Tailândia e a fabricação de movimentos de oposição ao redor do mundo

Intenção de potências é acabar com resistência substancial ao presente regime global, com a ajuda das elites locais

Artigo publicado na edição de abril da revista CounterPunch

Realmente deveriam dedicar um voo para conectar algumas das cidades consumidas pelos “protestos” orquestrados em Washington, Londres e Paris.

Um voo que conectaria Bangcoc-Pequim-Moscou-Kiev-Caracas e Havana, talvez com um deslocamento meridional para Harare, Pretória e Asmara. Seria uma ideia muito boa, uma ideia para economizar dinheiro — para os pagadores de impostos na Europa e América do Norte.

Vamos, por favor, deixar de fingir que eles são explosões espontâneas contra governos que foram democraticamente eleitos e apoiados pela maioria das pessoas no Oriente, na América Latina, na África e na Ásia.

Ввласенко/Wikicommons 

Protesto inflamado na rua Hrouchevskoho, em Kiev, capital da Ucrânia, dias antes da derrubada do premiê Viktor Yanukovych  

Sejamos pragmáticos e pensemos em como economizar a grande quantia gasta, desses bilhões de euros e dólares, enfiados goela abaixo das ONGs pró-Ocidente, em lugares como a Tailândia e a Ucrânia, a África do Sul e a Venezuela, o Equador e a Bolívia.

A lista é, na verdade, interminável, ao tempo que o objetivo é claro como água: é acabar com toda a oposição substancial ao presente regime global ocidental — varrê-la da face da Terra! E fazê-lo, varrê-la, tão rápida e eficientemente quanto possível, preferivelmente evitando invasões diretas. Se centenas, milhares, até milhões de pessoas em países pobres, não-brancos, ou socialistas/comunistas morrerem, defendendo sua pátria ou país de origem no processo, que assim seja. O Ocidente nunca foi mesquinho quando se trata de sacrificar milhões de vidas inocentes dos “outros”.

As vidas desses “pretos” (para tomar emprestada a linguística educada de gente como Lloyd George), ou desses porcos comunistas, nunca valeu nada, pelo menos para os governantes em Londres, Berlim, Paris ou Washington. Elas não valiam nada antigamente, e elas não valem nada agora. O primeiro-ministro britânico Sir Winston Churchill era, por exemplo, a favor da câmara da gás para essas raças “de grau inferior”...

Vinte milhões de vidas de cidadãos soviéticos, centenas de milhões de pessoas assassinadas no que é agora a América Latina, o Oriente Médio, a Ásia e isso sem nem contar a África.

Então vamos colocar tudo às claras: vamos pedir a introdução desse voo-ao-redor-do-mundo-de-longa-distância, para que possam circular esses agentes do imperialismo e do neocolonialismo, aqueles burocratas ocidentais e seus lacaios, suas prostitutas na imprensa e seus açougueiros locais, às vezes chamados de “elites”.

Tal “serviço” economizaria muito combustível, ao conectar os pontos importantes de uma forma muito eficiente.

Foto:

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Faça que ele seja todo em classe executiva ou primeira classe, porque essas pessoas não estão fazendo o que estão fazendo por ideais grandiosos — fazem-no por status ou dinheiro vivo.

***

Em um ano eu trabalhei, entre outros lugares, na fronteira da Turquia/Síria, no Egito, Zimbábue, Venezuela, Cuba, Ucrânia e Tailândia.

As semelhanças são assombrosas: as barracas, geradores elétricos, pessoas importadas de províncias pobres e até o slogans!

Eu falo do que eu testemunho. Eu falo sobre isso e descrevo em palavras e nos meus filmes. Mas periodicamente, como agora, eu só quero mostrar as imagens, para dividir com meus leitores e espectadores o que é....bem...tão óbvio!

Duas semanas atrás eu estava na Ucrânia, e mostrei imagens de lá. Hoje: que seja a Tailândia!

***

Em Bangcoc, muito recentemente, os “protestantes” saíram de um shopping de classe alta, Sukumuvit, em direção ao enorme parque público — Lumpini.

Eles foram obviamente informados para passarem bem longe de Paragon, Emporuin e outros shoppings! Lá, eles estariam prejudicando as vitrines da Lotus, Rolls Royce e dos carros Ferrari, assim como aquelas das butiques Prada, Versace e Vuitton.

A presença deles é suficiente para irritar, até ameaçar os oficiais governamentais. É boa para desfazer eleições (as eleições são livres e “democráticas” apenas quando as pessoas votam naqueles candidatos e sistemas que o ocidente aprova, caso contrário os votantes são intimidados, ou até massacrados pelas “forças verdadeiramente democráticas”).

Mas aqueles sulistas tailandeses realmente fedem, e são vulgares demais para os gostos refinados das elites de Bangcoc! Então pro inferno com os bastardos! Eles são pagos de qualquer maneira, então eles podem receber ordens sobre para onde ir. Eles estavam destruindo o centro comercial da cidade, com seus potes e panelas e “calças de pescador”.

