Perfis

Jovem funda escola gratuita na Índia e transforma uma das regiões mais pobres do país

Babar Alí, considerado o 'diretor mais jovem do mundo', começou ensinando as irmãs aos 9 anos – e hoje tem 300 alunos em escola mantida por doações

Filho mais velho de um granjeiro que vende juta, Babar Alí era o único na vizinhança que ia à escola. Seu pai, chamado Mohamed Nasiruddin, sempre pensou que a “religião mais pura do homem é a educação”. Em Beldanga, um dos distritos mais pobres da Índia (ainda que com uma taxa de alfabetização maior que a média nacional), predominantemente muçulmano, Babar Alí era um privilegiado de 9 anos.

Ele começou a compartilhar o que aprendia em sala com as meninas em sua casa (sua irmã e algumas vizinhas), que se sentavam pacientes para ouvir os ensinamentos. “Hoje, todas se formaram na universidade”, diz, orgulhoso, a Opera Mundi, em uma noite em Calcutá, “e trabalham como professoras voluntárias na escola”. De fato, enquanto Babar Ali viajava aos Estados Unidos, sua irmã Amina, de 19 anos, se responsabilizava por tudo.

Arquivo pessoal
Babar Alí, durante palestra no TED
Babar Alí, em palestra do evento TED

Pouco a pouco apareceram mais alunos. E se formou uma sala de aula. Sua professora na escola, ao saber o que estava acontecendo, lhe dava caixas de giz de presente. Seu pai o incentivou sempre e começaram em casa a fazer lanches para as crianças que assistiam.

Sua vida começou a ter um único sentido: correr depois das aulas para casa, almoçar e fazer sua tarefa para preparar depois sua aula, na qual repetiria tudo o que havia aprendido. “O que eu iria ensinar aos meus alunos?”, explicou, em uma entrevista anos atrás.

Hoje, aos 22 anos, tem uma escola, que funciona em pátios e sob tetos de telhas e palha. Babar e dez voluntários ensinam o que podem, todas as tardes, a centenas de crianças, adolescentes e jovens mães para que tenham melhores oportunidade de vida.

Leia também: Pais são flagrados escalando muro de escola para ajudar filhos a 'colar' em provas na Índia

A Ananda Siksha Niketan (ou “Casa do Aprendizado Alegre”) não passou despercebida, nem tampouco sua idade e seu empenho. Com o tempo, chegaram jornalistas e câmeras até sua casa. No estado sulista de Karnataka, impressionados pela história de Babar, a incluíram em seus livros de textos escolares.

Herói e estrela

Babar Alí relembra prêmios e entrevistas. Sabe de memória anos e personagens. Como o prêmio que lhe entregou o ministro-em-chefe da Bengala Ocidental em 2008; “Buddahadeb  Bhattacharya em pessoa”, lembra-se, “o do Partido Comunista”. Mas sempre volta ao momento-chave de sua vida pública.

Em 2009, a cadeia de televisão CNN-IBN o reconheceu como “herói de verdade”, dando a Babar uma quantia em dinheiro que o jovem usou para comprar um terreno em seu povoado: ali, até hoje, estão sendo construídas as bases de um edifício que será, no próximo ano, a sede de sua escola. A publicidade pelo prêmio também atraiu outros jornalistas.

Em uma tarde de setembro de 2009, o jornalista da BBC Damian Grammaticas chegou à escola de Babar. Seu vídeo de cinco minutos e a reportagem que o acompanha foram um ponto de inflexão: foi Grammaticas quem o batizou de “o diretor de escola mais jovem do mundo”, aos 16 anos e, além disso, quem atraiu a atenção de intelectuais, celebridades e ONGs de todas as partes do mundo. “Foi importante, muitas coisas mudaram”, lembra-se.

