O dia em que a Colômbia parou: obstáculos no caminho da 'Primavera Andina'

Crescimento econômico elevado esconde um país que padece de desigualdade e insegurança

Em 'A hora má: o veneno da madrugada', Gabriel García Márquez descreve, com a destreza costumaz de seu estilo realista fantástico, a história de um vilarejo perdido da costa caribenha amedrontado pela aparição de misteriosos panfletos anônimos com revelações inconvenientes sobre a vida dos moradores, detonando em seguida uma escalada de terror e violência. Ao deparamos com os últimos acontecimentos da Colômbia, nos damos conta que o realismo de Gabo nada possui de fantástico.

Pois foi exatamente um panfleto escrito neste princípio de 2012 que deu início a mais um episódio da violenta história política colombiana. Nele se decretava a “suspensão geral do comércio, transporte, prefeitura e poderes locais", ordenando a população a permanecer em suas casas, sob ameaça de retaliação e morte. Nele esboçava-se até uma mensagem política, ao afirmar que, "nas democracias sadias, os organismos de segurança do Estado nunca devem perseguir o crime com mecanismos criminosos”.

Reprodução
Uma mensagem intimidadora, tanto contra o cidadão comum quanto contra o Estado, contida em um texto impresso aos milhares. Nele, o grupo paramilitar mais influente da Colômbia, Los Urabeños, aterrorizou a população de cerca de um quinto do país e paralisar o comércio e transporte em seis departamentos, incluindo a cidade de Santa Marta (importante pólo turístico na costa caribe) e setores de Medellín.

Uma impressionante demonstração de força, em represália à morte de seu líder em combate com a polícia nacional, que fez os recentes atentados das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em regiões isoladas do país parecerem amadores. A ação é mais um round na queda de braço entre governo e paramilitares. Na ética paramilitar, ocrime é justificado como um meio para atingir um fim moralmente superior: libertar o país da "ameaça socialista".

Estes exércitos privados, originalmente criados por latifundiários para combater as guerrilhas marxistas, terminaram por estender seus tentáculos na política regional e nacional. Hoje, constituem-se em uma poderosa máfia que detém o controle do narcotráfico e do contrabando no país, especialmente nas zonas de escoamento de drogas e produtos ilícitos no país, como as costas pacífica e caribe, além da bacia do rio Magdalena e da região industrial de Antióquia.

Enquanto isso, indiferente a essa tensão, em uma escura esquina na porta do centro colonial de Villa de Leyva, a 3 horas da capital Bogotá, no altiplano colombiano, um vendedor de arepas – espécie de tapioca feita de farinha de milho, e base da alimentação no norte da América do Sul – tem dificuldade em atender a clientela e anuncia: dez minutos de espera. A cidade, que amanhece sob a poeira levantada por marteladas em múltiplas obras de renovação e adequação arquitetônica, é um microcosmo do ritmo frenético com que se acelera a atividade econômica no país.

Puxada pela massiva entrada de dólares, tanto de turistas como de investidores estrangeiros, e pelos setores de extração mineral e construção civil, a economia conhece um boom que atinge agora o seu ápice, apesar do quadro recessivo internacional. E o dinheiro volta a circular na Colômbia, beneficiando indiretamente as classes populares urbanas. 

De fato, as estatísticas oficiais dão conta de um cenário macroeconômico de fazer inveja aos países mais avançados, hoje atolados em uma das piores crises que o capitalismo brindou. Crescimento econômico anual de 8% no terceiro trimestre de 2011, sem nem sequer arranhar o equilíbrio de preços internos: a inflação fechou abaixo dos 4% pelo terceiro ano consecutivo. A demanda externa explica parte deste sucesso, com as exportações colombianas acelerando-se a uma taxa de 14% ao ano na última década, lideradas especialmente pelo setor extrativo, cujas vendas se destinam primordialmente ao aliado histórico do país andino, os EUA.

