A eterna misoginia de Bolsonaro e o estupro como manutenção do poder

Violência sexual contra mulheres é sempre uma questão de poder, e Bolsonaro, ao dizer que esta ou aquela não 'merece' ser estuprada, reivindica para si essa relação de superioridade

Não é algo novo o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) apresentar em seus discursos uma concepção militarista, machista, homolesbobitransfóbica e racista de sociedade. Óbvio que no dia que antecederia a entrega do relatório da Comissão Nacional da Verdade à presidente Dilma ele reafirmaria sua faceta de representante do setor mais reacionário da sociedade e do Congresso Nacional.

Nesta terça, durante os pronunciamentos dos parlamentares na Câmara dos Deputados, Bolsonaro reafirmou que só não estupraria a deputada federal do PT-RS Maria do Rosário por que ela não merecia.

“Fica aí, Maria do Rosário. Fica aqui para ouvir. Há poucos dias você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei: ‘Não estupraria você porque você não merece'”, foi como Jair Bolsonaro iniciou sua intervenção no plenário sobre o relatório da Comissão Nacional da Verdade.

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O início da fala de Bolsonaro se remete a episódio acontecido em 2003 nos corredores da Câmara dos Deputados quando o deputado chamou Maria do Rosário de vagabunda, a empurrou e disse que só não a estuprava por que ela não merecia. Não é a primeira vez, nem a última, que Jair Bolsonaro demonstra todo seu escárnio por aqueles que são mais marginalizados socialmente do que ele.

A primeira coisa importante a se lembrar é de que estupro no Brasil é crime hediondo. Para além disso, também é bom ressaltar que esta forma de violência contra mulheres, lésbicas, homens e mulheres trans também é uma forma de nos retirar a humanidade. Tanto que estupro é usado amplamente como arma de guerra em diversos conflitos pelo mundo, justamente por ser uma forma de desestabilizar comunidades inteiras. Estupro é sempre uma questão de poder e é isto o que Bolsonaro acaba reivindicando ao reafirmar que esta ou aquela mulher não “merece” ser estuprada.

Porém usar violência sexual como arma de guerra não é especificidade da Líbia, tal tática é usada amplamente em diversos conflitos no mundo, como já vem alertando a Anistia Internacional há bastante tempo. Normalmente as mulheres são vistas como símbolos de honra nos povoados, assim os ataques às mulheres e meninas são formas de subjugar e desmoralizar os homens de determinada região, ajudando assim a espalhar o medo e afugentar as pessoas. As mulheres vítimas de violência sexual em territórios de conflitos não sofrem apens de traumas psicológicos e emocionais por conta dos abusos, mas também sofrem com o receio de serem negadas por suas famílias. (FRANCA, Luka. Estupro não questão de sexo, é questão de poder)

Bom lembrar da importância da campanha “Eu não mereço ser estuprada” deflagrada pelas redes sociais no começo deste ano após divulgação de pesquisa realizada pelo IPEA sobre o tema. A questão é que a reafirmação de Bolsonaro demonstra profundamente o quanto da desumanização das mulheres ainda existe e é perpetuada pela cultura do estupro em nossa sociedade. O quanto o se utilizar da coerção sexual é algo colocado como aceitável para ensinar a todxs que subvertem o local social atribuído a cada gênero o que devem fazer e quais lugares devem ocupar de forma submissa e inquestionável.

A misoginia manifesta de Jair Bolsonaro já teve como alvo não só Maria do Rosário, mas também Marta Suplicy e Marinor Brito em 2001 quando do debate sobre os direitos LGBTs no Senado. Em todas as ocasiões, a postura do macho branco hetero que coloca as mulheres que ousam questionar e se posicionar politicamente se reforça. O “coloquei fulana no seu devido lugar” é o demonstrar com truculência de que a política não é o lugar das mulheres e que ao estarem nestes espaços elas devem apenas cumprir seu papel histórico: o de baixar a cabeça e se submeter aos homens do Congresso Nacional.

Infelizmente Bolsonaro não representa apenas sua opinião própria. Foi o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro, reforçando o cenário de Congresso Nacional mais conservador desde 1964. Assim, estão presentes hoje mais uma vez em Brasília as opiniões do deputado, marcadas pelo desprezo às lutas por igualdade e pela ojeriza ao fim da exploração e de genocídios diversos existentes na nossa história. Bolsonaro, ao dizer que Maria do Rosário “não merece ser estuprada”, ataca a todas as mulheres que já foram vítimas ou não de violência sexual, e ignora que em 2013 o número de estupros em nosso país foi maior do que o de homicídios dolosos.

O deputado dá, ainda, vazão para perpetuar esta forma de violência e de tortura. Cabe sempre a nós apontar e reivindicar que a violência sexual não é aceitável, a ameaça — seja velada ou não — de estupro a qualquer mulher demonstra o quanto precisamos realmente avançar na emancipação e empoderamento de todxs aquelxs que são marginalizdxs na nossa sociedade.

* Texto publicado originalmente no blog BiDê Brasil

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