Uma viagem na linha de trem que matou 62 pessoas em cinco meses na Argentina
Maíra Vasconcelos
Trens circulam com as portas abertas e ainda apresentam problemas de segurança na sinalização e nos trilhos
Passadas 48 horas do momento em que um trem não freou ao chegar à sua estação final, em Buenos Aires, deixando 51 pessoas mortas e 703 feridas, a reportagem do Opera Mundi esteve no terminal ferroviário de Once para fazer o percurso que acabou em tragédia no final dos trilhos.
Poucos passos após o fim da escadaria que leva ao interior da estação, localizada na Plaza Miserere, próxima ao centro da cidade, já se podia ver que as marcas da fatalidade ainda estampavam o saguão do terminal. Uma escultura feita com uma pilha de caixas usadas, simulando um ser humano carregava uma placa com a frase: “Somos frágeis como o papelão”.
Ao longo da escultura, cartazes com fotos de Lucas Menghini Rey pediam qualquer informação sobre o paradeiro do jovem, que era o único passageiro que continuava desaparecido – seu corpo acabou sendo encontrado desta sexta-feira (23/02), causando revolta nos passageiros (leia mais aqui).
Ao lado das catracas que levam à plataforma da linha Sarmiento, buquês de rosas vermelhas e flores coloridas foram penduradas nas grades que impedem o acesso ao local do acidente, com mensagens de amparo às famílias. Ao caminhar pela plataforma em busca de um local vazio para ficar à espera do trem, passageiros tentavam ver, com uma curiosidade natural, e ao mesmo tempo mórbida, os destroços da fatalidade.
Uma grande lona negra impedia a observação de detalhes, só deixando algumas brechas que permitiam ver uma pequena parte da ferragem esmagada entre os dois primeiros vagões e alguns pedaços de ferro no chão. Através de trechos menos opacas da faixa, também se podia identificar algumas manchas de sangue escorrido no exterior das janelas.
O trajeto
Passavam das 10h da manhã e o movimento na estação era grande, embora mais ameno do que horas antes, quando a maioria das pessoas se dirigia ao trabalho. O trem se aproximou da plataforma com os primeiros vagões lotados e em uma velocidade menor do que de costume. Algumas das portas estavam abertas, com pessoas com metade do corpo para fora, antes mesmo da parada completa do veículo.
O trajeto, formado por 14 estações leva da Plaza Miserere ao município de Moreno, na Grande Buenos Aires. Nas seis primeiras paradas, dentro da cidade de Buenos Aires, a reportagem do Opera Mundi pôde observar o mal estado de conservação de pelo menos duas cancelas instaladas nos cruzamentos dos trilhos, para impedir que automóveis atravessem durante a aproximação dos trens.
A falta de manutenção das barreiras foi um dos principais fatores que levaram, em setembro do ano passado, a que outro acidente entrasse para a história da linha Sarmiento. Na ocasião, apesar das insistentes buzinas emitidas por um trem que chegava à estação de Flores em alta velocidade, o motorista de um ônibus cruzou os trilhos, devido a um problema na cancela, que não se movia nem para baixo, nem para cima.
Comerciantes e moradores da região garantiram, na época, que a barreira nunca funcionou devidamente. O ônibus acabou com a dianteira e o centro da carroceria completamente espremidos entre o trem, a grade que limita a plataforma da estação e um poste de luz. O trem que havia batido no ônibus, acabou descarrilando e se chocou com outra formação que vinha no sentido contrário, em menor velocidade.
A tragédia, que deixou 11 mortos e 228 feridos, parece não ter sido suficiente para que o problema das barreiras não operantes fosse resolvido. Motoristas afirmam que, em Flores, o cruzamento continua com os mesmos problemas que derivaram no acidente do ano passado. Em outro, a cancela está quebrada, resumindo-se a um toco de madeira, listrado de vermelho e branco, que não chega a 50 cm de comprimento. Uma terceira está tão danificada, que forma uma espécie de “U” horizontal apontado para os trilhos.
No interior dos trens, outro problema evidente de manutenção: portas de alguns vagões se mantêm abertas durante todo o trajeto. Para a dona-de-casa Mónica Díaz, o maior problema é a quantidade de assentos quebrados: “Temos que percorrer os vagões em busca de um em que se possa sentar”, afirmou.