Mas, para entender a trajetória econômica recente da Colômbia, é preciso também se concentrar na nova dinâmcia que conhece o seu mercado interno, cujo principal motor é a expansão do crédito (com crescimento de excepcionais 20% a 30% ao ano no período recente) e a redução do desemprego para um nível abaixo de dois dígitos (9,2%) pela primeira vez em quatro anos, batendo um recorde de mais de dez anos.

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Contudo, as contradições do modelo colombiano não são poucas. Como se sabe desde os tempos dos milagres das ditaduras militares latino-americanas, crescimento econômico não se traduz automaticamente em bem-estar social. O outro lado da moeda deste contexto de bonança no país andino é a inexistência de mecanismos redistributivos institucionalizados. A isto soma-se a permanência do mais antigo conflito armado do subcontinente, que, como um fantasma, recorrentemente apavora o país em novos episódios de violência. O toque de recolher imposto pelos paramilitares, ou paralisação armada como se batizou por aqui, é apenas o mais recente deles.



Como resultado da ampliação da influência paramilitar em extensas regiões do país, com a anuência e muitas vezes o envolvimento do Estado, a Colômbia hoje acumula tristes recordes em indicadores sociais, na contramão do que ocorre com vizinhos como Venezuela, Brasil ou Argentina: ostenta a pior distribuição de renda da região (desde 1991, os 20% mais ricos aumentaram de 15 vezes para 25 vezes o seu rendimento médio em relação aos 20% mais pobres; a posição do país no Índice de Desenvolvimento Humano despencou da 62ª. em 2001 para 77ª. em 2009).

A Colômbia vive também uma situação crítica provocada pelo deslocamento forçado de 3 milhões de pessoas atingidas pela violência nas zonas rurais, que mantém a nação em uma das mais complexas crises de refugiados do planeta; apresenta agravamento em índices de informalidade, pobreza e indigência; além de um saldo humanitário devastador, com estimadas dezenas de milhares de desaparecidos e centenas de assassinatos de lideranças de movimentos sociais e sindicalistas na última década. Em 2010, a Colômbia sozinha foi responsável por metade dos sindicalistas assassinados em todo o mundo.

No estilo “o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”, a grande imprensa, descaradamente parcial e governista (a família do presidente é proprietária dos maiores jornais do país), destaca a tentativa do governo Santos de se distanciar desta nefasta herança social, em boa parte atribuída aos anos Uribe.

A popularidade de Santos, ex-ministro da defesa no governo anterior, foi, porém, arranhada exatamente pela tomada de consciência da população das injustiças do modelo colombiano. Manifestações políticas, apartidárias, que antes eram um fenômeno raro em um povo acuado pela brutalidade da polícia nacional, cuja ação se assemelhava mais à polícia secreta de um Estado totalitário, vêm se tornando cada vez mais frequentes.

WikimediaCommons

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos

A marcha que inaugurou esta tendência de oposição civil às brutalidades do Estado foi a minga indígena de 2008, que reuniu dezenas de milhares de representantes das populações originárias da Colômbia provenientes de todos os cantos do país em Bogotá. Naquela ocasião, o governo utilizou o protesto como pretexto para prender, torturar, matar e aterrorizar os pacíficos manifestantes. O povo, porém, não se intimidou.

E a manifestação mais recente do renascimento do movimento social colombiano são as enormes passeatas lideradas por estudantes, que protestam contra a tentativa do governo Santos de promover uma reforma privatista na educação superior. Após várias semanas nas ruas, e uma prolongada greve de alunos nas universidades, obtiveram por fim uma primeira vitória: a retirada momentânea do projeto governista.

A nova dinâmica econômica colombiana semeia certamente inúmeras contradições, mas planta também as sementes de uma verdadeira primavera andina. Esses grãos estão permitindo o ressurgimento da sociedade civil organizada como um agente da transformação social, e cujo desfecho caminha inexoravelmente para o sepultamento da violência anacrônica que tem marcado a história do país.

* Professor de Economia da Universidade Federal de São Carlos. Editor do blog Outra Economia.

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