As FARC “usam armas para serem ouvidas”, diz viúva de Marulanda

Sandra Ramírez, que atua a quase três décadas na guerrilha, fala na aposta pelas negociações de paz

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É difícil imaginá-la vestida de guerrilheira, carregando uma mochila de 25 quilos, repelindo a tiros o ataque inimigo ou buscando refúgio para evitar os bombardeios aéreos. É conhecida como Sandra Ramírez e deixou o cenário de guerra colombiano para viajar à capital cubana para falar de paz.

Até agora, é a única mulher conhecida publicamente e envolvida nas conversações exploratórias entre delegados das insurgentes FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e do governo desse país., encabeçado por Juan Manuel Santos. O objetivo é iniciar um diálogo destinado “à construção de uma paz estável e duradoura”.

Quando foi vista chegando ao primeiro encontro com a imprensa oferecido em agosto, em Havana, por representantes das FARC, nem todos os jornalista sabiam quem era. Logo a informação corria pelo salão: entre os negociadores iniciais figura a companheira de “Manuel Marulanda”, nome de guerra de Pedro Antonio Marín, fundador e ex-líder da guerrilha mais antiga da América Latina.

Uma das interpretações de sua presença nestas reuniões é que reafirma a continuidade de um processo iniciado por Marulanda, morto em razão de uma parada cardíaca em março de 2008. “É seu legado que está presente. Durante seus 60 anos de luta esteve buscando uma saída política para o conflito, e essa sempre foi nossa vocação”, afirmou Sandra em entrevista exclusiva à IPS.

“Ao lado do comandante Marulanda aprendi o amor a esta causa que levamos, o que, definitivamente, implica um compromisso muito maior. Trabalhamos juntos muitos anos, compartilhamos muitíssimas coisas”, acrescentou em certo momento, quando as emoções puseram em risco sua fala pausada e calma.

Sandra é filha de uma família de camponeses numerosa – “Éramos 15 irmãos. As opções de vida eram escassas, sobretudo para nós, mulheres” – e uniu-se à guerrilha aos 17 anos. Em maio, completou 48 e não se arrepende do caminho escolhido. Na montanha aprendeu enfermagem e comunicações e integrou o corpo de guarda dos “camaradas” da direção nacional das FARC.

Ao que parece, foi assim que se aproximou sentimentalmente de Marulanda, a que acompanhou e cuidou nos últimos anos de vida. A imprensa colombiana recorda de vê-los juntos, dez anos atrás, nas conversações de paz entre as FARC e o governo de Andrés Pastrana (1998-2002), no município de San Vicente del Gaguán.

Aqueles diálogos fracassaram. Qual sua expectativa com este que começará em Oslo dia 8 de outubro e que, se prevê, continuará em Havana?

Estamos iniciando este novo processo para ver se, com o esforço de todos, da guerrilha, do governo e do povo da Colômbia possamos conseguir uma solução política para o conflito. As possibilidades de êxito sempre estão presentes, o problema é que a oligarquia colombiana sempre se negou a ceder um milímetro de seu status de poder, a partir do qual elimina o opositor a tiros.

Considera possível conversar de paz sem cessar as hostilidades?

O governo de Álvaro Uribe (2002-2010) se caracterizou pela violência extrema, não abriu as portas à paz. Agora a correlação de forças é diferente, tanto dentro do país quanto no entorno latino-americanoa da Colômbia, com governos democráticos como os de Venezuela, Bolívia ou Equador. Os povos estão adquirindo outras formas de luta e isso incide no povo colombiano. A decisão é sentar e conversar, mas a lógica e o próprio cenário nos dirão se haverá, ou não, cessar-fogo que, ocorrendo em algum momento, terá que ser bilateral.

No começo da década de 90, Fidel Castro, que comandou a insurreição armada que o levou ao poder em 1959, começou a desaconselhar este caminho e insistiu nas possibilidades da luta de massas, especialmente do “povo unido, povo coordenado, povo lutando em uma mesma direção”. O que pensa dessa afirmação?

As condições na Colômbia são muito diferentes. Não há liberdades para participação política. Aferrada ao poder, a ultra-direita elimina fisicamente seus opositores; fechou todas as vias e não nos deixou outra opção além das armas para sermos ouvidos. Porque se trata disso, usamos as armas para que nos ouçam.

Afirma-se que as FARC querem negociar porque estão debilitadas.

As FARC buscam a paz desde sua fundação e esta é uma nova oportunidade. Claro, como organização que enfrenta toda a tecnologia de ponta fornecida pelos Estados Unidos não podemos negar que fomos golpeados e perdemos quadros valiosos. Mas isso não significa debilidade.

Considera que há condições para que o povo colombiano acompanhe este processo?

Claro que sim, este diálogo responde ao desejo de indígenas, afrodescendentes, de todos os movimentos e setores sociais do país. Não é um capricho do governo de Santos nem das FARC.

Nos acordos que consideram como mapa do caminho das negociações de paz não se menciona a situação da mulher. Por que isso?

A situação da mulher na Colômbia é tão difícil quanto a de todo o povo colombiano, por isso não é mencionada especificamente.

Cerca de 40% das tropas das FARC são mulheres, mas elas não estão no secretariado da organização…

Calculamos que neste momento somos mais de 40%. Não há mulheres na direção nacional, mas há no Estado Maior Central e nos escalões intermediários. Em nível de companhias, integram os comandos de direção.

Também na Colômbia as mulheres sofrem violência doméstica e o machismo as discrimina. Esses problemas existem na guerrilha?

Nossa organização brotou das entranhas da sociedade colombiana e não está alheia a essas realidades. Mas, em seu seio se contribui para a preparação das combatentes para que se expressem, participem, tomem decisões e façam valer seus direitos. Temos normas disciplinares e não se permite rixas e menos ainda violência contra a mulher.

É verdade que há crianças na guerrilha?

Há casos excepcionais, com filhos ou filhas de guerrilheiras ou guerrilheiros mortos em combate. Às vezes seus avós não podem cuidar deles e são muito vigiados e perseguidos pela Polícia ou pelo Exército. Não há outro remédio a não ser levá-los conosco. Damos-lhes educação, designa-se algum combatente para cuidar deles, tentamos lhes dar a melhor atenção.

O que acontece se essa criança que ir embora?

Analisa-se a situação. Geralmente, optam por ficarem, por uma questão de segurança. Houve muitos casos de crianças que hoje são excelentes combatente e até comandantes.

Há pressão ou coação sobre os jovens para que ingressem na guerrilha?

De modo algum. A entrada é voluntária, seja homem ou mulher. A idade mínima para entrar nas Farc é de 15 anos.

Publicado pela IPS/Envolverde.

 
Licença CreativeCommons: Atribuição CC BY

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