Arundhati Roy: 'tragédia indiana é que sistema de castas tornou a injustiça algo sagrado'

Alunos são orientados a levar água de casa e 'segurar xixi' em escolas afetadas pela crise de abastecimento em SP

Milhões de pessoas na Índia entram em greve contra reformas trabalhistas

 

Assim, ele se transformou em conferencista do TED e até a rainha da Inglaterra aprendeu seu nome. Sempre com sua vida atada à escola, Babar começou a organizar mais e mais aulas e a receber dinheiro e livros. Cerca de 300 alunos começaram a aparecer em sua casa, a partir das seis da tarde, quando as meninas deixam de limpar casas, os meninos não trabalham e suas mães têm algumas horas livres, algumas convencidas por Babar a estudar pelo menos para saberem ler e escrever.

Tudo é grátis, inclusive a refeição. A instituição tem agora um comitê diretivo que administra bens e projetos. Nesse distrito, na fronteira com Bangladesh, com uma população muito pobre e majoritariamente muçulmana, essa refeição se transforma em um atrativo para as crianças. Babar está sempre ali, com sua equipe, trabalhando.

Arquivo pessoal

O ator de Bollywood Amir Khan (esq.) e Babar Alí

A fé em seu projeto é imensa, me diz. Não é religioso. “Minha religião era muçulmana. Mas hoje me guio pelos ensinamentos do [monge hindu]  Swami Vivekananda... a verdadeira religião é a humanidade”, concluiu convencido, sereno. “Deram um tiro aqui na Malala (aponta seu corpo). Em mim, Vivekananda deu tiros na mente.”

Sem sonhar muito acordado

Enquanto a conversa gira em torno da escola, Babar Alí me mostra documentos e livros, fotos de seus anos passados, certificados de estudos. O jovem educador continua aprendendo: agora cursa uma especialização em inglês. “Eu queria estudar história mas meu pai preferiu inglês: é um idioma importante, servirá para os trabalhos na escola”, explica, enquanto seu pai concorda vagarosamente. Mas seus estudos não vão totalmente bem, muitas vezes por falta de tempo, e sua saúde se deteriorou.

Como imagina que serão as coisas daqui uma década? Quer envelhecer fazendo o mesmo? “Já me sinto velho agora mesmo”. E acaba de completar 22 anos. Babar mostra um último documento: uma receita médica na qual, há alguns dias, lhe receitaram alguns analgésicos e medicamentos para combater os efeitos do estresse. Sofre de dores em um braço, insônia, coisas das quais um homem da sua idade não deveria padecer.

Leia também: Índia: Fraudes em provas de medicina e mortes de envolvidos nos casos paralisam parlamento

Em parte, as responsabilidades o oprimem. Babar também explica que nem todo mundo está contente com suas obras, em particular em seu distrito: quase não deixa seu escritório e sua casa, não usa transporte público e, em geral, não tem vida social fora da escola. “É quando viajo que posso conversar ou saber das coisas enquanto dou entrevistas”, confessa.

De toda forma, Babar Alí arrisca um sonho: ter uma pequena universidade gratuita na qual todas as classes possam ingressar. “Nunca fico entediado, nunca vou renunciar a isso”, explica enfático, enquanto reacomoda seus papéis e sua bagagem. Quer seguir sua missão, compartilhando o que aprendeu com aqueles que não podem ir à outra escola.

PUBLICIDADE

Outras Notícias

PUBLICIDADE
X

Assine e receba as últimas notícias

Destaques

Publicidade

História Agrária da Revolução Cubana

História Agrária da Revolução Cubana
Este livro é um estudo sobre a saga da reforma agrária numa sociedade de origem colonial presa ao círculo vicioso do subdesenvolvimento. Fundamentado em farta documentação e entrevistas com técnicos e lideranças que participaram diretamente do processo histórico cubano, o trabalho reconstitui as barreiras encontradas pela revolução liderada por Fidel Castro para superar as estruturas materiais de uma economia de tipo colonial.
Leia Mais

O melhor da imprensa independente

PUBLICIDADE

A revista virtual
desnorteada

Mais Lidas

Últimas notícias