Elke Maravilha, filha da guerra

'Quem sabe um dia eu consiga fazer de mim mesma uma obra de arte', disse Elke Maravilha em entrevista de 2008; 'Eu, como qualquer pessoa, sou deus, demônio, santo, bom, mau. Só que mostro mais a sombra, não tenho pudor de mostrar'

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Entrevistei Elke Maravilha em dezembro de 2008. Ela gostou do resultado, me telefonou para comentar.

Sei que fui carinhoso com ela durante a entrevista, e ao telefone ela tentou retribuir. Eu não soube lidar com a aprovação da entrevistada. Me retraí, como aprendi e me acostumei a fazer.


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Nunca mais voltei a entrevistá-la, nem mesmo a falar com ela, até 16 de agosto de 2016, o dia de sua morte. Carregarei mais este triste troféu em minha milionária coleção de erros.

Numa coisa não errei, embora errasse em calar: amei, amo e amarei Elke Maravilha enquanto andar por aqui.

Removo do passado, para reavivar memórias e lágrimas, a reportagem da revista CartaCapital (edição 525, de 10 de dezembro de 2008) que resultou dos encontros com essa maravilhosa filha da guerra.

Reginaldo Teixeira / Flickr CC

Elke Maravilha: 'Quem sabe um dia eu consiga fazer de mim mesma uma obra de arte'

*

Está escuro, o ambiente é esfumaçado e Osama Bin Laden está diante de uma mulher vestida de negro da cabeça aos pés, numa espécie de burca. Bin Laden serve cervejas, a mulher de burca bebe conhaque, punks de feições orientais ou africanas fumam e jogam sinuca ao redor.

Não estamos numa caverna afegã, mas sim num bar plantado no vale do Anhangabaú, centro velho de São Paulo. O suposto Osama, proprietário do Bar Bin Laden e sósia perfeito do dito cujo, é cearense e se chama Francisco Fernandes. A mulher de burca se chama Elke Maravilha. Um jornalista participa da cena, ouvindo atentamente o discurso risonho e todo povoado por mitologias que a mulher não para de proferir.

Nessa noite, Elke não usa nenhuma das perucas exóticas que a tornaram célebre nos programas de jurados de Chacrinha e Silvio Santos e a fazem identificável à primeira vista. Mesmo assim, a pele alva é facilmente reconhecível e atrai abraços e pedidos de autógrafos por parte dos punks.

Elke tem zanzado livremente por São Paulo, da avenida Paulista (no apartamento do amigo e diretor Rubens Curi, no mítico edifício Baronesa de Arary), ao Bar Bin Laden, e do Espaço Parlapatões na praça Roosevelt a unidades do Sesc em cidades próximas à capital. Nesses últimos, ela apresenta o show musical Do Sagrado ao Profano, no qual canta em português, espanhol, russo, alemão e grego.

Agora com 63 anos, a ex-modelo por vezes esbarra nas notas musicais. Não chega a ser propriamente uma boa cantora. Mas cria no palco uma atmosfera em que acontecimentos inesperados despencam a cada minuto. Logo de cara, canta algo do folclore mineiro, e leva o espectador a se perguntar em que lugar do planeta ele veio parar, ou de que planeta é a pessoa que está no palco, ou ambos.

Mas imediatamente começa a contar histórias surpreendentes, que aos poucos dissipam o estranhamento. Explica que nasceu russa, em Leningrado (atual São Petersburgo), e foi criada brasileira entre descendentes de africanos, na fazenda Cubango, em Itabira, Minas Gerais, a mesma cidade onde nasceu Carlos Drummond de Andrade. E isso é apenas o começo.

No pico do Baronesa de Arary, ela lembra a infância mineira: “Andava a cavalo como uma maluca. Eu era um centauro”. Mostra ao jornalista e ao fotógrafo o único documento que possui, o Registro Nacional de Estrangeiros, onde é classificada como “apátrida”. Ou seja, Elke Grunupp não pertence a pátria alguma.

Essa condição remonta ao ano de 1971, num aeroporto brasileiro. A então modelo viu um cartaz oficial de “procuram-se subversivos” e nele reconheceu o filho da estilista Zuzu Angel, sua amiga, que ela sabia ter sido assassinado pela ditadura militar. Indignou-se e saiu arrancando todos os cartazes que via. Foi pega no ato, levada ao Dops, presa “por violação da Lei de Segurança Nacional”. Teve todos os documentos confiscados, e nunca mais os resgatou.

