Um novo sindicato

Após anos de crise, sindicalismo alemão recupera sua força

 

 

 
 
Você consegue imaginar Nicolas Sarkozy na tribuna de um congresso da CGT (Confederação Geral do Trabalho) tecendo elogios às ações dos sindicatos franceses durante a crise? É óbvio que não! O que é impensável na França é, no entanto, realidade do outro lado do Reno. O congresso do sindicato alemão dos metalúrgicos, IG Metall, em outubro de 2011, acolheu o presidente da república federal, Christian Wulff e, depois, a chanceler Angela Merkel.
 
Os dois líderes dos conservadores foram saudar a atitude cooperativa e responsável dos sindicatos durante a crise. “Vocês souberam manter a cabeça fria em uma época em que outros perderam completamente a medida da situação”, explicou Wulff, agradecendo ao IG Metall por ter jogado “o jogo difícil da moderação salarial” e do desemprego parcial. Já Angela Merkel pronunciou-se a favor dos aumentos salariais, especifi cando que “os esforços aceitos pelos assalariados durante a crise não devem ser esquecidos quando a conjuntura fica melhor”.
 
Há alguns anos, esses mesmos sindicalistas foram chamados de “as cabeças duras da república” ou “os empecilhos da reforma”. Atualmente, voltaram a ser os interlocutores bajulados por todos. Essa reviravolta é resultado da reorientação política e metodológica aplicada pelos sindicatos alemães depois do choque da “programação de2010”, o catálogo de reformas neoliberais lançadas por Gerhard Schröder em 2003, o qual o SPD (Partido Social Democrata alemão) foi obrigado a apoiar.
 
“Os sindicatos fi caram com medo ao ver a política de Schröder e se desligaram do partido ‘deles’, o SPD”, explica Wolfgang Schröder, cientistapolítico da Universidade de Kassel e antigo diretor do departamento de política social do IG Metall. “A CDU (União Democrata-Cristã) e os outros partidos beneficiaram-se da reaproximação com eles. Os sindicatos, assim, tomaram consciência do interesse que existia em conquistar uma posição equidistante em relação aos partidos. Sendo menos ideológicos e mais práticos, é possível multiplicar os interlocutores e as chances de passar as ideias.”
 
Pés de argila
 
Esse reposicionamento político nada mais é do que um dos elementos da resposta sindical frente à desregulagem do mercado de trabalho, destro às mutações industriais e à dessindicalização do mundo do trabalho.
 
No início da década de 1990, as organizações sindicais alemãs ainda se apoiavamno efetivo de quase 11 milhões de associados. Porém, apesar das aparências, essas enormes organizações são gigantes com pés de argila. Seus associados envelhecem e sua presença só é forte nos setores tradicionais, como a metalurgia, a indústria automobilística, as telecomunicações, os serviços públicos e os serviços ferroviários,atualmente à mercê de graves difi culdades.
 
Em contrapartida, eles estão ausentes nos setores emergentes da economia, como as novas tecnologias da comunicação, as energias renováveis e partes inteiras do setor de serviços (centrais de atendimento, trabalhos temporários, novos agentes privados do setor postal). Eles também não estão preparados para o desemprego em massa que varre a Alemanha desde a metade dos anos 1990. E isso vai diminuir o seu efetivo.
 
Mercadoria de ocasião
 
Para facilitar uma reintegração dos desempregados e favorecer uma gestão mais flexível dos efetivos, o governo de Gerhard Schröder liberalizou os trabalhos temporáriose apoiou a criação dos “pequenos empregos”. Hoje, o sucesso dessas medidas detestadas pelos sindicatos é uma faca de dois gumes. Elas criaram empregos. Mas que empregos! Do lado de lá do Reno, encontramos quase 6,5 milhões de “minitrabalhadores”, com empregos a 400 euros por 60 horas mensais, em setores tão variados quanto distribuição, limpeza industrial, cuidados com idosos, artesanato, salões de cabeleireiro etc. Ainda existe um milhão de pessoas em empregos temporários e um pouco menos de três milhões de desempregados.
 
