Operação Condor: Montoneros sequestrados no Peru por agentes da Argentina passaram pelo Brasil, diz documento

Documento foi encontrado no arquivo do Ministério de Relações Exteriores argentino; uma das sequestradas foi encontrada morta em um quarto de hotel em Madri um mês após rapto

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Um documento encontrado nos arquivos do Ministério de Relações Exteriores da Argentina mostra que militantes do grupo guerrilheiro Montoneros passaram pela sede da Polícia Federal brasileira em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, em 1980, após serem sequestrados no Peru. Um mês depois, uma das detidas, Noemi Ester Gianneti de Molfino, foi encontrada morta em um quarto de hotel em Madri.


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O documento, encontrado no arquivo do Ministério de Relações Exteriores argentino, foi apresentado nesta segunda-feira (14/05) pelo fotógrafo argentino Gustavo Carlo Molfino em Roma, durante o julgamento de um processo que tramita na Justiça italiana e apura o envolvimento de ex-agentes militares brasileiros no sequestro e assassinato do ítalo-argentino Loreno Viñas Gigli, ocorrido em 1980, durante a vigência da Operação Condor. Opera Mundi é o único veículo de imprensa brasileiro a acompanhar o processo.

O informe número 625, descrito como secreto, é datado de 23 de junho e considerado “muito urgente”. Proveniente de Brasília, diz que “a Polícia Federal brasileira informou que deteve em Corumbá, no Estado do Mato Grosso do Sul, os seguintes cidadãos argentinos: Pilar Abel Cesar, Julio Cesar Ramirez, Noemi Esther Granneth de Monfino [o nome está com a grafia errada] e Maria Ines Roserta Pas.” Ainda segundo o documento, os quatro vinham da Bolívia com a intenção de viajar para a Europa. Ficariam em custódia da polícia brasileira até 24 de junho.

Arquivo Pessoal/Reprodução

Documento encontrado nos arquivos do governo argentino mostra que Montoneros sequestrados passaram pelo Brasil

“Não tínhamos a menor ideia de que eles tivessem passado pelo Brasil”, diz Molfino, enquanto relata, emocionado, sua história aos integrantes da I Corte de Assis, do Tribunal de Roma. “Minha família é o espelho da ditadura argentina: tenho parentes que foram presos, sequestrados, desaparecidos, assassinados, exilados e recuperados.”

A história de Gustavo é um exemplo de como a Operação Condor conseguia reunir, em um mesmo ato, agentes de várias ditaduras da América do Sul.

Sequestros da ditadura argentina

A filha e o genro de Noemi foram sequestrados na Argentina pelo Batalhão 601 (que fazia parte do aparato de inteligência e repressão da ditadura do país) em 17 de outubro de 1979 e levados para o centro de tortura e prisão clandestina Campo de Marzo, em Buenos Aires. 

Sem notícias da filha e do genro, Noemi Ester Gianneti de Molfino, que vivia em Madri com Gustavo, começou a denunciar na Europa o desaparecimento da filha, do genro e a ditadura argentina. Esteve inclusive na sede das Nações Unidas em 1980. “Minha mãe não era militante do Montoneros, mas colaborava com a organização, ela achava as casas que serviriam de base para a militância”, diz.

Em junho de 1980, Noemi e Gustavo aproveitam a troca de governo peruano – o país estava saindo de uma ditadura para um regime democrático – e vão a Lima com outros Montoneros para denunciar o caso. O grupo estava em uma casa na região central da cidade. Gustavo, que na época tinha 18 anos, era responsável por contatar políticos de esquerda que pudessem ajudá-los a pressionar o governo argentino a dar informações sobre o paradeiro da irmã e do cunhado.

Segundo o fotógrafo, a primeira a ser sequestrada foi Maria Ines. “Saía e entrava diversas vezes naquela casa. Até que saí, fui a um telefone público que ficava ali perto e percebi que a casa estava circundada por agentes à paisana e armados”, conta Gustavo. “Decidi caminhar em direção à casa e, nesse momento, meus olhos cruzaram com os de Maria Ines, que estava sentada no banco traseiro de um carro. Ela me olhou e acenou negativamente. Entendi, voltei ao telefone público e liguei para minha mãe. Contei o que estava acontecendo e ela me disse para escapar, que havia a vida inteira pela frente”. Era 12 de junho, a última vez em que Gustavo viu a mãe viva.

