Viagem de Jean Wyllys a Israel causa controvérsia entre apoiadores e companheiros de partido

Relatos de viagem do deputado do PSOL-RJ têm sido criticados por suposta 'desinformação' sobre realidade palestina sob a ocupação israelense

O deputado federal Jean Wyllys, do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) do Rio de Janeiro, tem sido alvo de críticas de políticos e intelectuais de esquerda brasileiros nos últimos dias por sua viagem a Israel, anunciada no perfil do Facebook do deputado na última terça-feira (05/01). Desde então, quando publicou post informando a seus seguidores que estava em Jerusalém, o deputado tem sido criticado também por pessoas que o acompanham nas redes sociais por suas declarações que supostamente demonstram “desinformação” sobre a realidade palestina sob a ocupação israelense.

Segundo o post publicado pelo deputado na última terça-feira, ele foi a Israel para ministrar uma palestra na quarta-feira (06/01) sobre antissemitismo, racismo, homofobia e política na Universidade Hebraica de Jerusalém, a convite da instituição. Wyllys se disse “muito feliz e emocionado pela oportunidade de visitar, pela primeira vez, esta cidade cheia de história, terra santa para as três religiões do livro [islamismo, judaísmo e cristianismo]”. O post incluía uma foto do deputado em frente à universidade. Nos últimos dias, Wyllys tem postado relatos de viagem em que comenta suas impressões sobre Israel.

Reprodução/Facebook Jean Wyllys

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) foi convidado a dar uma palestra na Universidade Hebraica de Jerusalém

As críticas à viagem e às publicações do deputado foram feitas inclusive por nomes proeminentes de seu partido, o PSOL. Segundo Milton Temer, um dos fundadores da legenda, as mensagens de Jean Wyllys seguiram uma “linha ilusória da existência de duas forças parelhas, e não a da ocupação por parte de uma potência regional nuclear contra um povo encarcerado em seu próprio território”.

Temer disse ainda que Jean Wyllys confundiu o grupo Hamas com o Exército Islâmico, o que “se não for equívoco por desinformação, já que são inimigos declarados, é puro efeito de lavagem cerebral da mídia conservadora sobre o deputado”.

Gilberto Maringoni, professor de Relações Internacionais da UFABC (Universidade Federal do ABC) e também membro do PSOL, disse, em seu Facebook, que “visitar Israel hoje é mais ou menos como visitar a Alemanha, em 1938 [época do governo nazista]”. Para Maringoni, “o problema é a opção de se ir até lá e a mensagem que isso passa”.

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O PSOL apoia formalmente o movimento internacional BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), que defende o boicote a produtos e empresas israelenses como via de pressão a Israel. Wyllys se manifestou contrário ao BDS, afirmando que todo tipo de bloqueio a um país se trata de um erro. Segundo ele, é uma “contradição imperdoável” o governo israelense apoiar o bloqueio econômico a Cuba imposto pelos EUA à ilha. “Aliás, por que não há boicote contra a Síria, cujo governo é responsável por dezenas de milhares de mortes, ou contra a ditadura iraniana, que enforca homossexuais? Será porque não são judeus?”, disse.

O diplomata Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão Internacional Independente de Investigação para a Síria na ONU e um dos nomes à frente da Comissão da Verdade do Brasil, veiculou um vídeo na sua página do Facebook no qual questiona a atitude de Jean Wyllys. Pinheiro classificou como “lamentável” a postura do deputado, que, segundo ele, revela “uma crassa ignorância e uma total desinformação sobre a política dos direitos humanos em Israel nos dias de hoje”.

Posté par Paulo Sérgio Pinheiro sur vendredi 8 janvier 2016


Em uma de suas publicações, Wyllys respondeu às críticas de Temer. “Embora eu sempre tenha defendido Milton Temer das acusações de antissemitismo, ele preferiu julgar precipitadamente minha viagem, exortando uma horda de homofóbicos de ‘esquerda’ a me insultar, do que me enviar uma mensagem me pedindo informações sobre os objetivos e o programa da visita”.

Em outra publicação, o deputado respondeu a críticas sem citar nomes. Wyllys disse que busca “ver, escutar, dialogar, analisar e discernir” e que foi alvo de “pressões e insultos” de pessoas que, segundo ele, desejam impor um “discurso pronto e ‘verdades perfeitas’”.

