou se afastando e retornou ao Partido Socialista.

Durante meus anos na França, mantivemos algum contato epistolar, mas é a partir de 1979, quando recomeço a visitar o Brasil, que nossos laços de amizade voltam a se estreitar, tanto mais que partilhávamos o entusiasmo com a criação do PT. Cada vez que vinha ao Brasil com minha companheira Eleni – que tinha muito carinho e admiração por ele – não deixávamos de visitar Paulo e Melanie. Me lembro de longas conversas e discussões sobre questões do socialismo: eu defendia o princípio da planificação democrática e o Paulo uma economia solidária dentro do mercado. Paulo sempre abordava essas controvérsias com generosidade e modéstia, sem nenhuma pretensão de impor suas ideias. Me recordo de sua reação quando meus amigos excluídos ou dissidentes do PT fundaram um novo partido, o PSOL: “é bom para o PT que haja uma oposição de esquerda…” Ele frequentemente criticava as decisões econômicas do governo – por exemplo, o ajuste fiscal de Dilma – mas estava convencido de que havia a possibilidade, na Secretaria, de semear economia solidária pelo Brasil afora: seria esse o caminho que poderia conduzir ao socialismo.

Paulo ficou profundamente abalado, física e moralmente, com o golpe pseudoinstitucional contra Dilma. Era um golpe fatal a todo o trabalho que ele havia desenvolvido durante quatorze anos. Mas sua herança intelectual, ética e política nunca será apagada, nem esquecida.

(*) Publicado no Blog da Boitempo

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