“Os trabalhos temporários e o emprego precário destroem sempre mais o mercado de trabalho alemão. O trabalho está se tornando uma mercadoria de ocasião”, inquieta- se Bertold Huber, atual presidente do IG Metall. Nessa tendência, o que preocupa ainda mais o principal sindicalista do país é que ela ganhe progressivamente o coração industrial da economia.
 
“Atualmente, a porta esquerda de um carro é instalada por um montador contratado que ganha 15 euros por hora, enquanto a porta direita é colocada por um trabalhador temporário que ganha 8,50 euros por hora”, ele explica. O efetivo de funcionários da novíssima fábrica da BMW em Lípsia é composto por 35% de temporários.
 
Para o mundo sindical, essas evoluções têm consequências dramáticas. Ano após ano, os poderosos sindicatos alemães perdem centenas de milhares de militantes. Hoje, seus efetivos continuam sendo bastante superiores aos de seus colegas franceses, no entanto, com seis milhões de associados, eles afundaram como neve no chão: cinco milhões de membros perdidos em menos de 20 anos!
 
Quanto à prática da administração em comum, que rege as negociações coletivas e garante a presença de representantes dos assalariados nos conselhos de supervisão das grandes empresas, ela não para de enfraquecer. “Um dia, poderemos perder a legitimidade de falar pelos grupos de assalariados. Queremos impedir isso”, comenta o reformista Detlef Wetzel, braço direito de Bertold Huber. “Para voltarem a ser interlocutores confiáveis e organizações atraentes, o reposicionamento político não é suficiente. É também essencial que ataquem seumaior problema: a derrocadados efetivos”, afirma Wolfgang Schröder.
 
Por meio do impulso de grandes sindicatos como o IG Metall, o Verdi (de serviços) e o IG BCE (dos químicos), as negociações coletivas são orientadas na direção dos assuntos que interessam tanto aos assalariados quanto aos aumentos salariais. Por exemplo, a formação contínua, o aprendizado, a repartição do tempo de trabalho, a aposentadoria emtempo parcial, a segurança de emprego ou, ainda, a participação dos funcionários no capital da empresa.
 
Alta no efetivo
 
Paralelamente, a mobilização dos salários nas empresas tornou-se um objetivo central. “Devemos ser combativos em cada empresa”, indica Detlef Wetzel, que quer que os assalariados tornem-se, em primeiro lugar, agentes da vida das empresas, antes de recuperarem a carteira sindical. Em caso de um conflito dentro de umaempresa, o sindicato não age mais automaticamente, mas oferece sua ajuda ao grupo de assalariados, sindicalizados ou não, em troca do seuenvolvimento em uma ação comum. Assim, é verdadeiramente o trabalhador, auxiliado pelo sindicato, que escolhe se envolver, e não o contrário. O que muda tudo em termos de legitimidade, de eficácia e resultados.
 
Durante o verão de 2010, a direção da empresa Vaacumschmelze (de sistemas magnéticos), em Hanau, achou que seria bom anular todos os acordos coletivos sem mais nem menos. Uma greve totalfoi desencadeada segundo os princípios descritos acima. Resultado: a empresa rapidamente retomou os acordos coletivos e a taxa de sindicalização passou de 70% a 99%!
 
Atualmente, essa estratégia, associada ao cerco sistemático a setores e a públicos pouco sindicalizados, como, por exemplo, o setor de energias renováveis ou o grupo de aprendizes, começa a dar frutos. Em outubro, os 481 representantes no congresso do IG Metall puderam, assim, alegrar-se com os números apresentados pela sua direção.
 
Pela primeira vez em 22 anos, o IG Metall vai registrar uma alta no efetivo (2,3 milhões de associados) em 2011, com 15 mil recém-chegados,dos quais 50% têm menos de 25 anos. Para uma organizaçãoque perdeu 1,3 milhões de adeptos em 20 anos, é uma retomada bem-vinda.
 
 
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Tradução: Barbara Menezes
 
Publicado originalmente no site Mediapart e reproduzido no número 02 da revista Samuel
 
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Licença CreativeCommons: Atribuição CC BY

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