Chuva de balas na selva: operação antidrogas dos EUA em Honduras termina em matança

Seus nomes eram Emerson, Hasked, Juana e Candelaria. Todos consequências diretas da "guerra contra as drogas"

Na madrugada do dia 11 de maio, um pequeno bote com 16 pessoas a bordo navegava em silêncio sobre as águas do rio Patuca, na Mosquitia, região noroeste de Honduras. O proprietário Melaño Olopio Dixon havia saído um dia antes para deixar alguns mergulhadores em Barra Patuca. Várias pessoas haviam aproveitado a viagem de volta para retornar às suas comunidades.

Uma viagem longa e cansativa de mais de sete horas para chegar à comunidade de Paptalaya, no município de Ahuas, departamento (estado) de Gracias a Dios. Eram duas da manhã e quase todos os passageiros dormiam. Quando faltava menos de um quilômetro para chegar ao destino, os passageiros acordaram com o ruído de quatro helicópteros militares norte-americanos que sobrevoavam a zona.

De repente, o inferno. Uma chuva de balas de grosso calibre surpreendeu o pequeno bote e seus ocupantes. “Estávamos chegando ao píer quando apareceram os helicópteros, que começaram a disparar. Junto com meu filho, Hasked, me joguei na água e nadei até a margem, só que chorando, porque não conseguia mais vê-lo. Encontramos seu corpo dois dias depois. As feridas de bala destroçaram seu rosto. Tinha apenas 14 anos", conta Clara Wood Rivas, sobrevivente que não consegue conter as lágrimas.

Giorgio Trucchi/Opera Mundi

A mãe de Hasked, de 14 anos, lembra os momentos de desespero no rio Patuca: "As feridas de bala destroçaram seu rosto"

De acordo com o Informe de Investigação “Caso Ahuas” apresentado recentemente pelo COFADEH (Comitê de Familiares de Detentos Desaparecidos em Honduras), a maioria dos passageiros se lançou na água e mergulhou para se salvar. “Alguns conseguiram chegar ao leito do rio, outros foram alcançados pelas balas, que ou causaram graves ferimentos ou tiraram vidas”, detalha o relatório.

A operação conjunta de agentes do FAST (Equipe de Apoio Consultivo no Exterior), da DEA (agência antidrogas norte-americana) e da Equipe de Resposta Tática da Polícia Nacional de Honduras deixou um saldo de quatro mortos – Emerson Martínez Henríquez (21 anos), Hasked Brooks Wood (14 anos), Juana Jackson Ambrocio (28 anos) e Candelaria Pratt Nelson (48 anos). Foram pelo menos cinco os gravemente feridos. Juana e Candelaria estavam no quinto mês de gravidez.

“Em Mosquitia, estamos vivendo um pesadelo. O território está militarizado e sofremos com o abuso constante de agentes norte-americanos e hondurenhos. Eles apreendem produtos domésticos, acusam-nos de narcotráfico e, agora, nos atacam e assassinam”, revelou ao Opera Mundi Ethlen Erlinda Wood, familiar do jovem Hasked e coordenadora da organização Ecos de Mosquitia.

Giorgio Trucchi/Opera Mundi

“Sofremos com o abuso constante de agentes norte-americanos e hondurenhos", denuncia Ethlen, parente de Hasked

Militarização e narcotráfico

Durante as últimas três décadas, a região hondurenha foi cenário de operações militares conjuntas dos EUA e de Honduras para reprimir o processo revolucionário nicaraguense e a luta guerrilheira de El Salvador e da Guatemala. Isso levou à presença de milhares de efetivos militares norte-americanos e dezenas de grupos de operações de contrainsurgência nas diferentes bases militares que existiam no país.

No centro do departamento de Gracias a Dios foi instalado o 5º Batalhão de Infantaria, cuja missão foi a de apoiar logisticamente o exército ilegal da “contra” nicaraguense e resguardar as armas e munições para continuar operando na região. Agora, 20 anos depois do fim do conflito armado, a população está revivendo a insegurança e o temor daqueles anos. A presença de tropas norte-americanas e de grupos militares em seu território ancestral se tornou um pesadelo.

Nos últimos anos, sob o argumento da luta frontal contra o narcotráfico, o governo norte-americano voltou a investir milhões de dólares na instalação de equipamentos em novas bases militares, como é o caso das bases navais de Isla Guanaja e Caratasca, no departamento Gracias a Dios, que se somam à histórica base de Soto Cano.

