Crianças palestinas aprendem capoeira para superar realidade do conflito

Em parceira com a ONU, ONG liderada por brasileiro ensina as técnicas da capoeira nos territórios ocupados

Sob uma enorme tenda na Cidade Velha de Jerusalém Oriental, cerca de 20 adolescentes e crianças palestinas se movem ao som dos tambores de capoeira, uma expressão cultural afro-brasileira que mistura dança, acrobacia e artes marciais e que está se enraizando na Cisjordânia.

IPS

Crianças palestinas praticam a capoeira em Jerusalém Oriental. Prática ajuda a amenizar os impactos da ocupação israelense

"Na capoeira eles encontram um espaço seguro para despejar a energia e a agressividade. Há muito o que se aprender sobre o controle dos nossos movimentos, de nós mesmos, da capacidade de nos expressar e também dos cuidados com aqueles que estão ao nosso redor", explica Jorge Goia, professor brasileiro responsável pela aula.

"Por ser um tipo de arte marcial, requer muita disciplina para se fazer parte de um grupo e trabalhar juntos. Eu acho que tem um forte impacto sobre os meninos", diz Goia ao IPS.

A ONG Bidna Capoeira (queremos capoeira, em árabe) começou a ensinar crianças e jovens em março do ano passado em campos de refugiados da Cisjordânia. Cerca de 800 pessoas já participaram do programa.

Hoje os cursos são desenvolvidos nos campos de refugiados de Shuafat, em Jerusalém Oriental, e Jalazone, em Ramallah, no centro de Cisjordânia. O objetivo continua sendo capacitar os jovens e oferecer-lhes um espaço saudável e positivo para desabafar suas frustrações.

"A capoeira pode ser uma ferramenta poderosa para aumentar a confiança das crianças e o sentimento de pertencimento. [A capoeira] é praticada em grupos e é necessário que as pessoas cantem e toquem instrumentos, e é assim que se cria a ideia de que você faz parte de algo e que todos se ajudam a se desenvolver e a aprender ", afirma.

Ahmad, de 6 anos, começou em fevereiro as aulas de capoeira na Cidade Velha. "É algo novo. Ele tinha feito karatê e natação, mas a mudança é boa", diz o pai, Sahar Qawasmeh, de Beit Hanina, Jerusalém Oriental. "Eu tinha visto isso em alguns festivais. [Com a capoeira], Ahmad percebe sua força e gosta disso", conta.

Superação

O impacto tem sido evidente, segundo Ilona Kassissieh, oficial de informação pública da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Médio), que colaborou com a Bidna Capoeira na organização de aulas nos acampamentos da Cisjordânia.

"As crianças aprenderam muito, estavam entusiasmadas e puderam evoluir muito rápido", afirma Kassissieh à IPS. Oferecer atividades extracurriculares para crianças que vivem em campos de refugiados abre uma oportunidade para que elas fujam das dificuldades diárias.

"Os refugiados em geral, e as crianças em particular, estão em um setor vulnerável porque vivem em circunstâncias muito difíceis. A infraestrutura não ajuda para que eles recebam os elementos necessários para se levar uma vida normal", explica.

"Este tipo de atividade extracurricular é sempre benéfico e deixa um impacto positivo. Cria um mecanismo de sobrevivência que lhes permite pensar a partir de outras perspectivas e colocar suas energias em algo que eles gostam e que gostariam de saber mais", afirma Kassissieh.

Além disso, disse Jorge Goia, a história da capoeira como movimento de base das comunidades oprimidas no Brasil permite uma conexão direta com os palestinos que suportam a ocupação e a dominação de Israel.

"A capoeira foi criada pelos escravos no Brasil, pessoas oprimidas que a usavam para se fortalecer, ganhar confiança sobre si mesmas e, assim, atender todas as necessidades que se tem quando você vive em condições opressivas", diz.

"O interesse é em fugir e aprender a lidar com uma situação onde você é o fraco. Não possui armas, apenas seu corpo. Como se faz para sobreviver? Como você pode escapar da opressão?”.

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