50 Anos de 68: Massacre de Tlatelolco deve ser lembrado como 'símbolo de resistência', diz pesquisador

Já para historiadora, que também participou de evento na USP sobre os 50 anos de 1968, postura do Estado mexicano é a de 'esconder e acobertar' até hoje os responsáveis; número de mortos nunca foi confirmado

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Na noite de 2 de outubro de 1968, dez dias antes da abertura dos Jogos Olímpicos no México, a polícia abre fogo contra estudantes e trabalhadores que protestavam na Plaza de las Tres Culturas, região central da Cidade do México, contra a invasão das forças armadas na Universidade Nacional Autônoma. Cinquenta anos depois do que ficou conhecido como Massacre de Tlatelolco, o número de mortos ainda é incerto e nenhum responsável foi punido.


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O tema foi o assunto do debate "México 1968: O massacre da Praça de Tlatelolco", realizado dentro do simpósio "Cinquenta Anos de 1968 : A Era de Todas as Viradas", que acontece na USP (Universidade de São Paulo) até esta sexta-feira (08/06). A programação completa pode ser encontrada aqui.

Para Waldo Sanchez, doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam) da USP, o massacre deve ser lembrado como “símbolo de resistência universal”, por ter sido impetrado contra “um movimento que lutava, acima de tudo, por democracia e justiça”. Sanchez ainda critica a postura do Estado mexicano durante todos esses anos que, segundo ele, “segue utilizando as mesmas táticas contra movimentos sociais”. “O Estado é responsável por isso. Apesar dos 50 anos passados, a demanda por democracia e justiça ainda estão pendentes”, afirma.

Já segundo Azucena Jaso, mestra pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade de São Paulo (USP), “o massacre não acabou com o movimento”, fato provado por outras manifestações que se seguiram após outubro e pela criação de centros sociais criados por estudantes.

“Estudantes de engenharia, arquitetura, biologia, passaram a trabalhar em acampamentos de migrantes rurais na periferia da cidade em propostas sociais de auto-gestão”, explica. Segundo a historiadora, “muitos estudantes que participaram do movimento de 1968, acabaram trabalhando no governo de Luís Echeverría [1970-1976]”, na tentativa de transformar o sistema por dentro. Echeverría era secretário de Governo de Díaz Ordaz na época do massacre.

Sobre a impunidade e a participação do Estado mexicano no massacre, Jaso afirma que tais práticas continuaram a ser utilizadas pelos governos posteriores, “principalmente contra as forças zapatistas”.

O Massacre de Tlateloco

O massacre foi precedido por meses de intensa mobilização social e estudantil que, aproveitando a atenção mundial que o México recebia devido à realização das Olímpiadas, iniciaram uma série de manifestações e atos pelo país. Categorias como a dos trabalhadores ferroviários e médicos também começaram a se mobilizar em assembleias e protestos duramente reprimidos pelas Forças Armadas, a mando do governo do então presidente Gustavo Diaz Ordaz (1964-1970).

Autoritário e centralizador, Díaz Ordaz foi responsável em seu mandato por inúmeros atos de repressão contra movimentos populares, inclusive o de Tlatelolco. Foi durante seu governo que a Universidade Nacional Autônoma do México foi invadida pelo Exército, em uma manobra que visava conter os protestos e greves estudantis.

Em resposta, cerca de 15 mil estudantes foram às ruas da Cidade do México no dia 2 de outubro empunhando cravos vermelhos em sinal de protesto contra a invasão militar na Universidade. À tarde, se concentraram na Plaza de las Tres Culturas, onde ocorreu o massacre. Tropas das forças armadas atiraram contra os manifestantes e invadiram casas e apartamentos do entorno em busca de sobreviventes que tentavam fugir.

O verdadeiro número de vítimas é desconhecido até hoje. Segundo fontes governamentais, foram 36 mortos e 40 feridos, mas outros levantamentos realizados por embaixadas falam entre 200 e 300 mortos.

Wikicommons

Para historiadora, postura do Estado mexicano é a de “esconder e acobertar” até hoje os responsáveis

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Após o massacre

O movimento estudantil ficou abalado após o ato brutal em Tlatelolco. As lideranças foram criminalizadas e muitas foram obrigadas a se exilar. Grande parte da imprensa se colocou contrária ao movimento, chamando os estudantes de “terroristas”, ou reproduziram o discurso governamental de que os manifestantes sofriam “influências estrangeiras” de países comunistas e que, na noite de 2 de outubro, civis armados abriram fogo contra as forças do Exército.

Jaso ainda cita a criação da Procuradoria Especial para Movimentos Sociais e Políticos do Passado, espécie de Comissão da Verdade mexicana, iniciado no governo do então presidente Vicente Fox, em 2002. Para ela, a iniciativa foi importante, porém a burocracia estatal e judiciaria impediram que resultados maiores fossem obtidos.

Durante os processos da Procuradoria, 532 pessoas foram indiciadas, mas apenas o ex-presidente Luís Echeverría foi considerado culpado pelo massacre de Tlateloco e teve sua ordem de prisão expedida em junho de 2006. No mês de julho do mesmo ano, foi absolvido, sob a alegação de que o delito havia prescrito em 2005.

Para Jaso, a postura do Estado é a de se “esconder e acobertar” tais fatos históricos. “Desde 1968, há uma necessidade de encobrir os responsáveis pelo massacre. A impunidade caminha sem limites, vamos ver até quando”, afirma.

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