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Martín Almada encontrou 'Arquivo do Terror' da ditadura de Stroessner no Paraguai; conheça história

Preso e torturado de 1974 a 1977, e sofrendo com o assassinato de sua esposa, Almada passou a registrar na memória os nomes de torturadores e vítimas que conhecera durante esse período

A descoberta, por Martín Almada, do "Arquivo do Terror”, em 22 de dezembro de 1992, contendo quatro toneladas de documentos da Polícia Política da ditadura de Alfredo Stroessner no Paraguai (1954-1989), revelou o maior acervo documental já descoberto sobre a Operação Condor. Seu valor histórico e jurídico foi reiterado como instrumento indispensável para a Justiça argentina condenar agentes militares penalmente no último 27 de maio.

Leia também: 'Condor ainda voa', diz responsável por revelar 'Arquivos do Terror' da ditadura paraguaia

Preso e torturado de 1974 a 1977, e sofrendo com o assassinato de sua esposa, Almada passou a registrar na memória os nomes de torturadores e vítimas que conhecera durante esse período. Seu livro de memórias carcerárias “Paraguay: La Cárcel Olvidada, El País Exilado...” foi a primeira publicação no exterior que incluiu o nome das crianças presas pela ditadura Stroessner.

Veja, nos três vídeos da playlist a seguir, a entrevista de Almada a Opera Mundi:

Encarcerado, Almada recebeu uma dica do delegado Mario Mancuello, preso na mesma cela, para que consultasse a Revista Policial do Paraguai a fim de entender o complexo emaranhado da Condor. No campo de concentração de Emboscada, recebeu ajuda de Gladys de Sannemann, também aprisionada, para dimensionar a extensão da operação.

Depois de uma greve de fome de 30 dias em que quase morreu, Almada conseguiu se asilar na Embaixada do Panamá, em Assunção, na noite de ano novo de 1977. Ajudado pela Anistia Internacional e pelo Conselho de Igrejas, após breve passagem pelo Panamá foi contratado pela Unesco, na França, como consultor em educação para América Latina e África. Durante seu período na Europa, Almada estudou a Revista Policial do Paraguai, contando com a ajuda do sacerdote jesuíta Charles Antoine e do jornalista Pierre Abramovich.

 

Com a queda de Stroessner por um golpe militar em 1989, Almada regressou ao Paraguai (em 1990) acompanhado de sua segunda esposa, María Stella Cáceres, coautora de “60 años de impunidad. Paraguay: Los crímenes del stronismo en el ámbito de la Justicia Universal”. Em Assunção, constituíram a Fundação Celestina Pérez de Almada (FCPA), desenvolvendo uma unidade de pesquisa que, enfim, localizaria o Arquivo do Terror a quatro quilómetros da capital, no Departamento de Produções da Polícia de Lambaré.

Veja o momento do descobrimento dos arquivos:

Depois de ter sido negada a existência de seus registros de prisão pelas autoridades policiais e militares, Almada recorreu à nova figura constitucional do habeas data, exigindo informações sobre aqueles que lhe torturaram e levaram à morte sua primeira esposa. O recurso foi aceito pelo juiz José Agustín Fernández. O advogado e o juiz, ao lado de um batalhão de jornalistas nacionais e estrangeiros, enfim encontraram o que a imprensa logo chamou de “Arquivos do Terror”.

Reprodução/Right Livelihood Award

Autoridades militares negaram que documentos como este (a ficha de Almada) existiam; o advogado conseguiu revelá-los

O Arquivo do Terror foi o principal documento utilizado para o Informe Final da Comissão de Verdade e Justiça do Paraguai (2004-2008) e serviu para possibilitar a criação do Museu Memória e Verdade sobre o Stronismo (MEVES), que funciona na antiga sede da Diretoria Nacional de Assuntos Técnicos, a temida “Técnica”, delegacia de torturas da ditadura Stroessner dirigida por Antonio Campos Alum, sob orientação do coronel dos Estados Unidos Robert Thierry. O relatório aponta que 19.862 pessoas foram presas de forma arbitrária ou ilegal; 18.772, torturadas; 59, executadas extrajudicialmente (assassinadas); 336, desaparecidas; e 3.470, exiladas.

Almada moveu a principal ação penal contra o ditador Stroessner, que acabou fugindo para o Brasil. Com ajuda da Justiça e militares brasileiros, o ditador morreu impunemente em Brasília, em 2004, foragido da Justiça paraguaia.

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