Eles têm de sair... ou então! Eles saem, claro; eles saem obedientemente, como gado, para onde ordenam que eles vão. Eles são pagos para sair...

Então agora acontece essa enorme celebração do ano novo tailandês – do Songkran – do Festival das Águas. As pessoas estão desesperadas, a economia tailandesa está gritando, todos os economistas estão prevendo uma depressão gigante, crise, até colapso. Mas o que eles, pessoas ordinárias, podem fazer? — eles têm de fazer algo! Então eles celebram. Cerveja, música alta, jatos de água, mangueiras de incêndio, sirenes...

As pessoas não estão sorrindo; as pessoas estão preocupadas. Mas no parque Lumpini, tudo é festivo: enormes telas de alta tecnologia, homens em uniformes e jaquetas militares (nossa, exatamente como em Kiev!), slogans pornográficos antigoverno (a primeira-ministra é uma mulher e embora a pornografia na internet seja banida, é bastante ok retratar a cabeça do governo tailandês como uma prostituta pelada) e rostos pintados com um branco reluzente.

Há academias de ginástica primitivas onde sujeitos brutos estão construindo músculos ao ar livre. Há cabeleireiros e tendas de massagem.

Há bandidos, por todo lado. Assim como em Kiev e em outros lugares, há o “tráfico controlado”, decidindo quem pode passar pelas áreas ocupadas.

Há câmeras de vídeo por todo lado, mas a polícia nunca ousaria interferir (assim como em Kiev, onde por semanas eles realmente não ousaram intervir), o Exército é também totalmente a favor da monarquia e das elites, e nunca sonharia em machucar aqueles que são pagos pelos reais mandantes da terra, e seus manipuladores estrangeiros.

E, de repente, eu o vejo! Há um enorme pôster proclamando: “THAKSIN-ISMO É UMA TIRANIA COMUNISTA”.

Andre Vltchek 

Pôster diz que o ex-premiê tailandês Thaksin Shinawatra, um magnata das telecomunicações que se tornou político, é "comunista"

Thaksin Shinawatra um comunista? Aquele magnata dos negócios, um capitalista-turbo, cuja única “falha” foi introduzir assistência médica gratuita (muito melhor que nos Estados Unidos), melhorar a educação, alojar os pobres, e buscar uma sociedade muito mais igualitária do que qualquer uma já vista até hoje no sudeste da Ásia?

Isso era, claro, inaceitável para as elites tailandesas, os militares e seus manipuladores estrangeiros, simplesmente porque na Tailândia a questão não é o dinheiro, mas majoritariamente a lacuna que os mandatários sentem que precisam conservar entre eles e o restante das pessoas. Os mandatários da Tailândia precisam que as pessoas se curvem em frente a eles, aos seus pés, como em outros lugares dessas repugnantes colônias ocidentais no sudeste da Ásia; e em suas terras feudais, como as Filipinas e a Indonésia. Lá, as pessoas são condicionadas a serem escravas das elites, enquanto crianças são criadas e imediatamente quebradas, “educadas”, como escravas de seus pais!

Eu fui falar com as pessoas perto dos cartazes. Yudhana Chauburi e Somkiat Korbkij eram os mais próximos do pôster.

“O que é comunismo?”, eu perguntei.

Ninguém parecia saber.

Eu perguntei de novo e de novo. Eu perguntei para várias pessoas. Nada!

Então um guarda se aproximou de mim: “Nós achamos que o comunismo é...uma pessoa controlando tudo...”

“Você quer dizer... um monarca?”

Ele se afastou, horrorizado.

Eles todos pareciam iguais — os malfeitores apoiados e financiados pelas assim chamadas “elites”. Em Bangcoc ou Kiev, em Harare ou Caracas.

Até o preço pago para trair o país —a tarifa usual — parece ser a mesma: aproximadamente 10 dólares por dia.

* Andre Vltchek é um escritor, cineasta e jornalista investigativo. Ele cobriu guerras e conflitos em dezenas de países. Sua discussão com Noam Chomsky sobre o terrorismo ocidental vai agora ser impressa. Sua novela política aclamada pela crítica Point of No Return [Ponto sem Volta, em tradução livre] está agora reimpressa e disponível. Oceania é seu livro sobre o imperialismo ocidental no Pacífico Sul. Seu livro provocativo sobre a Indonésia pós-Suharto e o modelo de mercado fundamentalista é chamado “Indonesia – The Archipelago of Fear” [Indonésia – O Arquipélago do Medo, em tradução livre]. Ele acaba de completar o documentário “Rwanda Gambit” [A Jogada de Ruanda, em tradução livre] sobre a história de Ruanda e da pilhagem da República Democrática do Congo. Depois de viver por muitos anos na América Latina e na Oceania, Vltchek atualmente vive e trabalha na Ásia oriental e na África. Eles pode ser encontrado por meio de seu site ou de sua conta no Twitter.

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