Além disso, a embaixada dos EUA em Honduras, o governo local, o INL (Departamento de Assuntos Internacionais de Narcóticos e de Aplicação da Lei), o DEA e o Comando Sul arquitetaram um plano para empregar temporariamente helicópteros norte-americanos em território hondurenho para apoiar as missões antinarcóticos.

O helicóptero modelo Huey-II foi deslocado para a base aérea de Ceiba para auxiliar na movimentação constantemente entre as três bases de operação avançada - Puerto Castilla, El Aguacate e Mocorón –, que recebem apoio logístico da JTFC-B (Força-Tarefa Conjunta Bravo). Os helicópteros são pilotados por empreiteiros norte-americanos e pilotos do exército guatemalteco e são utilizados para o transporte dos 42 membros da equipe do DEA até as regiões de pouso de voos clandestinos de drogas na porção oriental do país.

Dessa forma, Honduras se converteu no país que mais abriga bases militares norte-americanas em toda a região. Uma escalada armamentista que viveu seu maior impulso depois do golpe de Estado que destituiu o presidente Manuel Zelaya em 2009, no marco de um plano regional de segurança estabelecido entre os presidentes da América Central e do governo norte-americano.

Nenhuma responsabilidade

O porta-voz da DEA em Washington, Dawn Dearden, reconheceu que agentes do FAST estavam trabalhando a bordo dos helicópteros para apoiar a polícia hondurenha. Ele alega, contudo, que não foram eles que dispararam. Além disso, a embaixadora norte-americana em Honduras, Lisa Kubiske, assegurou a jornalistas do país que os efetivos que protagonizaram a operação antidrogas atuaram de maneira correta e em defesa própria, supostamente para responder a disparos que partiam do pequeno bote.

Uma primeira reconstrução dos fatos apresentada pelo prefeito de Ahuas, Lucio Baquedano, aponta que os agentes hondurenhos e norte-americanos dispararam de forma indiscriminada, partindo do pressuposto de que a embarcação estava transportando drogas descarregadas de um avião que havia pousado algumas horas antes.

Para os familiares das vítimas, nada pode justificar o que ocorreu. “Caiu sobre nós uma chuva de balas e não consigo entender como é que ainda estou viva. Sou uma sobrevivente e exijo justiça para meu filho e para todas as outras pessoas que ou perderam suas vidas ou ficaram gravemente feridas”, acrescentou Clara Wood Rivas.

Também para Adelina Trapp, prima de Candelaria Pratt Nelson, é muito doloroso recordar esses momentos. “Minha prima era mãe solteira de três meninas. Estava indo para Ahuas para uma consulta médica porque estava grávida de cinco meses. O ataque foi brutal. Encontramos seu corpo dois dias depois com um ferimento de bala nas costas. Nada foi feito para investigar esses acontecimentos e isso não pode ficar assim”, protesta em lágrimas.

Giorgio Trucchi/Opera Mundi

"O ataque foi brutal. Encontramos seu corpo dois dias depois com um ferimento de bala nas costas", lembra Adelina, que perdeu a prima

Marlen Zelaya perdeu sua irmã, Juana Jackson, uma mãe solteira de dois filhos que estava voltando para casa após visitar seu namorado. “Seu corpo flutuava sobre a água e tinha quatro feridas de bala. Ela tinha apenas 28 anos e estava grávida de cinco meses. Sou mãe solteira de quatro filhos e agora os dois pequenos também vão ficar comigo. O que queremos agora é justiça, porque este sangue inocente que foi derramado não pode ser esquecido”, disse ao Opera Mundi.

Testemunhas

Várias testemunhas asseguram que o terror que envolveu a pequena comunidade de Paptalaya não terminou com o ataque ao pequeno bote. Na realidade, ele se prolongou por várias horas, enquanto dezenas de agentes hondurenhos e norte-americanos se espalharam pela região em busca de supostos narcotraficantes e suas mercadorias.

“Quando saí das águas do rio, fui interceptada por agentes da polícia que me apontaram seus fuzis. Um deles me disse: ‘quer que eu te mate?‘. Respondi que não queria morrer e que já haviam matado meu filho. Depois vi meu sobrinho - Celin Erickson Curbelo - que estava estirado no chão, com a boca para baixo. Tinham espancado e algemado ele. Finalmente, consegui convencê-los a nos liberarem e levei ele para casa”, relembra Wood Rivas.

