Pré-sal pode acabar com dependência norte-americana do petróleo árabe, afirmam especialistas

Graças ao seu potencial econômico e energético, o Brasil tem grande possibilidade de exercer um papel de protagonismo no quadro geopolítico da economia petrolífera em um futuro próximo. A opinião é de especialistas do setor entrevistados pelo Opera Mundi. O primeiro passo para essa virada foi dado com a descoberta, em 2007, no litoral, de uma gigantesca quantidade de reservas de petróleo abaixo de uma profunda camada salina, o “pré-sal”. O próximo pode ter início neste fim de semana, durante a visita do presidente norte-americano, Barack Obama, ao país.

Assim como já havia adiantado o chanceler Antonio Patriota, os Estados Unidos estão interessados em comprar petróleo brasileiro a longo prazo e este será um dos temas do encontro entre o mandatário norte-americano e a presidente Dilma Rousseff.

O cenário é favorável para o país. Até o momento, no setor, o Brasil chamava a atenção dos EUA na venda de derivados. Entretanto, com a descoberta do pré-sal, os EUA encontraram no país uma série de razões econômicas e políticas para investir suas fichas mais ao sul.

Para Evaldo Alves, professor de Economia Internacional da Fundação Getúlio Vargas, com maior participação do Brasil, os EUA podem pôr fim à dependência do petróleo no Oriente Médio . “Isso pode ocorrer. O pré-sal ainda é uma incógnita em relação à verdadeira dimensão de suas reservas, mas espera-se que sejam muito grandes. Pode até virar uma nova Arábia Saudita e exercer um papel de estabilidade nesse setor, quebrando assim a “maldição do petróleo”, que levou tantos países a guerras civis no século XX. Nós já temos instituições mais estáveis”.

Para o professor de Relações Internacionais da Unifesp Flávio Rocha de Oliveira , possuir um grande fornecedor que possua estabilidade política e econômica e um histórico de boas relações é outro ponto favorável ao Brasil, ao contrário de tradicionais fornecedores problemáticos aos norte-americanos, sejam aliados, como a Arábia Saudita, ou opositores, como a Venezuela. “Com o pré-sal, os EUA encontrarão um fornecedor com uma economia diversificada, democracia consolidada, estabilidade política e tradição de honrar seus acordos. É mais negócio para eles”, afirma Rocha.

Espera

Segundo Alves, até o momento em que o pré-sal começar a ser extraído comercialmente, o que não deve ocorrer, em sua opinião, em menos de dez anos, o Brasil não reúne condições de começar a atender essa demanda. “O interesse dos EUA no pré-sal é uma bela conversa para nós. A estratégia deles é investir para comprar depois e, assim, preservarem mais suas próprias reservas. Um belo negócio, mas cujo retorno só deverá aparecer mais para frente”, explicou.

Entretanto, se as empresas norte-americanas quiserem participar na ajuda da exploração do pré-sal, terão uma outra dificuldade além de dividir espaço com diversas multinacionais europeias e asiáticas já instaladas antes da descoberta das reservas. Para Rocha, elas terão que mudar sua filosofia tradicional de trabalho. “As norte-americanas têm uma lógica difícil de funcionamento. Enquanto as demais estão mais acostumadas com uma lógica de extração a longo prazo, as norte-americanas querem explorar mais para comprar com mais velocidade. Porque, no futuro, o preço do petróleo será mais caro, já que ele se tornará um produto mais escasso. Para países como Arábia Saudita, Irã, Angola ou Nigéria não é interessante extrair muito agora, pois ficarão mais importantes no futuro.”

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Também por isso, Rocha acredita que a descoberta tardia do pré-sal chega a ser um bônus. “O Brasil tem a vantagem do atraso. Agora temos muitos compradores interessados, não só os EUA, mas a China e a Índia. O Brasil não ficaria dependente de um comprador só, pode impor sua lógica. Um não quer? Outros vão querer. É um momento muito interessante, pois eles [os EUA] têm muito mais interesse em vender do que nós em comprar”, afirma.

Too late?

Por mais que os EUA e o mundo procurem cada vez mais alternativas eficientes, a economia do petróleo ainda continuará, por muito tempo , a ser a principal matriz energética do planeta, acredita Alves. “O ser humano usa a racionalidade de maneira limitada. Só passará a usar para valer as novas alternativas de energia quando a atual estiver realmente esgotada. Somos de fato pioneiros na tecnologia do etanol. Mas os interesses envolvidos no petróleo são muito grandes”, alerta.

“Sem dúvida, o uso de energias alternativas será crescente. O problema é o custo. Extrair petróleo é muito mais barato e eficiente do qualquer outra fonte energética, ao lado do gás natural, os dois são imbatíveis. Até países menos desenvolvidos têm demanda crescente de energia, não tem como escapar. A alternativa elétrica seria a energia nuclear, mas é só vermos os problemas no Japão para pesarmos as desvantagens”, disse Rocha. Entretanto, ele acredita que o Brasil tem todo um potencial ainda não explorado para se tornar líder futuramente também nas fontes alternativas – especialmente eólica, solar e nos biocombustíveis.

Contrapartida

Em troca do interesse norte-americano, o Brasil afirmou ter interesse no intercâmbio de cientistas e em uma discussão avançada sobre biocombustíveis, inclusive na área de aviação. Rocha e Alves consideram que a falta de mão-de-obra é, sem dúvida, um dos principais déficits enfrentados pelo Brasil nesse momento no setor – tanto para trabalhos mais manuais como para cargos mais qualificados, como engenheiros e físicos. “Teremos uma dimensão maior mos próximos anos. É hora de olhar para China e índia e ver como esses países importaram a peso de ouro diversos cientistas para lecionar em suas universidades. O Brasil já começou a fazer isso, flexibilizando a permanência de engenheiros estrangeiros nas mais diversas áreas”, afirmou Rocha.

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