Bahrein não tem moral para falar de liberdade de expressão, diz Carlos Latuff

Cartunista foi criticado pelo governo do país árabe, que receberá a F-1 em meio à repressão a protestos

Arquivo pessoal

Charges do brasileiro Carlos Latuff são bastante conhecidas no Oriente Médio, em especial no Egito, e tem repercutido na crise do Bahrein

O tom provocativo e visceral das charges do cartunista brasileiro Carlos Latuff vem incomodando o governo do Bahrein. Há mais de um ano, o artista e ativista, colaborador do Opera Mundi, critica a repressão do regime barenita contra as manifestações populares que reivindicam uma abertura democrática e maior justiça social no país.

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Nesta terça-feira (17/04), a monarquia do Bahrein expressou seu descontentamento. A IAA (sigla em inglês para Autoridade para Assuntos de Informação), órgão oficial de informação do regime, criticou, em inglês, o trabalho do desenhista brasileiro pelo microblog Twitter. Em diversas mensagens no Twitter, a IAA pediu ao brasileiro que reflita sobre a “integridade jornalística” e a “falta de neutralidade” de seus desenhos. Muitas de suas ilustrações criticando o regime e também o Grande Prêmio tem sido exibidas em cartazes durante as manifestações.

"Nós do IAA estamos preocupados com seus desenhos. Embora sejamos defensores da liberdade de expressão, seus desenhos ultrapassam o limites dessa liberdade com acusações infundadas e uma representação desequilibrada dos eventos ocorridos no Bahrein. Muitos de seus cartuns possuem erros jornalísticos e factuais graves. Pedimos que você reflita sua arte através da integridade jornalística", postou o órgão, em uma mensagem direcionada diretamente a Latuff.

Em seu site, o cartunista ironizou o recado: “É curioso que uma instituição governamental como a do Bahrein use termos como ‘integridade’ e ‘liberdade de expressão’, valores que definitivamente não se aplicam ao regime de Hamad [bin Isa al Kalifa, rei do Bahrein]”.

“De acordo com um relatório da Anistia Internacional [divulgado em 13 de abril], uma organização creditada por seu alto grau de integridade, as autoridades do bahrein ‘cometeram sérias violações aos direitos humanos com impunidade, incluindo uso excessivo de força contra os manifestantes, tortura generalizada, tratamento desumano, julgamentos injustos e execuções extrajudiciais’”, completou o brasileiro.

Em entrevista ao Opera Mundi, Latuff diz que a realização da corrida é uma cartada política do regime para mostrar ao mundo que a situação está sob controle. “Mas será um tiro no pé. Porque é por causa dessa corrida que o mundo voltar a falar do que acontece no Bahrein. Só se falava na Síria, porque o Ocidente tem interesse em derrubar Bashar al Assad. Mas não tem como esconder o que ocorre por lá. Mas o conflito não está resolvido”, afirma. 

Latuff considera “inútil” a tentativa do IAA de condenar seu trabalho. “O trabalho já está na internet, portanto não faz diferença eles reclamarem. E acusam meu trabalho de não ter veracidade, mas uma charge não é uma representação factual”, disse. “A charge que publiquei no Opera com o Bernie Ecclestone (controlador da Fórmula 1) sendo recebido pelo rei com um tapete de corpos, ora, isso não aconteceu, é uma alegoria. Mas o absurdo é ter minha integridade discutida por um regime que tortura, prende, mata e impede até mesmo a entrada de membros da Médicos Sem Fronteiras. Não merece qualquer consideração. Democracia e Direitos Humanos só servem para a Síria então? O Bahrein é sede da 5ª Frota dos Estados Unidos, ninguém tem interesse em mexer por lá”, protesta.

Sobre o fato de sentir ameaçado com as declarações do governo barenita, ele ironiza: “Depois de treze anos levando pau de sionistas, estou bem descolado”.

Desde o início de abril, Latuff contesta a realização do Grande Prêmio do Bahrein de Fórmula 1, marcado para o próximo domingo, enquanto o país se encontra em meio a uma convulsão política. Na semana passada, o Opera Mundi publicou a charge abaixo a respeito da corrida.

Carlos Latuff

Primavera Árabe

O pequeno arquipélago do Golfo Pérsico, é uma monarquia constitucional controlado pela família Al Khalifa desde 1783, de orientação sunita, que governa uma população de maioria xiita. O atual monarca é Hamad bin Isa al Kalifa, que se tornou Emir do Bahrein em 1999 e se autoproclamou rei em 2002.

Rica em reservas de petróleo, o reino não conseguiu escapar dos protestos que caracterizaram a Primavera Árabe, e contou com ajuda militar da Arábia Saudita para conter os manifestantes.

Os protestos começaram no último mês de fevereiro motivados pelos demais levantes de países árabes que aconteciam simultaneamente. Depois de intensos confrontos, milhares de pessoas foram detidas e mortas. Os dados são de uma comissão independente criada por iniciativa do próprio rei do país, Hamad bin Issa al Khalifa, para averiguar as denúncias de que as forças de segurança estariam usando força extrema.

No final de novembro, o rei anunciou reformas que, segundo ele, iriam contentar "todos os segmentos de nossa sociedade". Apesar disso, os conflitos entre as partes continuam. Em dezembro, Latuff ajudou a denunciar o uso de gás lacrimogêneo fabricado no Brasil para reprimir os protestos no Bahrein.

Carlos Latuff

O trabalho do cartunista já foi divulgado em diversos países, ganhando repercussão internacional durante a Primavera Árabe. É conhecido por se dedicar a diversas causas políticas e sociais, tanto no Brasil quanto no exterior. Muitas de suas charges podem ser encontradas, baixadas e reproduzidas no link: http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff.

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