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Criada por francesa, escola de moda no Vidigal, no RJ, estimula criatividade de jovens de favelas

Nadine Gonzalez, que mora no Rio de Janeiro há dez anos, montou, junto com a designer brasileira Andrea Fasanello, a Casa Geração Vidigal, 1ª escola de moda gratuita da cidade voltada para jovens de comunidades

“Bom dia! Sejam bem-vindos à Casa Geração!” É com um grande sorriso que a francesa Nadine Gonzalez acolha o visitante na porta de uma antiga oficina mecânica, no Vidigal, uma favela da Zona Sul carioca. É aqui que a ex-jornalista de moda, que mora no Rio de Janeiro há dez anos, decidiu montar, junto com a designer brasileira Andrea Fasanello, a Casa Geração Vidigal, primeira escola de moda gratuita da cidade, voltada para jovens de comunidades.

Fotos: Lamia Oualalou/Opera Mundi

Nadine Gonzalez é uma das fundadoras da Casa Geração, que ensina moda a jovens de comunidades carentes

Na entrada, uma blusa estampada já revela o orgulho da dupla em relação à favela que escolheram como sede. Os nomes das cidades tradicionalmente celebradas nas camisetas turísticas são barrados. No lugar de Paris, Londres, Nova York, aparece “I Love Vidigal”. “O Vidigal está na moda, e a moda está no Vidigal”, brinca Nadine. “Eu acho o bairro mais contemporâneo do Rio de Janeiro, graças a todas essas interações entre artistas, gringos, cariocas de toda a cidade e os próprios moradores”, segue a jovem de cabelo castanho.

Nadine Gonzalez e Andrea Fasanello já tinham criado, anos atrás, a associação ModaFusion, e uma marca do mesmo nome, que empregava grupos de mulheres normalmente excluídas do mercado da moda: prostitutas, presidiárias, comunidades de costureiras em favelas. “Com isso, percebemos a criatividade imensa e totalmente ignorada destas zonas”, diz Nadine. Depois de ter trabalhado com grupos de jovens durante a “Rio +20”, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável sediada na capital fluminense em junho de 2012, a dupla decidiu investir na educação.

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Lançada em 2013, a Casa Geração Vidigal busca identificar, capacitar e inserir no mercado da moda os talentos cariocas. O curso, para 20 alunos, tem duração de um ano. Os 10 melhores produzem suas coleções e organizam um desfile no encerramento do ano letivo.

“A gente não queria ser um gueto. A Casa é aberta a todos os jovens, não somente das favelas, inclusive, nosso objetivo era fazer pagar os alunos da classe média, que vêm de bairros como Leblon, para atender gratuitamente os que não têm recursos”, esclarece Nadine. A aposta, no entanto, não deu certo. O curso funciona com um processo de seleção em duas etapas, com inscrição e entrevista. Durante a primeira parte, as candidaturas são anônimas. “Faço questão de não olhar o endereço deles, mas apesar disso, acabei selecionando apenas estudantes vindos de favelas, eles são muito mais criativos”, suspira Nadine.


Na entrada, blusa estampada deixa claro: I love Vidigal (Eu amo o Vidigal)

Problema financeiro

Uma realidade que cria um problema financeiro. Cada aluno custa mais ou menos R$ 20 mil por ano. A Casa tomou emprestada maquinas de costurar e recebe doações de tecidos e de material. Mas a parte maior do financiamento vem de fundações francesas. Por enquanto, Nadine e Andrea, que têm que pagar vários professores, não conseguiram ter um salário próprio. Elas estão pensando montar um sistema com “padrinhos” no Brasil e fora, que poderão seguir o trabalho dos afilhados à distância, através de blogs, por exemplo.

Outro tipo de divulgação acontece através um bazar organizado um domingo por mês e durante o qual as peças criadas na escola são vendidas. Depois da formatura, os alunos são inseridos no mercado através da L´Agence, um social business que os ajuda a montar a própria marca ou entrar numa empresa do setor. Duas turmas já saíram da escola, todas com emprego.

