Um homem que não queria mais senhores

Seu nome é Sekou Odinga. Pegou em armas porque acreditava que os afro-americanos são escravos modernos e têm o direito à rebelião


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A prisão de Clinton, integrante da rede penitenciária do estado de Nova York, fica quase na fronteira com o Canadá. Foi construída no vilarejo de Dannemora, em 1845, para abrigar prisioneiros que trabalhavam nas minas locais.

Os muros brancos, cravejados com torres de vigilância, parecem furar a paisagem aprazível de casas simples e bem-cuidadas da vizinhança. Até hoje é o principal edifício da cidade, ladeado por um hospital de tijolos aparentes que pertence ao mesmo complexo prisional.


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Do lado de dentro, histórias tensas e dramáticas. Presídio de segurança máxima, exibe uma galeria de presos famosos. Lendários mafiosos ocuparam suas celas, como Charles “Lucky” Luciano, um dos chefes mais importantes do crime organizado.

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Mas também tornou-se o destino de rebeldes e revolucionários que se chocaram contra o poder.


Sekou Odinga: “Não me arrependo de nada, continuo acreditando nas mesmas ideias e nos mesmos sonhos”

Um deles é Nathaniel Burns. Aliás, Sekou Odinga, o nome africano que adotou em 1965, quando se encantou com os discursos de Malcom X e aderiu ao movimento de libertação dos negros norte-americanos.

Os guardas – todos brancos – o trazem para uma sala reservada. Ambiente tenso. Ordens são dadas em voz alta. Portas de metal estalam ruidosamente. O protocolo de prevenção é rigoroso e cumprido à risca.

Sekou Odinga tinha 70 anos quando recebeu a reportagem de Opera Mundi. Pai, avô e bisavô. Capturado em outubro de 1981, as organizações a que pertencia não existem mais. Os exageros com sua suposta periculosidade são quase cômicos: parecem uma coreografia fora de ritmo.

Passos lentos e cuidadosos, Odinga veste o uniforme verde-musgo das penitenciárias nova-iorquinas e cobre sua cabeça, grisalha como a barba, com um gorro islâmico de crochê preto.

English: A man who no longer wanted masters

Com voz pausada, conta um pouco da trajetória que o trouxe até os anos de calabouço.

“Comecei a participar do movimento negro quando sai do reformatório, em 1963, depois de passar quase três anos preso por pequenos roubos”, relata. “Havia um clima de muita mobilização na comunidade, as palavras de Malcom X tinham enorme repercussão na juventude.”

Origens e militância

Nascido no Queens, um dos cinco distritos de Nova York, Odinga conta que seu pai era dono de uma carvoaria e a mãe, dona de casa. Classe média baixa, ambos eram cristãos e acompanhavam com atenção a campanha por direitos civis liderada por Martin Luther King.

A radicalização da identidade negra, contudo, o levou para longe do cristianismo herdado dos colonizadores brancos e da oratória pacifista do principal líder antissegregacionista. Mudou de nome. Filiou-se à Organização da Unidade Afro-Americana, fundada por Malcom X.

“Éramos um grupo de amigos que decidiram se dedicar ao trabalho social”, relembra. “Queríamos expulsar os traficantes de droga da comunidade, construir escolas e postos de saúde, conquistar melhorias para a vizinhança."

Naqueles tempos, meados dos anos 60, estava contratado pelo programa contra a pobreza implementado pela Prefeitura de Nova York. Mas logo iria se frustrar com uma atividade que não transpunha os limites impostos pelo racismo.


Rappers M-1 e Divine gravaram música em apoio a Odinga, enquanto ele ainda estava preso, em 2014

Corria o ano mágico de 1968 e Bob Seale, uma das lideranças fundadoras dos Panteras Negras, foi visitar Nova York. Odinga e alguns amigos decidiram assistir suas conferências. Empolgados, pediram filiação à combativa organização criada na Califórnia.