Molfino diz que o sequestro de sua mãe e dos outros militantes foi organizado pelo Batalhão 601 com ajuda do Exército peruano. Gustavo fez o que a mãe lhe pediu e escapou. Contatou um deputado peruano que o ajudou e ficou escondido durante um mês em uma casa em Lima.

Janaina Cesar/Opera Mundi

Audiência em Roma ouviu o fotógrafo Gustavo de Molfino, cuja mãe foi sequestrada pela ditadura argentina

'Governo do Peru lavou as mãos'

Gustavo diz que existem documentos desclassificados onde o chefe do Exército do Peru pede para que a operação fosse rápida e que os sequestrados fossem levados para o exterior. “O governo peruano decidiu mandar o problema para a Bolívia, pois eles tinham um regime democrático e a Bolívia tinha acabado de sofrer um golpe comandado por Luis García Meza. Os sequestrados foram entregues na fronteira entre os dois países e um jornal publicou fotos deles algemados. O Peru quis lavar as mãos para o problema”, diz.

Sozinho e na clandestinidade em Lima, ouve na rádio que a polícia espanhola havia encontrado o corpo de sua mãe em um hotel de Madri. Era 21 de julho de 1980. “Minha mãe foi levada para a Espanha em um voo de uma companhia de bandeira. A aeromoça do voo depôs na polícia e disse que ela estava acompanhada por dois homens e que, quando, ia ao banheiro, um deles a esperava na porta e a levava de volta para seu lugar. Tal situação era inusitada e isso chamou a atenção dela”, relata o fotógrafo.

Em julho, faz muito calor na Espanha, é pleno verão europeu. Quem assassinou Noemi de Molfino sabia que, cobrindo o corpo, a decomposição seria veloz. Já estava em fase avançada quando foi descoberto. Foi o cheiro forte que fez com que os vizinhos do quarto do hotel chamassem a polícia. “Minha mãe tinha uma cicatriz de uma cesárea, mas só foi possível identificá-la por causa da má-formação da unha do pé”, conta Gustavo. 

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Noemi Ester, morta pelo governo argentino na Espanha (Foto: Arquivo pessoal)Para ele, sua mãe foi assassinada em Madri por causa da pressão internacional decorrente de seu sequestro. “Os militares argentinos deveriam fazer algo para desmentir o que havia acontecido no Peru.” 

Mães da Praça de Maio

Anos depois, Gustavo recebeu uma ligação do grupo Mães da Praça de Maio, pedindo que fizesse um exame de DNA. Assim, ele acaba descobrindo que tem um sobrinho, nascido em junho de 1980 e que havia sido criado por um membro do Batalhão 601. A irmã de Gustavo estava grávida e, por isso, os torturadores a mantiveram viva até que a criança nascesse.

Foi Silvia Tolchinsky, uma militante Montonero que havia conhecido a irmã de Gustavo no Campo de Marzo, que confirmou que ela estava esperando um filho. Segundo o fotógrafo argentino, o sobrinho começou a desconfiar que não fosse filho daquela família com quem vivia porque sabia que o “pai” era do Batalhão 601.

Sobre o documento, Gustavo diz que advogados de famílias vítimas do regime militar entraram em contato com o governo brasileiro pedindo informações, mas que obtiveram somente silêncio, nenhuma resposta foi dada até o momento.

“O testemunho de Molfino serve para exemplificar como funcionava a Operação Condor”, diz Tiziana Cugini, procuradora do caso.

Processo

O processo sobre a Operação Condor que tramita na justiça italiana julga o envolvimento dos ex-agentes militares brasileiros João Osvaldo Leivas Job, Calos Alberto Ponzi e Átila Rohrsetzer no sequestro e assassinato de Viñas Gigli, ocorrido em 1980, época de atuação do Plano. 

Segundo o Ministério Público italiano, na data em que Viñas foi sequestrado, Leivas Job era secretário de Segurança do Rio Grande do Sul; Ponzi chefiava a agência do Serviço Nacional de Informações (SNI) em Porto Alegre; Rohrsetzer era diretor da Divisão Central de Informações do Rio Grande do Sul; e Silva, delegado de polícia, cobria o cargo de diretor do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) do Rio Grande do Sul.

O caso analisado diz respeito ao Brasil e é um desdobramento do grande processo Condor, que, em janeiro deste ano condenou 8 ex-presidentes e militares sul-americanos à prisão perpétua por assassinatos de cidadãos de origem italiana cometidos entre 1973 e 1980. Além deles, outros 19 acusados foram absolvidos. O Ministério Público italiano entrou com recurso e a data da audiência de apelação é 21 de junho.

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