Cruzeiro, por Paloma Franca Amorim

F disse ser importante observar o comissariado de bordo - enquanto eles estiverem portando seus sorrisos plastificados tudo ainda estará seguro

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Saber portar-se dentro de um avião. Isso F me ensinou com habilidade.

Ele, que vive fazendo a ponte aérea Belém/Macapá, já me confessou que prefere viajar pelas alturas a pegar rodovias, diz ter medo da indefectível colisão entre ônibus e caminhões. Já eu, por minha vez, respondi que se estiver com os pés próximos à redoma terrestre dou-me por satisfeita, inclusive para os acidentes automobilísticos. Meu problema é e sempre foi a altura, não posso com a distância entre a vertigem e o pavimento.


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Uma vez, pequena, fui saltar de um trapiche para o rio no embalo de todas as outras crianças que macaqueavam pra lá e pra cá, subindo e descendo no batente para a decolagem. Quando chegou a minha vez, eu olhei para baixo, vi as águas barrentas correndo à noroeste e peguei um susto. Pulei pra trás, meu corpo voltou para o trapiche num impulso acrobático das costas contra o vento que me empurrava pra frente, pra frente, esse diabo de vento só faz me empurrar pra frente.

Os adultos me seguraram, eu tentei ir mais uma vez e mais uma vez meu corpo foi sugado para longe da queda.

Que inveja que eu tinha dos meninos e meninas impermeáveis àquele pavor. É quase a mesma que me perpassa quando sento ao lado de algum viajante numa cadeira de avião que simplesmente põe uma almofada no pescoço e começa a roncar antes mesmo do piloto anunciar sua graça pelo megafone lá da cabine de comando.

F disse ser importante observar o comissariado de bordo - enquanto eles estiverem portando seus sorrisos plastificados tudo ainda estará seguro.

Também parece de suma relevância observar as cidades que surgem ao longe, pequeniníssimas e luminosas, quando em meio à madrugada, como verdadeiras peças de joalheria. Colares enormes de ouro e prata que brilham enxaguadas de escuridão, traçando um bonito percurso pelo pescoço de alguém que poderia vir a ser aquele paradeiro (que tu és).

Carrapatoso

Samba, suor e racismo

A Fera

 

Reprodução

Eu recuso o caríssimo serviço de bordo e aproximo os olhos da janela de arestas arredondadas, respiro profundo de modo a quase conseguir anular o som intermitente das turbinas que me conduzem a pensamentos diabólicos nos quais uma delas engole um urubu e passa a sufocar enquanto a outra busca terapia alternativa contra um incêndio sem origem definida.

Sob o testemunho de minha observação convenientemente direcionada pelo pavor, nasce uma lenta cidade. Nasce uma lenta cidade nas margens daquele meu rio que o Tejo não alcança. Aquele meu rio onde o amor bebe água porque já passa desarvorado com a língua farinhenta de tanta aridez, tanta luta contra o seco e o sem viço da própria sede.

Aquele meu rio que é amarelo e me lembra um monte de serpentes entremeadas em abraços sem braços, beijos sem bocas. Meu rio de cheia forte sobrevoado em rasante por aves carnívoras. Meu rio de pescar instantes. Meu rio de engolir milagres. Um sumo que corre no intervalo das pernas.

Eu posso ver daqui do alto um par de pés na beira d'água, vestindo sandálias de dedo assentadas sobre duas tábuas e uma paixão. Nasce a lenta cidade que de tão lenta nem parece existir, mas existe, embora sua fragilidade a afaste dos impérios de arranha-céus que se erigiram em torno dela. E essa lenta cidade resiste em seu lento nascedouro. Nem é pelo amor que ela vinga, porque às vezes o amor não dá conta mesmo. Às vezes só o amor não adianta. Mas ela vinga e cresce e sorri. E lenta.

O piloto anuncia o procedimento de descida.

O tempo nem passou, nem há tempo.

Meu peito aliviado me diz que alguma cura resolveu mostrar as pinças, fico feliz, mas logo em seguida a razão apita aos ouvidos uma sensação de que apenas por aquele instante eu estou livre das paranoias e pelo menos assim me preparo melhor para o dia em que se dará a queda do avião no qual viajo.

Apesar disso, engraçado, também me ocorre que voar numa máquina mais pesada que o ar e saltar de um trapiche significam sempre sempre sempre esse inevitável e contínuo ato de lançamento que me acompanha vida afora, vida adentro, desde o pico da tenra altitude de cruzeiro às funduras do chão. 

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