Mudou-se para o Bronx e virou um importante organizador partidário. Ao lado de Lumumba Shakur, primeiro marido da mãe do mítico rapper Tupac Shakur, virou o dirigente de um dos mais representativos braços da agremiação, o capítulo de Harlem-Bronx.

“Nós combinávamos ação comunitária com formação política e preparação para resistir à brutalidade policial e racista”, conta. “Não éramos uma organização militar, apesar das armas e da disciplina. Mas acreditávamos que era direito e dever da população negra reagir contra a violência do Estado.”

Os Panteras Negras rapidamente atraíram milhares de militantes por todo o país e passaram a ser conhecidos no mundo todo. Não demorou para o FBI, a polícia federal dos Estados Unidos, se lançar na perseguição aquele grupo de jovens que fazia da rebelião um modo de vida e ameaçava a ordem.

Praticamente toda a liderança do partido em Nova York acabou presa durante onda repressiva desencadeada em 1969, em um processo que seria selado com a absolvição dos réus, depois de dois anos encarcerados.

Odinga escapou por pouco e entrou para a clandestinidade. Logo foi enviado à Argélia, para reforçar o trabalho internacional sob a responsabilidade de Eldridge Cleaver, outro dos chefes históricos.

Regressou aos Estados Unidos em 1973. Com documentos falsos, se escondendo de estado em estado. Trabalhando como comerciante de artesanato e joalheria africanos.

O cenário tinha mudado. Minguavam os movimentos contra a Guerra do Vietnã e pelos direitos civis. Muitos ativistas apodreciam na cadeia e outros tantos tiveram a vida ceifada. O medo e o desânimo batiam à porta.

Reprodução/Emory Douglas

Os Panteras Negras estavam esfacelados e divididos. Vários dos militantes, somados aos de outras organizações, resolveram integrar o Exército Negro de Libertação. A lição que haviam tirado sobre a ação repressiva os empurrava para constituir uma força militar mais preparada e secreta.

“Fui um combatente deste grupo até cair preso”, reconhece Odinga. “Durante oito anos participei de operações armadas que pudessem consolidar o movimento de libertação dos afro-americanos. Os povos submetidos ao colonialismo têm o direito de se rebelar contra seus senhores.”

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Detenção e julgamento

Sua caminhada foi interrompida em outubro de 1981, quando um comando do BLA (a sigla em inglês para Exército Negro de Libertação), apoiado por outros combatentes, roubou um carro-forte da Brink, empresa dedicada a transporte de valores. Três policiais tombaram mortos em tiroteio.

Odinga não participou da ação. As buscas por fugitivos e cúmplices, porém, tragaram-no para o meio da tempestade. Um dos foragidos, Mtayari Sundiata, procurou-o e pediu ajuda para escapar, mas a polícia já o tinha detectado.

O carro no qual estavam, no Queens, foi cercado, com o reforço de uma equipe do FBI. Sob fogo cerrado, tentaram fugir, atirando. Os policiais, em maior número e melhores veículos, os alcançaram. Seu companheiro tomou um balaço com o rosto colado no asfalto. Odinga sobreviveu, mas tinha sido capturado depois de doze anos.

“Durante seis horas fui brutalmente torturado, ao ser identificado”, afirma. “Queriam saber onde estavam Assata Shakur e Abdul Majid.”

Assata, nascida Joanne Deborah Byron, tinha sido dirigente do BLA e foi libertada da prisão por seus próprios companheiros, em 1979, asilando-se em Cuba. Os federais estavam convencidos que Odinga fora um dos que participaram da fuga espetacular.

O FBI classificou-a, em 2005, como “terrorista doméstica”, incluiu seu nome na lista dos dez mais procurados e ofereceu dois milhões de dólares para quem ajudasse a localizá-la. O estado de Nova Jersey, local dos crimes a ela atribuídos, aproveitando-se do reatamento diplomático entre Washington e Havana, voltou a pressionar por sua extradição.

Majid, nome de batismo Anthony Lacombe, foi apontado como um dos responsáveis diretos pela morte de policiais durante o assalto ao carro pagador. Aprisionado em 1982, cumpria sentença de prisão perpétua até sua morte, em 3 de abril de 2016.

