Enquanto Assad fala, a Rússia age

Presidente sírio perdeu chance de falar mais claramente sobre os planos dos vizinhos interessados na guerra

Bashar al Assad falou com exclusividade ao jornal argentino Clarín (há uma imensa diáspora síria na Argentina, bem como no Brasil).

Vendo através da névoa da histeria ocidental, fez algumas observações valiosas. A história mostra que sim, que o regime aceitou por várias vezes falar com a oposição; mas a gama de grupos “rebeldes”, sem uma liderança crível e unificada, sempre se negou. Portanto, não existe um caminho para o cessar-fogo que possa finalmente ser acordado em uma reunião, como a próxima conferência de Estados Unidos e Rússia em Genebra.

Assad tem alguma razão quando diz: “Nós não podemos discutir nem um mapa com um grupo de pessoas se não sabemos quem elas são”.

Bem, a estas alturas, qualquer um que observe a tragédia síria sabe quem eles são, em sua maioria. Sabe-se que o Exército de Canibais Sírios Não-livres, perdão, o ELS (Exército Livre da Síria) é uma coleção heterogênea de senhores da guerra, gângsters e oportunistas de todo tipo cruzados com jihadistas de linha dura, do tipo da Jabhat al Nusra (mas também com outros grupos vinculados à Al Qaeda ou inspirados nela).

Sana/Agência Efe (18/05)

O presidente sírio Bashar Al-Assad (direita), em entrevista a jornalistas argentinos em Damasco

A Reuters demorou meses para finalmente admitir que os jihadistas dominam o show sobre o solo [1]. Um comandante “rebelde” inclusive se queixou à Reuters: “A Nusra agora é dos Nusras. Uma parte que segue a agenda da Al Qaeda de uma grande nação islâmica e outra que é síria, com uma agenda nacional para nos ajudar a combater o Assad”. O que não disse é que o grupo realmente efetivo está vinculado à Al Qaeda.

A Síria é agora o Inferno das Milícias; muito parecido com o Iraque em meados dos anos 2000 e muito parecido com o “livre” Estado fracassado líbio. Essa “afeganistanização/somalização” é uma consequência direta da interferência do eixo OTAN/CCG (Conselho de Cooperação do Golfo)/Israel [2]. Portanto, Assad tem razão quando diz que o Ocidente está avivando o fogo e que só está interessado na mudança de regime, seja qual for o custo.

O que Assad não disse

Não se pode dizer que o Assad seja exatamente um político brilhante, uma vez que desperdiçou uma excelente oportunidade para explicar à opinião pública ocidental, mesmo que brevemente, porque as petromonarquias do CCG, Arábia Saudita e Catar, além da Turquia, estão interessados em incendiar a Síria. Poderia ter dito que o Catar quer entregar a Síria à Irmandade Muçulmana, e a Arábia Saudita sonha com uma colônia que seja um “cripto-emirado-colônia”. Poderia ter dito que ambos estão aterrorizados com os xiitas do Golfo Pérsico, que abrigam ideais legítimos da Primavera Árabe.

Poderia ter apontado o fracasso absoluto da política exterior turca de “zero problemas com os nossos vizinhos”: em um dia, há a tríade de colaboração Ancara-Damasco-Bagdá e, no dia seguinte, Ancara quer uma mudança de regime em Damasco e antagoniza Bagdá. E, acima de tudo, a Turquia se atrapalha ao ver que os curdos se sentem alentados desde o norte do Iraque até o norte da Síria.

Poderia ter detalhado como o Reino Unido e a França, dentro da OTAN – para não mencionar os Estados Unidos –, assim como seus petromonarcas marionetes, estão utilizando a desintegração da Síria para prejudicar o Irã, e nenhum desses atores que os abastecem com armas e muito dinheiro estão interessados com os sofrimentos do “povo sírio”. A única coisa que importa são seus objetivos estratégicos.
 

Foto:

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Enquanto Bashar al Assad falava, a Rússia agia. O presidente Vladimir Putin – perfeitamente consciente de que as conversas de Genebra estão sendo desencaminhadas por diversos atores, inclusive antes de terem início – enviou barcos da marinha russa ao leste do Mediterrâneo e ofereceu à Síria uma quantidade de ultramodernos mísseis terra-mar Yajhont, além de vários mísseis antiaéreos S-300, o equivalente russo do norte-americano Patriot. Vale lembrar que a Síria já tem os mísseis antiaéreos russos SA-17.

Agora, qualquer um de vocês, membros da gangue OTAN-CCG – inclusive, deixando de lado a ONU –, tratem de lançar uma operação mini “Choque e Pavor” contra Damasco. Ou tratem de implementar uma zona aérea de exclusão. Do ponto de vista militar, o Catar e a Casa de Saud são uma piada. Os britânicos e franceses estão seriamente tentados, mas não têm os meios – ou estômago. Washington, por sua vez, tem os meios, mas não o estômago. Putin sabia, com toda certeza, que o Pentágono entenderia claramente o seu recado.

