Fugindo da crise, portugueses redescobrem o Brasil da 6ª maior economia mundial

Mão-de-obra qualificada atravessa o Atlântico em busca de oportunidades, com as do Pré-Sal

Já foi a época em que a imigração portuguesa no Brasil era caracterizada por pequenos comerciantes, donos de padarias e sapateiros. E também já foi a época em que eram os brasileiros que escolhiam Portugal como um porto seguro em busca de oportunidades. No início dos anos 2000, os brasileiros chegaram a ser a maior comunidade de estrangeiros no país.

Hoje, o momento de destaque do Brasil como liderança regional, próximo de alcançar o patamar de quinta maior economia do mundo e apresentando boa recuperação frente à crise internacional têm sido motivos suficientes para que muitos portugueses qualificados decidam deixar a terrinha e aportar no Brasil.

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No século passado, o auge da imigração portuguesa no Brasil ocorreu nas décadas de 1950 e 1960, quando 20% da população no Rio de Janeiro era composta por portugueses. Naquela época, chegaram a viver no Brasil 1,2 milhões de portugueses, especialmente oriundos do interior de Portugal, trabalhadores da lavoura com baixo poder de compra e elevado analfabetismo.

Hoje o cenário mudou. O advogado José Castro Solla [foto ao lado], de 44 anos, desembarcou com sua família no Brasil em janeiro de 2010 para cumprir o projeto de internacionalização de uma firma portuguesa especializada no setor de petróleo e gás.

Pré-sal atrai estrangeiros

“Elegemos o Brasil pelas novas perspectivas de negócio e a opção pelo Rio de Janeiro é porque é a capital desse mercado de petróleo e gás. As grandes companhias e operadoras internacionais tem a sua sede no Rio e, em volta dessas operadoras, existe uma miríade de empresas prestadoras de serviços que vem para ficar próximas de seus clientes”, contou Solla ao Opera Mundi.

Casado e com três filhos adolescentes – a quarta filha nasceu e é carioca –, Solla aceitou o desafio de deixar Lisboa e começar uma vida profissional no Rio de Janeiro, cidade onde permaneceria por três anos de contrato de trabalho. O advogado português veio antes da família para fazer o primeiro contato com a cidade e tratar das primeiras burocracias de visto e da inscrição na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

Solla admite que, apesar de o Brasil ser um país acolhedor para imigrantes, ainda há dificuldades para os estrangeiros quando se mudam para cá, muitas das quais ligadas a questões burocráticas para a retirada do visto.

Foram quase cinco meses à espera do visto de trabalho. O lisboeta esperou de novembro de 2009 até março do ano seguinte, quando obteve a autorização de permanência no Brasil, mas teria que se ausentar do país para ir a um consulado brasileiro no exterior.

“Fui à Argentina buscar o meu visto e regressei em abril de 2010 pronto para trabalhar. Tudo seria mais simples se não tivesse que sair, é um pouco artificial porque eu já aqui estava”, criticou.

Outra dificuldade que Solla viveu e que muitos estrangeiros enfrentam: a retenção da mudança na alfândega da Receita Federal que só é liberada pelas autoridades após a emissão do visto de trabalho. “Isso nos obrigou a um esforço suplementar, tivemos que viver praticamente acampados no apartamento esperando a mobília que veio de navio e ficou retida de janeiro até abril de 2010. Seria mais cômodo para um estrangeiro na medida em que for possível diminuir esses prazos”.

Apesar de a crise econômica em Portugal não ter motivado diretamente a sua saída, Solla admite que mudou-se num momento mais delicado e de instabilidade que vive o país.

“É muito doloroso saber que o seu país está a passar por essas dificuldades que são muito graves do ponto de vista financeiro e do equilíbrio das contas públicas. Temos tido uma vida política e econômica estável há mais de 30 anos. Sei que as pessoas estão tendo dificuldades”, contou ao destacar que há bastante mão-de-obra qualificada a procura de alternativas. Angola tem sido um destino crescente de portugueses qualificados nos últimos anos, mas agora o Brasil também desponta como preferência.

As expectativas não são nada otimistas em Portugal com o aumento da taxa de desemprego que bateu recordes históricos e atingiu 13,2% , segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico). “Estamos a passar um momento difícil”.

O advogado português não hesita ao afirmar que gostaria de permanecer no Brasil mais alguns anos. “Se pudesse ficar e aproveitar esse momento tão especial no Brasil. Estamos muito adaptados, Portugal nesse momento não é um mercado de trabalho tão atraente. Meus filhos me perguntam se ficaríamos até a Copa”, disse Solla.

Pólo cinematográfico

O documentarista português Carlos Eduardo Leitão da Silva, de 30 anos, conhecido como Calika, teve que deixar Portugal para realizar o seu maior sonho: fazer cinema. Professor da Rio Film School e no Cinema Nosso no Rio de Janeiro, que ensina cinema para estudantes brasileiros e estrangeiros que fazem intercâmbio, Calika conta que vê no Brasil a oportunidade de desenvolver seus projetos na área do audiovisual.

Divulgação

“Cheguei ao Brasil por acaso e neste momento não me imagino a viver em outro país do mundo. Inicialmente não fazia parte dos meus planos. Um estágio internacional em Salamanca foi substituído por um estágio no Rio de Janeiro”, disse ao Opera Mundi.

No tempo que está no Rio de Janeiro, desde 2010, Calika já trabalhou na produção de filmes, videoclipes e documentários, e diz ter conhecido “gente de todo o mundo” na cidade carioca.

Para o cineasta português, no Brasil existe um “clima favorável” à criação artística. “Os tempos são de mudança, e neste caso para melhor. Os incentivos no Brasil ao audiovisual e à cultura em geral  não se comparam ao apoio existente em Portugal que, neste momento de crise econômica europeia, não vive os melhores dias”, argumentou.

Calika já está abrindo uma produtora com dois sócios brasileiros, a Rec n’ Roll, e vislumbra bons projetos.

“Neste momento pretendo investir aqui, abrir a minha empresa, estou já a tratar da parte burocrática que não tem sido fácil. Pretendo perseguir o meu sonho no Brasil, identifico-me com a cultura e alegria natural dos brasileiros, sinto-me em casa, realizado profissional e emocionalmente. É por isso que quero construir a minha vida aqui, por acaso apaixonei-me”, relatou.

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