“Caso Maria” expõe preconceito e causa temor entre ciganos europeus

Ativistas de direitos humanos relatam preocupação e criticam cobertura da imprensa

O caso da menina búlgara Maria, encontrada em meados de outubro com uma família de ciganos em Farsala, na Grécia, causou preocupação no povo Roma (como também são chamados os ciganos), que teme ser alvo de uma nova onda de xenofobia na Europa.

Para ativistas britânicos e entidades de defesa de direitos humanos europeus, a cobertura da imprensa internacional foi sensacionalista e tendenciosa: antes do exame de DNA corroborar com a versão dada pelo casal cigano – de que Maria era filha de uma mulher que abriu mão de sua guarda por não ter como sustentá-la –, jornais especulavam se a criança havia sido sequestrada e o casal pertencia a uma rede de tráfico de pessoas.

"É revoltante a maneira como o tema foi abordado pela mídia e, ao mesmo tempo, muito preocupante. Espantou o choque e o horror que causou à sociedade o fato de uma menina loira e de olhos azuis ter sido encontrada em uma família cigana, vivendo abaixo da linha da pobreza. Infelizmente, agora que foi comprovado que ela é de origem cigana também (a mãe da menina vive na Bulgária e é cigana), a imprensa já demonstra que não se importa mais com o destino dela", criticou o jornalista inglês Jake Bowers, em entrevista a Opera Mundi.

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De família cigana, Bowers se especializou, há 16 anos, na cobertura de temas relacionados aos direitos da população no Reino Unido, onde estima-se que vivam entre 60 mil e 300 mil ciganos. O jornalista, que é pai de três meninas loiras e de olhos azuis, disse ter se assustado com o teor da cobertura “baseada em mitos e estereótipos antigos”.

Agência Efe

Para o jornalista Jake Bowers, o fato de muitos ciganos não seguirem as leis europeias aumenta o preconceito contra eles


"Isso demonstra o total desconhecimento que a imprensa tem da cultura Roma. Há séculos as famílias ciganas adotam como suas as crianças de famílias mais pobres e vulneráveis. Infelizmente, a ideia de que os ciganos roubam crianças é um mito muito antigo, e o nosso grande temor é que esse caso contribua para aumentar o estereótipo que tanto prejudica a comunidade", afirmou Bowers, que é ex-editor do site Traveller's Times, veículo voltado para a população cigana na Grã-Bretanha.

Ele não está sozinho na critica: para o Gypsy Council britânico (conselho cigano local), a cobertura foi uma "publicidade racista e negativa", sendo que tanto veículos de comunicação como as autoridades devem um “pedido de desculpas” aos envolvidos.

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O jornalista admite, entretanto, que a cultura cigana, muitas vezes "informal" e não adepta às leis locais, prejudica o próprio grupo. É o caso do casal que criou Maria: embora a mãe biológica da menina admita ter aberto mão de sua guarda, os “pais adotivos” enfrentarão julgamento criminal na Grécia.

Preconceito racial

Para o European Roma Rights Centre (ERRC, centro europeu de direitos da população cigana), o episódio com Maria  expôs o preconceito que cerca essa população. Pouco depois do caso vir à tona, o órgão foi informado de que um grupo de skinheads tentou tirar um menino de dois anos de família cigana na Sérvia, por ele "não ser tão escuro quanto os pais".

"Criminalidade é algo individual, não marca registrada de uma etnia. Infelizmente, quando um caso envolve alguém Roma, com frequência ele é reportado como um 'ato dos ciganos'. É a propagação do estima e da criminalização da etnia. Não estou dizendo que a mídia deveria defender os ciganos, mas ela tem que questionar todos os lados da história sem propagar estereótipos", criticou Sinan Goeçen, coordenador de comunicação do ERRC.

Dias após o caso Maria, duas crianças – também loiras e de olhos claros – foram tiradas de suas famílias na Irlanda, por não serem parecidas com os pais. A polícia irlandesa alegou ter suspeitado de sequestro, mas exames de DNA comprovaram a ligação com os parentes e elas foram devolvidas.

Em nota, o ERRC cobrou dos veículos de comunicação e das autoridades "mais responsabilidade" e rigor na apuração dos fatos antes de divulgá-los ao público. O ERRC também publicou um guia com instruções legais para que as famílias ciganas saibam como agir em casos como o que ocorreu na Irlanda.

Contudo, os casos não foram os únicos episódios que envolveram ciganos e dominaram o noticiário europeu nas últimas semanas. Também em outubro, a França foi palco de protestos após uma estudante de 15 anos, Leonarda Dibrini, ser deportada para Kosovo quando retornava de uma viagem escolar. O tratamento conferido à garota, que foi abordada pelas autoridades diante dos colegas de sala, motivou protestos pelo país.

De acordo com o centro europeu, 12 milhões de ciganos vivem na Europa atualmente, grande parte em situação de pobreza. “Ainda assim, somos invisíveis aos olhos dos políticos”, critica o jornalista.

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