Ascensão de Trump e Sanders indica insatisfação nos EUA com política e elites, dizem especialistas

À esquerda e à direta, rumos sociais e econômicos do país desagradam e ajudam a explicar crescimento de candidatos 'outsiders'

A população dos EUA está insatisfeita com o sistema político do país e, sobretudo, com a elite econômica. À direita e à esquerda, o reflexo desse cenário é o crescimento de dois candidatos ‘outsiders’ (em inglês, expressão que indica aquele que ‘vem de fora’ do sistema) nas eleições primárias, como Donald Trump, no Partido Republicano, e Bernie Sanders, no Partido Democrata.

Essa é a opinião de especialistas como Luis Fernando Ayerbe, professor de Relações Internacionais da Unesp, e Ariel Finguerut, doutor em Ciência Política pela Unicamp. Para eles, uma crise de representação política nos EUA tem impulsionado candidatos que criticam o sistema político do país.



“A ascensão de Donald Trump traduz uma crise de representação, repercutindo uma ideia de que a classe política não consegue resolver os problemas da sociedade. A classe política segrega a população das decisões, criando uma elite política. Trump e Sanders aparecem como atores políticos que questionam essa ideia. O Sanders retoma um pouco a excepcionalidade norte-americana, em que as pessoas podem realizar os seus sonhos e podem ter sucesso. Já Trump, de alguma forma, se aproxima disso, porém com um viés nacionalista. Então, ele diz que o país precisa ser grande novamente, enfrentar o inimigo que vem de fora, etc. Isso traduz essa ideia de crise política”, afirma Ariel.

Agência Efe

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Trump costuma criticar os políticos pela ineficiência e rendição a lobistas da iniciativa privada. "[Os políticos] Nunca farão o nosso país a ser grande novamente. Tudo o que eles fazem é concorrer as eleições, ganhar, perder e se candidatar novamente", disse Trump em discurso recente. Bernie Sanders, por sua vez, critica o sistema de financiamento de campanhas e a influência da especulação financeira no governo norte-americano. "Precisamos acabar com esse sistema que não pensa nas pessoas", afirmou, durante o caucus de Nevada.

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“Tanto Sanders como Trump estão polarizando o apoio de descontentes. Isso marca uma crise nos EUA em que grande parte da população recusa o establishment tradicional. E esses dois candidatos conseguem trazer, cada um a sua maneira, os anseios desses grupos", reitera Ayerbe.

Ariel acredita que, embora haja semelhanças com outros países do mundo, a crise de representatividade política nos EUA que vem impulsionando candidatos outsiders tem outra natureza.

Agência Efe

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“No caso norte-americano, não temos uma crise configurada como da mesma forma que tivemos na Grécia ou na América Latina.Temos crescimento econômico, desemprego controlado, no entanto, isso não quer dizer que as pessoas não tenham essa sensação que classe política não é capaz de representar aquilo que a sociedade almeja. Interessante pensarmos no paralelo da crise de representação politica em outros lugares do mundo, pois podemos ver que a política tradicional está perdendo o espaço”, diz.

Para Ayerbe, o crescimento dos candidatos outsiders também mostra que a população norte-americana perdeu o receio de apostar em nomes fora do establishment, e essa tendência “veio para ficar”.

"O eleitorado norte-americano perdeu o medo de votar naquilo que é menos conhecido, mas oferece algo diferente. Isso começou com Obama e parece que é um fenômeno que veio para ficar. Podemos fazer um paralelo com a América do Sul, entre o final da década de 1990 e início dos anos 2000. Na época, embora tivéssemos candidatos à esquerda, parecia natural que a vitória seria naturalmente da centro-direita, ou seja, partidos do sistema. E, de repente, houve uma reviravolta, surgiram novas lideranças e a população não teve medo de votar em candidatos que pareciam desconhecidos e de esquerda, que representavam algo diferente, um mundo diferente”, compara Ayerbe.

Em caso de vitória, outsiders terão dificuldades para governar

Ariel Finguerut e Luis Fernando Ayerbe acreditam que, em caso de vitória, tanto Trump quanto Sanders teriam que adotar uma agenda mais moderada para administrar o país. Caso as propostas que hoje apresentam como candidatos sejam oficializadas na presidência, os EUA viveriam uma intensa crise política.

“Se Trump e Sanders vencerem as primárias e mais tarde as eleições presidenciais, terão que lidar com o Congresso e com composições políticas. Isso cria uma série de freios para uma agenda muito agressiva. No caso de uma vitória desses outsiders, o que aconteceria de fato seria uma instabilidade política muito grande, pois teriam mais dificuldade para compor com os Democratas ou Republicanos. E o Congresso seria mais aguerrido em relação ao Executivo. Em termos de relações internacionais, teríamos um primeiro momento de surpresa, como foi com Obama, positiva ou negativa, mas a médio e longo prazo, a tendência seria de uma política mais de centro, à direita ou à esquerda”, analisa Ariel Finguerut.

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