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“Inicialmente, as empresas não se interessavam neste público, mas elas estão percebendo que formamos pessoas diferentes, com uma capacidade de pensar o mundo e a moda diferente dos estudantes da classe média”, assegura James Cesari, um dos professores. Um dos objetivos dele é conscientizar os alunos a usar a sustentabilidade transformando roupas e dando nova vida a materiais antigos. “Eu começo desconstruindo os conceitos, eles têm uma bagagem poluída da moda, moldada pelas marcas fast-fashion”, afirma o estilista. Cesari se refere à Zara, H&M e outras marcas deste tipo, que conseguiram emplacar no mundo inteiro com peças baratas e uniformizadas. “É um sistema de cópia e de escravidão no qual algumas pessoas não ganham nada enquanto os clientes pagam pouco, é nojento”, resume.


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Segundo ele, o esquema está acabando pouco a pouco, com a crise econômica mundial. “Na verdade, se você para de produzir hoje roupa no mundo, todo mundo vai ficar bem, não precisa de mais, já tem roupa feita para muita gente para muito tempo, este mercado de consumo e coleção é falso”, diz Cesari. Ele acredita na reutilização do que chama de “material estagnado”, que são as roupas e os tecidos abandonados.

O professor acredita que as pessoas crescidas num bairro pobre têm mais facilidade para aderir a esta filosofia. “O aluno já tem uma vida de carências, matérias, financeiras e até afetivas; o descarte na vida dele é mínimo, sempre existe uma reutilização. Quando você aplica isso na moda, com aulas, a criatividade começa a abrir o olhar dele” acrescenta Cesari.


Para o professor James Cesari (esq.), reutilização de materiais abre o olhar dos alunos na escola de moda

Foi o que aconteceu com Rafael Joaquim, que aproveitou a formação em 2014 para profissionalizar a Trappo, a marca que ele tinha criado dois anos atrás. Vestindo uma camisa que ele mesmo desenhou, o jovem diz qu ela foi feita com uma saia que ele garimpou num brechó. “Além de dar uma nova vida a esta roupa que tem uma historia, o cliente que compra algo da Trappo leva uma peça única”, comemora Rafael, que já consegue se sustentar com a marca própria.

Workshops e aulas

A carga horária é pesada na Casa Geração, com workshops duas vezes por semana e aulas de estilo e criação, modelagem, desenho, corte, costura, produção, figurino, antropologia de consumo, Photoshop, marketing e empreendedorismo. “Além do conhecimento técnico e conceitual, conversamos muito sobre os preconceitos, sobre o fato de ser pobre, negro, morador de favela, homossexual, a gente quer que eles aprendam a usar isso com inteligência nos trabalhos deles” aponta James Cesari.

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O criador da Trappo concorda. “Eu tento colocar elementos de funk, de periferia, até sobre tráfico de droga, mas com um olhar mais refinado, eu uso modelos da favela, que não são profissionais”, explica Rafael Joaquim. Deste jeito, o jovem quer melhorar a imagem da favela no asfalto. Mas ele também tem como objetivo fazer aceitar nos bairros pobres as características do “mundo louco da moda”. “Eu chego assim com minhas pulseiras, meu cabelo, como um gay todo espalhafatoso... É uma troca muito grande”, acrescenta rindo.


Mariane Jefferson: “Até desenhando, a gente percebe que as representações dos negros na moda são muito básicas"

Mariane Jefferson, que acabou de transformar um pedaço de tecido bege em casaco, garante assumir muito melhor a sua identidade negra, e a beleza negra, desde que ela entrou na escola. “Até desenhando, a gente percebe que as representações dos negros na moda são muito básicas, é só pegar as cores disponíveis, aparecem sempre como marrom, como se não houvesse muito mais nuances”, relata a estudante, dona de um black power loiro.

Três anos após a criação, a Casa Geração continua um verdadeiro laboratório que batalha para demonstrar ao mercado que a criatividade é muito grande nas favelas. “Também temos que lidar com estudantes que têm uma educação formal com lacunas importantes, isso implica um grande esforço de adaptação de parte dos professores”, diz Nadine Gonzáles.

Ela conta das dificuldades de muitos alunos para se concentrar, para escrever e contar direito, e para respeitar os horários e a disciplina. “Tudo bem que sou francesa, com um senso de hierarquia mais marcado, mas tenho que explicar sempre que o fato que a escola seja gratuita não significa que podem não assistir as aulas quando não querem acordar”, explica. Ela acabou de dispensar meia dúzia de discípulos. “O Brasil é muito injusto e desigual, mas existe também um espírito assistencialista, e não é nossa lógica. Somos um projeto social, é verdade, mas somos antes de tudo uma escola de moda”, conclui a diretora. 

Divulgação

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