Hoje na História: 1924 – Milicianos fascistas sequestram Giacomo Matteotti

Cadáver do deputado socialista seria encontrado somente dois meses depois; morte provocou onda de indignação na Itália e no estrangeiro

Wikimedia Commons
Em 10 de junho de 1924, milicianos fascistas sequestram o deputado italiano Giacomo Matteotti, 39 anos, secretário-geral do Partido Socialista e principal opositor ao crescente poder de Benito Mussolini. Seu cadáver seria encontrado somente dois meses depois e a morte dele provoca uma onda de indignação na Itália e no estrangeiro.

O fascismo perde uma boa parte da simpatia adquirida junto aos meios intelectuais e políticos, num momento em que Mussolini buscava o poder ditatorial.

Nascido numa família endinheirada, Matteotti diplomou-se em direito na Universidade de Bolonha, onde entrou em contato com o movimento socialista, no qual logo se converteu em figura destacada. Durante a Primeira Guerra Mundial defendeu a necessidade de a Itália manter a neutralidade, o que lhe custou sua prisão na Sicília.

Apelidado de “A Tempestade” por sua impetuosidade militante, Mateotti não descuidou seu lado humano, doando grande parte de seu salário a um orfanato de crianças.

Em 1919, foi eleito deputado no parlamento italiano, sendo reeleito em 1921. Opôs-se à violência exercida pelos ‘camisas negras’ do recém-criado fascismo italiano e denunciou continuamente seus abusos e crimes apesar das ameaças recebidas. Ao mesmo tempo julgava inútil que militantes comunistas, anarcossindicalistas ou socialistas mantivessem acirrada a disputa entre si, declarando que ante à ameaça fascista todos os partidos de esquerda deveriam deixar de lado discrepâncias ideológicas e unir-se contra o inimigo comum. Tais exortações não surtiram efeito.

Matteotti foi o chefe do Partido Socialista Unitário na Câmara dos Deputados da Itália, onde tomou posição contra o fascismo e contra Mussolini, sendo durante certo tempo o porta-voz da reduzida oposição parlamentar ao Partido Nacional Fascista, que aparecia como a maior força política desde o triunfo da Marcha sobre Roma em outubro de 1922. Ainda que Mussolini e seus camisas negras tivessem ameaçado instaurar uma ditadura completa na Itália e suprimir as últimas instituições democráticas, Mateotti se negou a renunciar à política ou unir-se ao fascismo e se pronunciou seguidamente da tribuna do parlamento contra os planos autocráticos do Duce, bem como contra a violência exercida impunemente pelos camisas negras contra seus rivais.

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Em 30 de maio de 1924, Matteotti tomou a palavra na Câmara para analisar as eleições que se haviam celebrado em 6 de abril, nas quais o próprio Mateotti tinha sido eleito. Enquanto da bancada fascista surgiam os gritos, as ameaças e as galhofas, o líder socialista pronunciava um histórico discurso no qual desfiava uma a uma todas as ilegalidades e os abusos cometidos pelos fascistas com o intuito de alcançar a vitória, valendo-se de fraude eleitoral, violência e intimidação contra os rivais. Ao término do discurso, depois de receber as felicitações de seus companheiros, prognosticou: “Já fiz o meu discurso, agora compete a vocês preparar o discurso fúnebre em meu enterro”.

Mateotti foi sequestrado em 10 de junho em Roma, tendo seu corpo, em estado de decomposição, sido encontrado em 16 de agosto num bosque a 25 quilômetros nos arredores da capital. Se bem que se sabe que foram militantes fascistas os que o sequestraram e assassinaram, nunca se comprovou que foi o próprio Mussolini quem ordenou sua morte, embora conste, que ao término do discurso de Matteotti, o Duce comentou em público ante o chefe da polícia secreta fascista que o deputado não deveria “seguir em circulação”. Outras hipóteses consideram que o assassinato foi planejado por líderes fascistas de menor escalão dos camisas negras dentro do esquema geral de violência contra os oponentes, se bem que militantes antifascistas julgaram então que pelo menos a “responsabilidade moral” pelo assassinato deveria recair sobre Mussolini, por ser este o maior instigador da violência política.

Antes de sua morte, Matteotti já havia sofrido tratamento cruel dos esquadrões fascistas, sendo sequestrado e torturado. Apesar disso, nunca silenciou seu espírito antifascista. Seu assassinato se converteu numa advertência clara: o governo fascista ansiava assumir o poder absoluto e permanente e qualquer oposição, por mais sutil que fosse, seria duramente castigada. Como resultado, a maioria dos integrantes do parlamento italiano se passou ao partido de Mussolini, seja por vontade própria, por conveniência ou pela força. Os parlamentares comunistas, socialistas e de outros partidos de esquerda rechaçaram tais pactos com o fascismo, porém por temer a brutal violência dos camisas negras. Muitos deles se abstiveram de seguir participando da política ou preferiram passar a uma oposição clandestina ao regime.

Em sua homenagem, as brigadas do Partido Socialista da Resistência italiana receberam o nome de Brigate Matteotti.

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