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'Quero trazer de volta o movimento das ruas', diz palestino que toca piano para refugiados na Síria

Jovem Aeham Ahmad, que teve de deixar o conservatório após a eclosão da guerra civil síria, anda com seu piano pelas ruas do campo de refugiados de Yarmouk

Todos os dias Aeham Ahmad, um jovem palestino de 27 anos, leva seu velho piano para as ruas do campo de refugiados de Yarmouk, em Damasco, e, em meio aos escombros do que ainda resta da cidade síria, toca canções para “lembrar as pessoas que ainda existe beleza no mundo, mesmo em meio a tanta dor e sofrimento”. Acompanhado pela orquestra de amigos The Youth Troupe Yarmouk, ou por um coro infantil, Ahmad quer novamente dar esperança aos que vivem no campo como ele.

Divulgação

O palestino Aeham Ahmad, 27, vive na Síria; após a eclosão da guerra civil, teve que abandonar o conservatório onde estudava música

A música sempre esteve presente em sua vida. Filho de um tocador de acordeon, cresceu em meio a instrumentos musicais. Formado em piano clássico, entrou no curso de educação artística, do Conservatório de Damasco, mas com a guerra que minou o país, teve que interromper os estudos. “Deixei o conservatório por causa desse conflito, mas não sai daqui”, diz, em entrevista via internet a Opera Mundi, que o contatou através de sua página no Facebook. Ele conta que começou a tocar pelas ruas porque o campo foi invadido por um silêncio estarrecedor. “De repente, todos as pessoas que eu conhecia não estavam mais lá, fugiram ou morreram. Os ruídos, as risadas e os sons que ocupavam as estradas desapareceram. Comecei a tocar piano para trazer de volta o movimento das ruas, porque não conseguia manter a calma e percebi que só a música me tranquilizava”.

No início no conflito, Ahmad se isolou da música e vendeu falafel por seis meses, mas percebeu que deveria fazer algo. Pegou o velho piano, o fixou em um carrinho de entregas de um tio e começou a tocar entre as ruas deprimentes do campo. Se apropriou da música como forma de resistência à guerra e enfrentou de peito aberto tanto as correntes proibicionistas do islã que veem na música o pecado, quanto os milicianos que o ameaçaram. “Disseram que quebrariam os ossos das minhas mãos caso continuasse tocando, ai eu tocava somente pela manhã, enquanto eles dormiam. Me certifico que a rua esteja livre antes de sair com o piano", relata.

Com uma trilha sonora inspiradora, toca desde jazz árabe a músicas da resistência palestina e síria, além de ser autor de canções próprias, como Não lembro o meu nome. [assista abaixo]

O campo de Yarmouk

O jovem palestino vive com sua família em Yarmouk: o pai cego e doente, a mulher e o filho. Ahmad conta que apesar do garoto ter dois anos, não diz uma palavra, a não ser 'bum bum bum'. “Ele não entende o que acontece no campo e é aterrorizado pelos sons das bombas. Tem medo de tudo, principalmente de aviões, e se esconde entre as pernas de minha mulher ou embaixo das cobertas”.

Yarmouk é o maior campo de refugiados palestinos na Síria. Localizado a cerca de 8 quilômetros do centro de Damasco, se transformou, ao longo dos anos, em um destino para a diáspora palestina, chegando a abrigar cerca de 150 mil pessoas. A partir de 2011, com o início da guerra civil na Síria, esse número foi diminuindo até chegar aos atuais 18 mil. Segundo as Nações Unidas, hoje o campo vive em escassez constante de alimentos, remédios e outras necessidades básicas; a ONU definiu Yarmouk como uma "cidade fantasma" onde "a devastação é inacreditável e não há um edifício habitável".

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Ahmad, assim como seu filho, nasceu no campo. Seus antepassados chegaram lá em 1948 em virtude da hospitalidade que o povo sírio oferecia. Hoje a realidade é outra. Após três anos de guerra e destruição, a vida ficou extremamente difícil; falta tudo: água, luz, comida, roupas, cobertas, etc. “ O inverno é muito rígido e sem poder se cobrir as pessoas acabam morrendo de frio, além de fome e sede. Outro problema é o estado psicológico das pessoas, que vem se deteriorando rapidamente”, diz ele.

A violência do conflito sírio é causada por vários grupos armados. O país está dividido: uma parte está nas mãos do Exército de Bashar Al Assad, outra nas mãos do Estado Islâmico e uma outra ainda nas mãos dos opositores do Exército Sírio Livre, que lutam para derrubar o governo Assad. “Há mortes sistemáticas de civis em todas as partes”, relata o pianista. Escapar da violência não é possível. Fugir de Yarmouk é muito arriscado, pois o campo é isolado e sitiado por opositores e pelo Exército sírio. “Eu quero sair deste lugar, mas não posso. Existem obstáculos. Aqui escolhemos entre a morte ou a pena de morte. Então procuro contribuir para melhorar as condições de sobrevivência no campo”, diz.

Reprodução/UNRWA

Fila para receber comida de entidades de assistência humanitária no campo de refugiados de Yarmouk

Sonhos

Mesmo vivendo entre escombros, o jovem palestino nunca deixou de sonhar. “Quando a guerra acabar, gostaria de abrir uma escola de música para as crianças de Yarmouk, onde também possa ensinar mensagens de paz, de esperança e não de ódio”. Sua história poderia ser confundida com a de Wladyslaw Szpilman, o pianista judeu polonês que sobreviveu ao gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial e cuja biografia inspirou o cineasta Roman Polanski a produzir o filme O Pianista, em 2002. Ahmad viu o filme, mas não poderia imaginar que faria a mesma vida de Szpilman. Ainda que sonhando ele mantém os pés no chão porque sabe que a guerra e sua carga de morte (falta de alimentos, remédios e bens primários), em Damasco, não dão trégua.

A história de resistência da Ahmad chegou à Bienal de Artes de Veneza deste ano. A mostra “The Bridges of Graffiti”, um dos eventos colaterais da 56° edição, juntou dez nomes da arte de rua. Eron, um dos artistas, dedicou sua intervenção ao pianista de Yarmouk. Em um grande muro são projetadas imagens de Ahmad tocando seu piano que são sobrepostas à escrita “The World’s Future”.

Assista a outro vídeo do pianista palestino Ahmad:

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