A dona de casa esclareceu, no entanto, que há tanto trens velhos como novos na frota da linha Sarmiento, mas que os problemas na estrutura interna dos veículos são mais frequentes nos antigos, que já não contam com ar condicionado e têm menos suportes de mão em bom estado para que os passageiros se equilibrem quando viajam em pé.
O trem envolvido no acidente está entre os veículos mais antigos da linha. “Depende da sorte e do tempo que cada um tem para esperar que chegue um melhor. Acabaram de passar dois novos, então é bem provável que o próximo seja velho”, disse ela, na estação Ramos Mejía, na Grande Buenos Aires.
Superlotação e falta de segurança
Mónica queixou-se da superlotação nos horários de pico. O grande número de usuários do trem nos dias úteis, segundo o secretário de Transportes do governo argentino, é uma das razões da grande proporção da tragédia da última quarta-feira. Em entrevista coletiva concedida no dia do acidente Juan Pablo Schiavi afirmou que se o fato tivesse ocorrido no sai anterior, durante o feriado de carnaval, “seria uma coisa muito menor”.
Outro problema apontado pelos usuários da linha é a falta de segurança durante a viagem, quando as mulheres protegem as bolsas e os homens tentam equilibrar-se enquanto estão com uma mão no bolso da calça e a outra na mochila, que evitam levar nas costas. “Não use isso aqui!”, disse uma passageira que carregava um bebê de colo à reportagem sobre o uso de uma câmera fotográfica. “Tem ladrões, vão te roubar”, avisou.
Apesar de denúncias de usuários de muitas ondulações nos trilhos e faíscas produzidas durante o trajeto dos trens, um passageiro afirmou que os trabalhadores vistos naquela manhã na estação Ramos Mejías sempre estão cuidando da manutenção dos trilhos. Durante o percurso, no entanto, era possível observar, na via oposta, alguns trechos mal conservados, oxidados e com pedaços de metal sem continuidade.
Tanto na ida a Moreno como na volta, a velocidade do trem foi mais moderada. “Estão indo devagar, geralmente vão bem mais rápido do que hoje. Mas provavelmente estão mais cuidadosos depois do acidente”, explicou uma passageira.
A maior cautela da TBA S.A. tem explicação: a empresa, concessionária do Estado argentino na administração da linha Sarmiento se viu no olho do furacão após o acidente, quando a oposição e o auditor-geral da nação expuseram as denúncias, acumuladas desde 2003, de falta segurança nas estações e nos trens, além de precária manutenção do serviço por parte da empresa ferroviária.
Luciana Taddeo
Sindicalistas e políticos críticos à gestão de Cristina Kirchner acusaram o governo de não controlar a devida aplicação dos subsídios públicos destinados às concessionárias e chegaram a pedir a rescisão do contrato com a administradora da linha, que registrou duas grandes catástrofes em apenas seis meses.
Somente em janeiro de 2012, a secretaria de Transportes destinou quase 77 milhões de pesos argentinos (cerca de 30 milhões de reais) a esta empresa, no marco do contrato de concessão que prevê a manutenção das tarifas do transporte e investimentos para a melhora do serviço. A imprensa local acusa a família Cirigliano, administradora da TBA S.A., se utilizar os subsídios estatais para a realização de negócios financeiros.
Após a última tragédia protagonizada por um trem da companhia, o fiscal da investigação judicial, Federico Delgado, pediu que o juiz responsável pelo caso exija a documentação relativa à quantidade de subsídios entregues e à aplicação do dinheiro, além da citação a depoimento de funcionários da empresa.
O único membro da família e diretor da TBA que se manifestou publicamente, no entanto, limitou-se a afirmar, no dia seguinte ao acidente, que o serviço prestado pela linha Sarmiento era “aceitável” e que “em alguns aspectos” a empresa “fez mais investimentos do que outras companhias” de trem. Roque Cirigliano afirmou que a companhia não detectou falhas técnicas no trem e que trabalha com a hipótese de que um “erro humano” tenha provocado a tragédia.
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