O “Dutostão”

Assad também poderia ter falado – e de que mais? – do “dutostão”. Bastariam a ele dois minutos para explicar o significado do acordo do gasoduto Irã-Iraque-Síria, de 10 bilhões de dólares, firmado em julho de 2012. Esse nó crucial do “dutostão” exportará gás desde o campo de Pars do Sul, no Irã (o maior do mundo, compartilhado com o Catar), através do Iraque em direção à Síria, com uma possível extensão ao Líbano, com clientes confirmados na Europa ocidental. É o que os chineses chamam de uma situação “ganha-ganha”.

Mas não para – adivinhem! – o Catar e a Turquia. O Catar sonha com um gasoduto rival, desde seu campo Norte (contíguo ao campo de Pars do Sul, no Irã), passando pela Arábia Saudita, Jordânia, Síria e, finalmente, Turquia (que se mostra como o centro privilegiado de trânsito de energia entre oriente e ocidente). O destino final, mais uma vez: Europa ocidental.

Como em tudo o que tem relação com o “dutostão”, o ponto crucial do jogo é deixar de lado o Irã e a Rússia. É o que faz o gasoduto do Catar, freneticamente poiado pelos Estados Unidos. Mas no caso do gasoduto Irã-Iraque-Síria, a rota de exportação não pode ter origem em outro lugar senão em Tartus, o porto sírio no leste Mediterrâneo que abriga a marinha russa. Obviamente, a russa Gazprom faria parte de todo esse processo, desde o investimento até a distribuição.

Agência Efe (21/05)

Representantes da oposição síria reunidos em Madri pedindo a renúnica de Al Assad e a formação de um "governo transitório"

Que não restem dúvidas: o “dutostão” – novamente obrigado a contornar Rússia e Irã – explica muitas coisas sobre a destruição da Síria.

O estratagema de petróleo da UE para a Al Qaeda

Enquanto isso, o verdadeiro exército sírio – respaldado pelo Hezbollah – está metodicamente recuperando Al Qusayr do controle “rebelde”. Seu próximo passo será olhar em direção ao leste, onde a Jabhat al Nusra está se beneficiando alegremente de outra intromissão típica da União Europeia: a decisão de impor sanções petroleiras contra a Síria [3].

O blogueiro do Syria Comment Joshua Landis já tirou as conclusões necessárias: “Quem quer que se apodere do petróleo, da água e da agricultura, terá em suas mãos os sunitas sírios. No momento, quem faz isso é a Al Nusra. O fato de a Europa abrir o mercado ao petróleo impôs essa situação. Daí a conclusão lógica dessa loucura: de que a Europa está financiando a Al Qaeda”. Chamemos isso de estratagema petroleiro da União Europeia para a Al Qaeda.

O sudoeste da Ásia – o que o Ocidente chama de Oriente Médio – continuará sendo um campo privilegiado de irracionalidade. Tal como estão as coisas na Síria, em vez de uma zona aérea de exclusão, o que se deveria implementar, na realidade, é um “todos voam pela paz”, e cada qual, com seu vizinho, deveria estar envolvido: Estados Unidos, Rússia, União Europeia e também Hezbollah, Israel e, por certo, Irã, como destacou com entusiasmo o Ministro de Relações Exteriores russo Sergei Lavrov [4].

Muito além da obsessão ocidental pela mudança de regime, o que a já problemática conferência de Genebra poderia produzir é um acordo segundo a Constituição Síria – que, a propósito, é absolutamente legítima, tendo sido adotada em 2012 por uma maioria de votos do verdadeiro e sofredor “povo sírio”. Isso, inclusive, poderia significar que o Assad não é o candidato a presidente nas eleições programadas para 2014. Mudança de regime, sim. Mas por meios pacíficos. A OTAN, o CCG e Israel permitirão que isso ocorra? Não.

Notas:
[1] Insight: a síria Nusra é eclipsada pela israelense Al-Qaeda, Reuters, 17 de maio de 2013.
[2] Organização do Tratado do Atlântico Norte-Conselho de Cooperação do Golfo-Israel.
[3] Decisão da União Europeia de levantar sanções ao petróleo sírio impulsiona grupos jihadistas, Guardian, 19 de maio de 2013.
[4] Rússia diz que Irã deve fazer parte das conversas na Síria, Reuters, 16 de maio de 2013.

Pepe Escobar é autor de “Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War” (Globalistão: como o mundo globalizado está se dissolvendo na guerra líquida, Nimble Books, 2007) e de “Red Zone Blues: a snapshot of Baghdad during the surge” (Red Zona Blues: um relato de Bagdá durante o surto). Seu livro mais recente é “Obama does Globalistan” (Obama faz Globalistão, Nimble Books, 2009). Contato: pepeasia@yahoo.com

Fonte: Asia Times

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