'Pra foooooora!!!!'

No fundo, no fundo, há nos vexames incomensuráveis uma poesia que nos humaniza, nos transforma e pode até nos reinventar

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Teve um baile uma vez, não sei se festa de debutante ou alguma formatura. Adolescência, esta fase entre as primeiras rodadas e as quartas de final. Mas me lembro do vestido rosa da menina mais linda daquele momento histórico. Nós trocamos olhares, palavras, esperanças e era bem possível que rolasse algo depois da dança principal, um selinho ou um telefone no guardanapo.


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Ela topou ser meu par, de modo que poucas vezes uma chance absolutamente cristalina de gol tinha aparecido tão lindamente. Minutos antes da dança, fui ao banheiro dar um checada no espelho, namorar narciso, leonino de juba. Ouvi os primeiros acordes do que era uma valsa. "É a hora, pensei." E sai correndo do banheiro, ansioso. O fato é que instantes antes de nos darmos a mãos, eu e a menina de vestido rosa, eu estabaco no chão, desacostumado que estava a usar sapatos sociais, meia, calça. Estabaco tanto que dou uma semipirueta patética no ar, ridícula, batendo a cabeça do chão, não sei nem como explicar... O pior, podia ser muito pior penso eu agora se já existissem celulares e os "vocêtubos", é que tinha uma filmagem com aquelas câmeras de vhs, sendo reproduzidas num telão. Na imagem não se via meu rosto, ainda bem, mas, sim, meus sapatos e pernas voando. 

Evidentemente perdi o gol, não lembro sequer o nome da menina e até acho que o vestido podia ser azul, verde, ocre. A imagem que me vêm são os sapatos no telão. Só eles. Tomei outros tombos sensacionais na vida, mas aquele sempre me fez ter medo de correr de sapatos. Ao menos isso, enfim.

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No fundo, no fundo, há nos vexames incomensuráveis uma poesia que nos humaniza, nos transforma e pode até nos reinventar

Trave de chinelas

Silêncio sorridente

Amores em tempos de cólera

 

Em 2014, na copa no Brasil, na Arena Pantanal, em Cuiabá, provavelmente no maior calor do mundo, olhos suando, jogaram Rússia e Coréia do Sul. O jogo, pelo pouco que me lembro, foi terrível. Mas marcante. O arqueiro russo Akinfeev engoliu um dos maiores perus de todos os tempos. Um chute nem tão forte e nem tão colocado e o goleirão russo foi de mão mole: um frango cinematográfico. A imagem no telão, repetida milhares de vezes pelo planeta afora, era o goleiro dentro do gol, com as luvas cobrindo o rosto, numa cena de causar piedade até em eleitor republicano. Akinfeev era aclamado por muitos como o sucessor de Yachin, a aranha negra soviética e alguns heréticos já o achavam melhor que Dasaev, o espetacular goleiro soviético na década de oitenta.  

Na classificação russa nesta copa, em casa, contrariando prognósticos mas dando o merecido descanso para o tiquetaca espanhol, tão chato quanto infinito, teve em Akinfeev um de seus heróis. Defendeu penal e foi aclamado por todo o estádio. No telão, as luvas e o rosto feliz do guarda-metas.

Numa copa onde bailou contra os argentinos, os croatas quase foram embora. Modric, até então o craque da copa, bateu um penal durante a prorrogação e parecia que usava sapatos quando chutou a pelota nas mãos do arqueiro dinamarquês. 

Apesar do tombo, a menina de vestido rosa valsou comigo e o vexame rendeu uma ótima estória de adolescência para contar para os amigos. Modric foi lá bater o penâlti na decisão final. E fez, ajudando a Croácia a passar de fase e sorrir. 

Publicado em Copa no Fio de Bigode

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