Ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla morre na prisão aos 87 anos

Membro das forças armadas foi condenado a várias penas de prisão perpétua por crimes contra a humanidade

Atualizado 11h07

O ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla morreu nesta sexta-feira (17/05) em sua cela, aos 87 anos. A imprensa argentina informa que ele morreu de causas naturais, às 8h25. Videla foi o cérebro da ditadura que governou a Argentina entre 1976 e 1983, período em que desapareceram cerca de 30 mil pessoas, segundo organizações de direitos humanos.

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O ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla (a esquerda) morreu nesta sexta-feira (17)

Ele foi o primeiro presidente da ditadura militar da Argentina. Na década de 1980, durante o julgamento das juntas militares que governaram durante o período ditatorial, o ex-general foi condenado à prisão perpétua por homicídios qualificados, 504 privações ilegais de liberdade, torturas, roubos agravados, falsidade ideológica de documentos públicos, usurpações, extorsões, roubo de menores, entre outros crimes contra a humanidade.

No entanto, antes de voltar para a prisão em 2010, ele cumpriu apenas cinco anos consecutivos de pena, beneficiado pelas leis de impunidade e pelo indulto do ex-presidente Carlos Menem, que mediante decretos determinou sua liberdade em 1990, e pelo direito à prisão domiciliar após sua volta à cadeia em 1998.

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A condenação definitiva à prisão perpétua veio no dia 22 de dezembro de 2010, pelo Tribunal Oral Federal de Córdoba, sob a acusação de crimes contra a humanidade. No mesmo ano, também foi considerado responsável pelo roubo de bebês durante seu governo e condenado a 50 anos de prisão. As condenações aconteceram após mais de 30 anos de pressão de organizações como as Mães e Avós da Praça de Maio.

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A presidente das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, foi uma das primeiras a reagir à morte. "Fico tranquila que um ser desprezível deixou este mundo", disse. Videla morreu dentro da prisão de Marcos Paz, na Província de Buenos Aires. Cecilia Pando, que é amiga da família, disse à radio Once Diez que o ex-ditador morreu dormindo e que não quis jantar na noite de ontem "porque se sentia mal".



Em nota oficial, o atual secretário de Direitos Humanos do governo argentino, Martín Fresneda o fato mais relevante é que "a Justiça tem sido capaz de julgar os principais responsáveis ​​pelo genocídio no país antes de sua morte". "Não celebro a morte de ninguém, a não ser a justiça". afirma Fresneda.

Confissão

No ano passado, Videla admitiu pela primeira vez que foram mortas "7.000 ou 8.000" durante o úlitmo regime militar da Argentina (1976-1983). O ex-mandatário afirmou que era o "preço a ser pago para ganhar a guerra contra a subversão". A confissão foi feita no livro Disposición Final (Disposição Final, em português), do jornalista argentino Ceferino Reato, que disse ter ficado "chocado" pela forma como o ex-ditador relatou os horrores cometidos durante a "guerra suja". [Veja o vídeo abaixo].



As sentenças contra ele revelaram a existência de um 'plano sistemático de eliminação de opositores', segundo a justiça argentina, como ativistas políticos, sindicalistas, estudantes, movimentos sociais, religiosos da Teologia da Libertação, artistas e intelectuais, milhares deles desaparecidos.

Desmantelados os grupos armados, isolados e sem apoio popular, a repressão continuou com militantes, amigos e suspeitos, parentes e familiares. Foram vítimas da repressão as freiras francesas Alice Domon e Leonie Duquet, o bispo católico Enrique Angelelli, do movimento de sacerdotes do Terceiro Mundo, a estudante sueca Dagmar Hagelin, os comitês sindicais de companhias montadoras como Ford e Mercedes Benz e até diplomatas do próprio regime, como Elena Holmberg e Héctor Hidalgo Solá.

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Repressão

Videla comandou o golpe que derrubou a ex-presidente Isabelita Perón, em 1976, suspendeu a Constituição, proibiu os partidos políticos e instituiu a censura nas rádios e televisões.

O general governou aliado ao grupo civil chamado "Os Chicago Boys" e deu todo o poder administrativo a um economista de uma família da aristocracia "crioula" (espanhóis nascidos na América), José Martínez de Hoz, admirador do Prêmio Nobel Milton Friedman.

Por ordem sua e dos generais, automóveis sem patente e com comandos encapuzados sequestravam militantes e os levavam para torturá-los nos cerca de 500 centros clandestinos de detenção distribuídos em todo o país.

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