A nota do COFADEH indica que o senhor Dolly Wood foi ameaçado de morte por um agente norte-americano, de pele negra, que quase não falava castelhano. Obrigou-o a permanecer no chão, com a boca para baixo, enquanto apontava para a sua cabeça um fuzil. Outros agentes decidiram arrombar as portas do porão e roubar 36 galões de combustível.

Hilder e Elmina Olopio, filhos de Melaño Olopio Dixon e Hilda Rosa Lezama Kenreth, os dois proprietários do barco, asseguram que foram detidos por agentes norte-americanos enquanto tentavam chegar à embarcação. Eles teriam sido espancados e jogados no chão.

De acordo com o COFADEH, o fato de o impedirem de resgatar sua mãe, que estava com as duas pernas feridas por balas, constitui um grave obstáculo à diligência de resgate. Hilda Rosa permaneceu várias horas escondida na água, presa a um ramo com espinhos. Suas feridas se infeccionaram e agora está hospitalizada em estado grave.

Contrainsurgência

O relatório da organização hondurenha de direitos humanos coincide com muitas observações de uma delegação de acadêmicos e ativistas de direitos humanos dos Estados Unidos e do Canadá, a Rights Action, que foi à região de Ahuas e conversou com a imprensa.

A delegação disse estar preocupada não somente com o grau de militarização da Mosquitia, mas, também, com o fato “de o exército dos EUA e das forças de segurança civil de Honduras estarem aplicando táticas de contrainsurgência para combater o tráfico de drogas”.

Mediante a estigmatização da população e das autoridades locais como traficantes de drogas, “as comunidades indígenas tornaram-se o enfoque das ditas ações de contrainsurgência em uma zona onde há recursos naturais importantes, rios com potencial hidroelétrico, petróleo e bosques”, aponta o comunicado.

Com os trágicos acontecimentos de Ahuas, “toda a Mosquitia foi ferida e humilhada, foi colocada de joelhos e esmagada. Exigimos que se diga a verdade, porque o mundo deve saber o que está ocorrendo na nossa terra. As pessoas têm medo e desconfiança, e, desde já, recusamos totalmente a presença de militares norte-americanos na região”, sentenciou a coordenadora da Ecos da Mosquitia.

Denúncias

O pedido de justiça dos familiares foi retomado e validado pelo COFADEH. “Toda uma comunidade foi atacada em Ahuas e, por quase dez dias, não houve sequer uma só denúncia dos fatos. Queria que tudo pudesse ser esquecido”, disse Bertha Oliva, coordenadora nacional da organização.

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De acordo com ela, a investigação conduzida pelo COFADEH demonstrou que em nenhum momento houve troca de disparos, mas sim um ataque proveniente dos helicópteros. Além do mais, havia provas suficientes da presença de agentes norte-americanos.

Em seu informe preliminar, o COFADEH qualificou o ataque de “desproporcional, sem aviso prévio, sobre uma população desarmada que foi estigmatizada como narcotraficante ou colaboradora do tráfico de drogas” e negou a existência de “um enfrentamento armado que pudesse ser alegado como a causa do ataque”.

Além disso, a organização de direitos humanos manifestou que as vítimas foram abandonadas à sua própria sorte e que o ataque conjunto de forças militares e policiais de ambos os países “não ocorreu somente com helicópteros, mas também em terra firme”, submetendo a população civil a “detenções ilegais, ameaças de morte, invasões, saque de bens, tratos cruéis, desumanos e degradantes”. 

Finalmente, a organização lamentou o fato de nenhuma das duas forças armadas tentarem reparar a tragédia, “mas aflorou o velho hábito da mentira e da confusão para desviar a atenção sobre as vítimas”. Diante dessa situação, o COFADEH interpôs uma denuncia formal dos fatos no Ministério Público de Puerto Lempira e La Ceiba, bem como na Procuradoria Geral da República, na Secretaria de Etnias, e nos ministérios da Segurança e da Defesa. Uma cópia da denúncia foi entregue à Embaixada dos Estados Unidos em Honduras e ao representante do ACNUDH (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos) no país.

“Sempre vão dizer que não foram os responsáveis pelo ocorrido, logo ou tarde terão que assumir o custo do que fizeram e pedir desculpas aos familiares e ao povo de Ahuas. Devem se responsabilizar por suas ações e responder pelos danos causados a uma população civil indefesa”, concluiu Oliva.

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