‘Estava na cadeira do dragão quando o torturador se masturbou e jogou esperma em mim’, relata ex-presa política da ditadura

Amelinha Teles, militante comunista torturada no DOI-Codi de São Paulo, conta como mulheres sofriam violência sexual por agentes da repressão e afirma que estupro era política de Estado no regime militar brasileiro

Atualizada dia 31/12/2014, às 19h

“Eu passei por várias situações. Eu nem gosto muito de falar, porque...eu não sei porque. Eu não gosto muito de falar”. Militante comunista presa pelo regime militar em 1972 com 28 anos, Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida como Amelinha, relata em entrevista exclusiva como sofreu violência sexual nas celas do DOI-Codi de São Paulo e garante que estupros eram mais uma das armas utilizadas pela ditadura para torturar as mulheres consideradas inimigas do Estado.


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“Eu estava sentada em uma cadeira do dragão, nua, amarrada, levando choque no corpo inteiro, ânus, vagina. Enquanto isso, o Gaeta, que era um torturador, estava se masturbando e jogando esperma em cima de mim”, relata Amelinha. “A hora que eu caio no chão, ele me põe em uma cama de lona que tinha ali do lado e começa a esfregar meus seios, apertar minha bunda. Isso é uma violência. E assim foram várias vezes, com vários outros torturadores. Mas existem os casos de ter penetração vaginal que as mulheres contam. E são muitos casos, não um ou dois”, completa a militante.

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Utilizada por agentes do DOI-Codi contra os presos políticos, a ‘cadeira do dragão’ era um tipo de cadeira elétrica, na qual o torturado tinha os pulsos amarrados por cintas de couro. Além de orelhas e língua, fios eram fixados em seus órgãos genitais. Mecanismos faziam com que os espasmos promovidos pelos choques gerassem outros ferimentos. Após sessões neste aparelho, era comum que os torturados ficassem extremamente debilitados.

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De acordo com o depoimento de Amelinha, seu violentador foi Lourival Gaeta, delegado do Dops de São Paulo durante a ditadura militar e membro atuante na Oban (Operação Bandeirante). O ex-delegado (imagem à esquerda) também é apontado pela CNV (Comissão Nacional da Verdade) como um dos 377 responsáveis por violações aos direitos humanos perpetrados pelo Estado brasileiro. Entrou para a Polícia em 1960 e, em apenas cinco anos, foi recrutado para o gabinete do secretário de Segurança Pública. Em 1983, a pedido do Exército, Gaeta começou a trabalhar na Polícia Federal. Aposentou-se em 1992 e morreu em 1997.

Estupro: política de Estado

Amelinha, no entanto, faz questão de ressaltar que violências sexuais e estupros não eram desvios de condutas de determinados agentes da repressão. A ex-presa política rebate inclusive recente depoimento publicado no livro Casa da Vovó, do jornalista Marcelo Godoy.

Em sua obra, Godoy reuniu confissões de ex-agentes do DOI-Codi, nas quais diversos métodos utilizados pela repressão são relatados em detalhes. Uma das fontes, Tenente Chico (nome fictício), afirmou que o estupro era uma prática proibida nos corredores da Oban desde que o então coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra assumiu a chefia do órgão.

“Havia muito mito quanto ao que se fazia com o preso. Não tinha estupro. Punha-se a mulher nua, dava choque, mas estuprar jamais. Se o Ustra soubesse de algo semelhante, ele ferrava bem”, afirmou tenente Chico, segundo o livro.

Para Amelinha, o depoimento do ex-militar está equivocado. “Ele deve estar equivocado. O estupro era uma política de Estado. Era uma prática, não eram exceções. O estupro tem sido usado no mundo inteiro como uma arma de guerra. Aquilo foi uma guerra contra o povo e eles usaram o estupro também. Era uma forma de dominação: eu controlo suas ideias, eu controlo seu corpo”.

A ex-militante destaca também que muitos estupros eram cometidos contra mulheres que foram assassinadas. “Como elas iriam morrer mesmo, elas não iam contar essa história nunca, jamais iriam denunciá-los”, afirma.

