Leituras para a (e apesar da) Copa

Livrosde autores brasileiros e estrangeiros ajudam a entender a estrela da ocasião: o futebol

A Copa do Mundo que vem aí é uma oportunidade óbvia de acompanhar os jogos de perto, torcer e esquecer, como sempre fazemos, e também de se dar conta de uma série de irregularidades e injustiças que nos rodeiam cotidianamente e sair a protestar, como estamos aprendendo a fazer. Mas é, além disso, uma ótima desculpa para estudar a fundo a estrela da ocasião: o futebol. Nós, brasileiros, temos uma relação especial com esse esporte, gostando dele ou não. A bola rolando em solo nacional revela, historicamente e socialmente, um contexto de afinidade entre técnica, arte e superação. Compreendê-lo dá outras dimensões ao tema, e para atingi-las há uma série de livros imperdíveis, já lançados ou quase, à disposição.

São raros os títulos de ficção envolvendo futebol que realmente toquem o leitor mais exigente. Mas um livro lançado no ano passado pela Companhia das Letras mudou esse paradigma. “O Drible”, de Sergio Rodrigues, conta uma história de reaproximação entre pai e filho: o primeiro é Murilo Filho, um cronista de futebol aposentado e à beira da morte, e o segundo, Neto, é um revisor de livros de autoajuda solitário, que coleciona quinquilharias dos anos 70 e relações amorosas descartáveis – e que sempre se sentiu preterido pelo pai famoso. Entremeado com esse relato está o livro que Murilo Filho escreve sobre um extraordinário jogador dos anos 60, que teria sido “maior que Pelé”, se seu final não tivesse sido trágico. De uma maneira envolvente e inclusive carregada de suspense, o autor constrói vários universos ao mesmo tempo – o familiar, o pessoal, o futebolístico –, chegando a retratar a época de ouro do futebol brasileiro com uma riqueza imaginativa que só a ficção poderia garantir.

Agência Efe

Futebol faz parte das histórias mundial e brasileira e obras estimulam leitores a conhecer as nuances sociais e políticas do esporte

Na seara da não ficção, por outro lado, os horizontes são mais amplos e incluem paradas obrigatórias. Para começar, ninguém jamais será capaz de entender como nasce o futebol-arte no Brasil sem se debruçar sobre o clássico “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mario Filho. Reeditado recentemente pela editora Mauad (agora também em inglês, com vistas à chegada de jornalistas estrangeiros e turistas leitores), ele é pioneiro ao ressaltar a importância dos africanos para a originalidade do esporte mais popular do país. Foi publicado em 1947 com prefácio de Gilberto Freyre, que se declarou admirador do trabalho de Mario – cronista de O Globo por muitos anos.

Em uma linha parecida, está “Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil”, de José Miguel Wisnik, pela Companhia das Letras. O livro aborda as questões políticas, sociais, econômicas e comportamentais em torno do futebol sem deixar de lado o jogo em si, que é o que finalmente cativa com tanta força as pessoas, seja no Brasil ou onde for. E, para provar que os brasileiros não estão sozinhos quando o assunto é a devoção ao futebol, especialmente na América Latina, Eduardo Galeano contribui à discussão com “Futebol ao Sol e à Sombra”, editado aqui pela L&PM. O escritor uruguaio é fã de futebol e acredita que, com a bola rolando, exacerbam-se conflitos e paixões. Por isso, o compara com o teatro e a guerra em histórias contadas com maestria. Vale ressaltar que, assim como Mario Filho associa o estilo brasileiro de jogar à “capoeiragem”, Galeano elogia o futebol jogado no Uruguai e na Argentina dizendo que “nos pés dos primeiros criollos nasceu o toque: a pelota tocada como se fosse violão, fonte de música”.

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Há ainda, no cenário dos grandes escritores, alguns títulos essenciais: “A pátria de chuteiras”, de Nelson Rodrigues, lançado no final de 2013 pela Ediouro com 40 textos do grande dramaturgo (e cronista de futebol também, contemporâneo de Mario Filho), escritos entre 1950 e 1970; “Quando é dia de futebol”, com escritos de Carlos Drummond de Andrade sobre futebol em suas múltiplas variantes, publicados em sua maioria nos jornais Correio da Manhã e Jornal do Brasil e reunidos em livro agora pela Companhia das Letras; e "Os Garotos do Brasil - Viagem à identidade secreta dos nossos craques”, de Ruy Castro, que delineia, segundo o autor “o lado humano de atletas como Belini, Pelé, Garrincha, Zico, Ronaldo ‘Fenômeno’ e o goleiro Julio Cesar” – e que deverá sair em breve.

Como, no Brasil, falar desse esporte tão grande e de seus grandes craques é impossível sem citar Pelé, dois lançamentos do Rei do Futebol devem entrar pra lista. O primeiro é “A importância do futebol”, de título bem didático, que Pelé escreveu com o jornalista Brian Winter. O outro, “As joias do rei Pelé”, reúne fotos de objetos que marcaram sua carreira estelar, como troféus, cetros e coroas, mas também um velho rádio e uma rudimentar caixa de engraxate. Ambos são editados no Brasil pela Realejo Livros, uma editora de Santos que também é livraria, onde futebol é assunto tratado com toda o conhecimento e dedicação que merece.

Finalmente, mas não por último, as crianças podem se divertir com outro título de ficção que merece entrar pra biblioteca da família. “La cancha de los deseos”, do maior escritor mexicano da atualidade, Juan Villoro, chegará ao Brasil por essas épocas (provavelmente como “O estádio dos desejos”) em edição da Terceiro Nome. O livro fala de Arturo, um menino que adora futebol, sonha em ser jogador, vai ao estádio com o pai e é feliz. Para ser ainda mais feliz, ele se dedica – junto ao pai cientista – a descobrir uma fórmula que faça o time de seu país ganhar, já que ele vivia perdendo.

São boas leituras, e dá até pra esquecer que a Copa desta vez vai ser aqui.

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