Videoclipe, por Paloma Franca Amorim

Como sentisse um passarinho cantando dentro de um piano, morreu de timidez por estar lado a lado, no escuro da sala de projeção, do rapaz que tanto desejara

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O coração era peixe dourado crescendo pra fora do aquário e por isso ela se armou de confiança e convidou o rapaz de chinelos para ir ao cinema, no dia 25 mesmo, agenda de Natal, aproveitando-se que a cidade estaria cirurgicamente vazia, patrimônio deserdado pelos cotidianos transeuntes, trabalhadores, empresários, todos amotinados àquelas horas nas rodovias que rumavam para o litoral norte ou sul, territórios das águas salgadas onde o réveillon pode cumprir seus rituais.


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Porque gostava do rapaz como uma tarântula, foi tomada por imensa alegria quando ele disse sim, vamos ao cinema, eu quero muito ver esse filme e vou achar ótimo fugir da minha família para estar contigo. E desligaram o telefone, os dois esperançosos de algo que não se situa nos prados da moralidade e dos bons costumes à mesa repleta de farta ceia natalina, encapada por uma toalha de renda e decorada por flores de toda sorte, menos por girassóis que eram as flores preferidas dela. Preferidas porque se comportam de acordo com um humor muito honesto atrelado ao valor climático dos dias, não a uma causa imaterial indetectável, mística ou sobrenatural. Girassóis são criaturas simples.

Como sentisse um passarinho cantando dentro de um piano, morreu de timidez por estar lado a lado, no escuro da sala de projeção, do rapaz que tanto desejara. O filme lhe deu umas facadas fazendo com que se sentisse tomada por um choro indomável de glórias que não poderiam ser compartilhadas assim publicamente, sobretudo sob o testemunho do ser amado. Então decidiu fazer um exercício aprendido na infância, o de engolir o choro, que nada mais era que invaginar as emoções de volta para os canais lacrimais de modo a lhes devolver os sentidos intracorpóreos.

Reprodução

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Em seguida achou que fosse vomitar. Começou a ver tudo rodando, tela, sonoplastia, legendas. Pediu licença, atrapalhou meio encurvada a visão dos outros espectadores, atravessou o corredor e chegou ao banheiro com a pressão baixa. Quase desmaiou, fez deslizamento ao lado da privada, sentindo os ossos pesarem. Abaixou a cabeça e ali mesmo dormiu. Dormiu profundamente até que foi surpreendia por uma nesga solar entrando pelo basculante no alto da longa parede de azulejos.

Esfregou os dois olhos e de repente lembrou de tudo. Desesperou-se ao perceber que dormira no banheiro do cinema. Estaria presa? Teria de pagar mais um ingresso pelas sessões que inevitavelmente acompanhara por dentro da própria subconsciência enquanto dormia?

Pensou nele. No rapaz. Coitada de mim. Pensou no próprio fracasso e na vergonha desmedida  transformando-a no estômago de um furacão.

Despediu-se confusa do banheiro, passou para a sala de cinema e antes que pudesse chegar à saída viu por entre penumbras o rapaz sentado na mesma cadeira, e a projeção do filme, e as horas perdidas de volta. Naquele momento já não sabia dizer quanto tempo havia passado, se estava em condições de calcular, mas de repente gostou de achar que o rapaz aguardara a duração necessária, os sete meses talvez em que esteve desacordada. E corou. Pediu licença, voltou ao seu lugar. Ele vira e pergunta tudo bem?, ela diz que sim, embora  tivessem corrido dez anos desde a última vez.

E o rapaz ainda estava lá.

Pudera, não era um rapaz qualquer. Era um rapaz de chinelos e isso, obviamente, explica tudo. 

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