Mikhail Frunze/Opera Mundi

Prisão de Clinton, onde Sekou Odinga ficou detido

O silêncio de Odinga, em resposta à tortura por informações, custou-lhe três meses no hospital, com a coluna vertebral avariada. Não demoraria para ser julgado, por crimes estaduais e nacionais.

A Justiça federal aplicou-lhe quarenta anos de pena, vinte pela fuga de Assata e outro tanto por participação em conspiração armada, no âmbito de uma lei criada para frear o crime organizado.

A Justiça de Nova York condenou-lhe à prisão perpétua, por tentativa de homicídio contra seis policiais que o perseguiam quando foi detido. Mas recebeu direito à liberdade condicional depois de 25 anos.

As décadas atrás das grades

Passou 28 anos em penitenciárias de segurança máxima da União.

Favorecido por um benefício vigente à época, concluiu essa pena depois de cumprir dois terços do tempo consignado. Transferido para a jurisdição nova-iorquina em 2009, começou sua punição estadual.

Transformou-se em muçulmano praticante.

“A religião me deu calma e concentração para suportar um tempo que não termina”, ressalta. “Ficou mais fácil atravessar os sofrimentos e as perdas.”

A maior de suas dores, confessa com a voz embargada, foi o falecimento de um de seus nove filhos, frutos de cinco casamentos. Yafeu Akiyele Fula, apelidado Yaki Kadafi, era um rapper famoso e morreu baleado em 1996, quando tinha 30 anos. O autor do disparo nunca foi descoberto.

“Durante seis horas fui brutalmente torturado, ao ser identificado”, diz OdingaOdinga também lembra alguns poucos, mas bons momentos. “A melhor coisa foi ter conhecido Dequi, minha atual mulher”, conta.

Dequi Kiori Sadiki, de 56 anos, nasceu Lorraine Woods. Quando se divorciou do primeiro marido, com dois filhos e mais de 30 anos, cursou uma faculdade comunitária no Brooklin, chamada Medgar Evers, onde teve contato com a atividade política pela primeira vez.

Juntou-se a um grupo que reivindicava a história dos Panteras Negras e passou a visitar presos políticos, além de organizar redes de apoio e arrecadação financeira para os honorários de defesa.

Professora no ensino secundário do sistema público, encantou-se pelo guerrilheiro.

“Apesar de tanto tempo em cativeiro, ele não se deixou brutalizar”, relata com os olhos quase às lágrimas. “É um homem gentil, bem-humorado, espirituoso. Acima de tudo, um sobrevivente.”

O presente e o futuro em liberdade

Talvez sobrevivência seja o maior orgulho de Sekou Odinga, pelas grades não terem sufocado suas crenças.

“Não me arrependo de nada, continuo acreditando nas mesmas ideias e nos mesmos sonhos”, declara. “Não pode haver justiça e democracia em um país no qual 1% das pessoas controlam mais de 70% das riquezas. Éramos muito jovens, cometemos diversos erros, mas faria tudo de novo, só que de outra forma. Não funcionou enfrentar de peito aberto o Estado.”

A entrevista acaba. Sekou Odinga se despede e caminha de volta à cela.

Tempos depois, a surpresa.

Uma decisão judicial resolve considerar sua pena em presídios federais como parte da condenação estadual e o torna apto à liberdade condicional.

A junta de avaliação, por bom comportamento e inexistência de homicídios em seu prontuário, decide pelo fim de um martírio que se arrastava há mais de três décadas.

Sekou Odinga retornou à família no dia 25 de novembro de 2014. As ruas de Nova York e outras 170 cidades do país enchiam-se com a raiva e a indignação dos que protestavam pelo não-indiciamento do policial Darren Wilson, acusado de ter desferido os seis disparos que mataram, no dia 9 de agosto, o garoto negro Michael Brown.

O velho rebelde estava de volta ao mundo que sempre conheceu.

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