Nas eleições colombianas, chapas femininas levantam debate sobre desigualdade de gênero

Mesmo com duas candidatas à presidência, Colômbia avança pouco na formulação de políticas para mulheres

“O debate eleitoral em torno de políticas para as mulheres não existe na Colômbia”. A afirmação feita pela politóloga colombiana Lina María Cabezas a Opera Mundi revela uma das faces da campanha presidencial em um país em que mais da metade dos eleitores é do sexo feminino. Pela primeira vez em sua história, duas candidatas disputam o máximo cargo no país e outras duas concorrem à vice-presidência.

Agência Efe

Se eleita, Clara Obregon (à esquerda)  formará seu gabinete com 50% de mulheres e diz se inspirar na chilena Michelle Bachelet

Mas, “as mulheres continuam tendo enormes obstáculos para construir carreiras políticas exitosas, pelo menos no plano eleitoral”, completa Lina. A Colômbia só aprovou o voto feminino em 1954 e foi o último país na América do Sul a adotar uma política de cotas no Executivo e Legislativo, em 2011.

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Embora representem quadros da esquerda e da direita, respectivamente, as candidaturas de Clara López, em quarto lugar, e Marta Lucía Ramírez, em quinto, não ultrapassam 10% das intenções de voto, segundo as últimas pesquisas divulgadas.

Candidaturas

Aída Avella disputa a vice-presidência na chapa do Polo Democrático encabeçada por Clara. Ambas participam ativamente da política colombiana desde a década de 1980, quando militaram na União Patriótica, nascida de um acordo entre as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) com o governo de Belisario Betancur (1982-1986). Na ocasião, mais de quatro mil militantes da UP foram mortos em ações realizadas pelo Estado e grupos paramilitares.

Campanha/ Reprodução

Marta Ramírez, se eleita, vai criar um Ministério para a Mulher e a Família, além de lutar pela equidade de salários

Marta Lucía Ramírez, candidata pelo Partido Conservador, também é uma política experiente. Foi vice-ministra de Comércio, embaixadora da Colômbia na França e a primeira e única Ministra de Defesa da história do país.

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Já Isabel Segovia concorre junto com Enrique Peñalosa da Aliança Verde, como vice. Apesar de ocupar o terceiro lugar nas pesquisas, a chance de os verdes chegarem ao segundo turno não é descartada, frente às recentes denúncias que abalaram a candidatura de Óscar Iván Zuluaga e do presidente Juan Manuel Santos, que concorre à reeleição.

Lina ressalta que a presença feminina no Congresso aumentou, passando de 19,8% em 2010 para 32,7% nas eleições parlamentares de 2014. Apesar disso, no Índice de Desenvolvimento de Gênero criado pela ONU, o país aparece atrás de Cuba — país com maior quantidade proporcional de mulheres na política —, Costa Rica, Argentina e Brasil. 

Violência de gênero

Na região com a maior quantidade de mulheres chefes de Estado do mundo, “a Colômbia ainda dá pouca importância ao voto das mulheres”, diz a doutora em Ciência Política. As postulações, no entanto, são um “claro avanço”. “A visibilidade de uma candidata a presidente e a vice-presidente tem um poder simbólico e prático que não pode ser ignorado”, ressalta Lina.

O avanço verificado no campo simbólico, no entanto, não se observa no debate em torno de políticas públicas para as mulheres. “Basicamente o debate não existe, nem em torno das mulheres, nem em torno de muitos outros temas”.

ONU Mulheres

Mulheres latino-americanas e caribenhas marcharam em Bogotá, em 2011, para reivindicar o da violência contra as mulheres

Na América Latina, embora tenha maior participação na força de trabalho, são as mulheres que apresentam os maiores índices de analfabetismo, a menor representação política e uma participação ainda incipiente na ciência e tecnologia. Também são as principais vítimas de violência doméstica e familiar. Segundo estimativas da OMS (Organização Mundial de Saúde), uma em cada quatro mulheres é vítima de abusos sexuais cometidos por seu parceiro ao longo da vida.

A Colômbia ostenta um dos maiores índices de violência de gênero da região, agravado pela existência do conflito armado que já dura mais de 50 anos. De acordo com a Unidade para a Atenção e Reparação Integral das Vítimas, quase três milhões de mulheres foram mortas no contexto da luta armado no país, o que equivale a 49,7% do total de vítimas. Além disso, até novembro de 2013, as mulheres representavam 84,9% das vítimas de violência sexual no marco do conflito armado.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, a cada 11 minutos uma mulher é agredida por seu companheiro ou ex-companheiro. A cada meia hora uma mulher é vítima de violência sexual. Somente em 2012, 138 mulheres foram assassinadas por motivação de gênero.

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