Segundo o jornalista, "o estupro e as violências sexuais, pelos relatos de presas, foi largamente usado durante o regime, e mesmo os agentes confirmam isso". "O relato do Chico é um apenas dos relatos, cuja importância não está no fato de ele negar o estupro, mas de mostrar que os militares procuravam impor ordem, disciplina e racionalidade às suas ações, mesmos as mais cruéis e perversas", explicou Godoy a Samuel. "Não é sobre estupro o relato dele, mas sobre organização do órgão, o caráter burocrático do mal."

13 de fevereiro de 1970, 15 horas

Amelinha Teles foi uma das idealizadoras do livro Infância Roubada, recém-publicado pela Comissão da Verdade de São Paulo. A obra traz 44 depoimentos nos quais crianças da época dos anos de chumbo, hoje adultos com 50 a 60 anos de idade, contam detalhes de sequestros, prisões e torturas sofridas por intermédio dos militares.

“As crianças são sequestradas ou sofrem essas intimidações e torturas porque elas são filhas de militantes”. Para Amelinha, as crianças eram usadas para atacar as mulheres opositoras ao regime. “Os torturadores usam as crianças, de modo geral, para atingir as mulheres. Eles usam a questão da maternidade contra as mulheres”.

 

Uma das histórias mais chocantes envolvendo os filhos dos militantes, no entanto, não está nas páginas de Infância Roubada. No dia 13 de fevereiro de 1970, a advogada Eugênia Zerbini, então com 16 anos, foi estuprada dentro do DOI-Codi quando foi fazer uma visita à sua mãe, que lá estava presa.

“Uma das meninas, hoje uma senhora de 60 anos, contou  que ela foi até o DOI-Codi para deixar uma roupa para a mãe dela. Eugênia Zerbini, filha do general Zerbini, foi lá seguindo a orientação do pai, pedindo para falar com o oficial do dia. O soldado que a recebeu a entregou para o oficial do dia. O oficial caminhou por um corredor, entrou dentro de uma sala e fechou a porta quando ela entrou. Então ele a estuprou”, conta Amelinha.

Doutora em Direito Internacional, Eugenia Zerbini, filha de Therezinha Zerbini, fundadora do Movimento Feminino pela Anistia, e do general Euryale de Jesus Zerbini, cassado no início do regime militar após se opor ao golpe contra João Goulart, já foi uma das vice-presidentes do banco Citibank em Nova York. Durante 43 anos, manteve a história de seu estupro em segredo, até que, em setembro de 2013, a revelou em entrevista à revista Brasileiros.

“Por que não gritei? Gritar na Operação Bandeirantes? E o medo que ele me desse um murro e me arrebentasse os dentes? Eu fiquei paralisada. Tinha me preparado para ver sangue, ouvir gritos, mas isso eu nunca imaginei. Quando acabou, ele abriu a porta. De repente, vi que estava na porta para a rua. Eu nem olhei para trás. Nem queria saber como cheguei naquela porta. Queria ir embora, ficar longe daquilo”, disse Eugênia para a Brasileiros.

Eugênia também relatou seu caso na sessão da Comissão da Verdade de São Paulo, que reuniu os depoimentos do livro Infância Roubada. A advogada, no entanto, pediu para que sua história não fosse publicada.

Amelinha Teles afirma que a Comissão está ‘em dívida’ com Eugênia. “Ela veio até aqui e pediu quem nós identificássemos quem era o oficial do dia, e nós ainda não conseguimos fazer isso. Era o dia 13 de fevereiro de 1970, às 15 horas. Quem era esse homem?”, pergunta a ex-presa política.

História

Maria Amélia de Almeida Teles e seu marido, César Augusto Teles, foram presos no dia 28 de dezembro de 1972, quando então foram encaminhados ao DOI-Codi. No dia seguinte, seus filhos, Janaína e Edson, também foram presos e, por aproximadamente uma semana, eram encaminhados à Oban, onde chegaram a ver os pais nas salas de tortura. Ambos ficaram sequestrados por aproximadamente seis meses.

Reprodução

Amelinha trabalha atualmente como assessora da Comissão da Verdade do Estado de São paulo "Rubens Paiva"

Amelinha hoje é diretora da União de Mulheres de São Paulo, coordenadora do ‘Projeto Promotoras Legais Populares’, e assessora da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”.

Publicado no dia 10 de dezembro, o relatório final da CNV (Comissão Nacional da Verdade) traz um capítulo exclusivo sobre casos de violência sexual e estupros cometidos por agentes do Estado durante a ditadura.

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