A reportagem de Opera Mundi não conseguiu entrar em contato com a assessoria do deputado Jean Wyllys até o momento de publicação desta matéria, apesar de diversas tentativas.

“Pinkwashing”

Jean Wyllys tem sido alertado por ativistas e também por seus apoiadores pró-Palestina de estar sendo influenciado pelo chamado “pinkwashing” (“lavagem rosa”, em tradução livre), método supostamente utilizado por Israel segundo o qual o país, ao vender a imagem de respeito aos direitos das pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgênero, busca apoio a suas políticas entre pessoas que defendem a causa LGBT. Único parlamentar abertamente homossexual do Brasil, Wyllys negou, em seu segundo relato de viagem, que este seja o caso, dizendo que isso se trata de “teoria da conspiração”, além de “desrespeito a nós, LGBTs”.

“Se outro deputado do PSOL tivesse viajado a Israel, não teria sido subestimado e visto como sensível à ‘lavagem rosa’”, afirmou ele. “Os direitos conquistados pelos LGBTs israelenses são uma luz numa região dominada pelo fundamentalismo, o totalitarismo, a misoginia e a homofobia, e eu parabenizo esse povo por seus avanços. Contudo, isso não me impede de ser solidário com outros oprimidos nessa terra, como os palestinos, por exemplo, da mesma forma que muitos judeus israelenses o são”.

“De fato, eu também gostaria de ir a outros países do Oriente Médio, mas não posso, porque em muitos deles poderia ser enforcado ou preso por ser gay”, afirmou o deputado em uma de suas mensagens no Facebook. Segundo ele, a esquerda não deveria fechar os olhos para a opressão contra LGBTs em países islâmicos e nem para as “conquistas democráticas em Israel”.

Reprodução/Facebook Jean Wyllys

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Ida à Palestina

Em seu quarto relato de viagem, Wyllys contou sobre sua visita a campos de refugiados palestinos na Cisjordânia, onde conheceu o militante palestino Jamil El Kassas, que participou da primeira intifada, foi preso e perdeu um irmão no conflito. Segundo o deputado, Jamil disse ter mudado de opinião ao longo dos anos e não defende mais a reação violenta, mas de diálogo e de convivência entre os povos, posicionamento semelhante ao de Wyllys.

Algumas pessoas que vinham criticando o deputado por seus relatos supostamente entusiasmados por Israel apontaram que ele incluiu a Palestina ao roteiro de viagem por conta da pressão que sofreu nas redes sociais. Um assessor de Wyllys afirmou ao site norte-americano The Intercept que o deputado não tinha planos de visitar a Cisjordânia ou a Faixa de Gaza, de acordo com um artigo do site. Em uma publicação no mesmo dia, diz o artigo, Wyllys afirmou que visitaria “Belém e talvez Hebron”. Em seu Facebook, o deputado escreveu que desde o início estava prevista uma viagem à Palestina.

Em um vídeo veiculado em seu perfil do Facebook, o professor da Universidade de Brown (EUA) e historiador norte-americano James Green afirmou que esteve na casa de Paulo Sérgio Pinheiro e na oportunidade informou o diplomata que Jean Wyllys faria uma viagem a Israel e também aos territórios ocupados da Palestina. “O senhor sabe, meu caro amigo [Pinheiro], como eu tenho uma posição claramente contra a ocupação. Como você pode imaginar que eu vou levar um deputado brasileiro para Israel para não mostrar essa realidade para ele?”, disse Green. O deputado Jean Wyllys compartilhou o vídeo em sua página.

Posté par James N Green sur vendredi 8 janvier 2016


Universidade Hebraica de Jerusalém

Uma carta aberta de 2013, que conta com a assinatura de mais de 300 acadêmicos, diz que “enquanto todas as universidades israelenses são grandes cúmplices da ocupação, do colonialismo e do apartheid, a Universidade Hebraica de Jerusalém é particularmente notável”. Entre os motivos expressos na carta, estão o tratamento desigual dado pela universidade entre alunos israelenses e palestinos e o não reconhecimento de credenciais acadêmicas da universidade palestina de Al-Quds.

No ano passado, os músicos baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil foram criticados por incluir Tel Aviv, capital israelense, na turnê de shows que celebrou os 50 anos de carreira dos dois artistas. A apresentação em Israel foi realizada e, meses depois, em um artigo escrito por Caetano que foi publicado na Folha de S.Paulo, o cantor disse acreditar que não voltaria mais a Israel.

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