A rebeldia contra pátrias e o convívio com tempos de guerra ela traz do berço. Descendente de azerbaijanos, mongóis e vikings (“em viking, elke significa alce”), o pai, George Grunupp, insurgiu-se contra o stalinismo e a União Soviética natal, em 1939. Agregou-se ao exército finlandês, contra a própria pátria.

A mãe, Lieselotte Von Sodern, era alemã, nobre que se apaixonou por um plebeu. “A árvore genealógica dela chegava a Frederico, o Grande. Até a guerra pintar, nobre não se mistura com vira-lata”, filosofa a filha. Lieselotte tinha Elke na barriga havia três meses, quando George foi preso e isolado na Sibéria, de onde fugiu seis anos depois.
 

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“Na primeira vez que vi meu pai, aos seis anos, bati com um martelo na cabeça dele. Quem era aquele homem que eu não conhecia?” Era o homem que, para não ser repatriado à Rússia, traria filhos e esposa ao Brasil, para morar em chão batido à luz de lamparina. E é o homem cuja lembrança lhe arranca lágrimas, no único momento da entrevista em que interrompe as ondas contínuas de alegria esfuziante. Não são suficientes, as lágrimas, para borrar a maquiagem em densas camadas abaixo da peruca loura rastafári. Maquiada, Elke (quase) nunca sofre.

“Meu pai escolheu o Brasil porque para ele era o país das infinitas possibilidades. E é. Chegamos na baía da Guanabara e fomos despejados num campozinho de concentração na Ilha das Flores. Hoje é um quartel”, lembra. “Aqui judeu se dá com árabe e vão juntos para a macumba.”

Saca um pacote de fotografias puídas da carteira e mostra uma foto sua entre quatro homens louros queimados de sol. É ela com seus irmãos, em Serra Pelada, no Pará, onde os quatro foram garimpeiros. “É como naquela canção (cantarola), meus irmãos perderam-se na vida em busca de aventura. Pegaram a maior pepita do Brasil, mas do jeito que veio foi.”

Com uma latino-americana, um desses irmãos teve três filhos brasileiros, de descendência múltipla. Hoje adolescentes, e punks com piercings espalhados pelos rostos, são eles que levam a tia (e também a mãe) ao encontro do falso Bin Laden árabe-cearense-paulistano.

Se o pai falava 14 línguas, ela fala “apenas” oito, o que não quer dizer que dependa delas. Nômade, já passou horas numa praça no Japão, conversando com mendigos, ela em português, eles em japonês. Não inclui o latim entre as que domina, mas já deu aulas daquele idioma (também trabalhou como bancária, bibliotecária, secretária e tradutora).

Mostra outra foto, dela com o traficante carioca Bira Charuto. “Fui escolhida madrinha dos presidiários, por ele e por Lúcio Flávio. Disseram que eu era a única que não tinha preconceitos contra eles.”

Elke foi amiga íntima da psiquiatra Nise da Silveira (“eu falava que ia visitá-la, ela dizia ‘então venha bem colorida'”). É fã inveterada da Emília de Monteiro Lobato e de Jânio Quadros (“ele foi o único que devolveu terra para índio, botou preto para ser embaixador e condecorou Fidel Castro e Che Guevara“). Faz até hoje visitas a presídios, e se coloca na roda quando fala de Bira, assassino e assassinado. “Nunca peguei numa arma para matar. Mas matei”, afirma, apontando o dedo para a própria cabeça, como a indicar assassinatos imaginários cometidos ali por dentro.

Foi essa figura que aprimorou ao longo dos anos a técnica (e a provocação) de se semiocultar sob perucas, fantasias e adereços e se autotransformar em “carro alegórico ambulante”, como ela em certo momento se autodefine. Hoje, ela condensa numa só frase os propósitos do ritual que pariu uma Elke “maravilha” das entranhas de Elke Grunupp: “Quem sabe um dia eu consiga fazer de mim mesma uma obra de arte”.

Sobre por que criou a Elke extravagante que conhecemos, nada responde. E se põe a falar do poeta Drummond. “Cruzei com ele um dia na avenida Nossa Senhora de Copacabana. Até hoje isso me arrepia”, interrompe-se e aponta o braço arrepiado. “Fiquei naquela, um monstro sagrado, vou falar com ele ou não vou? Mas foi ele que veio falar comigo!”, arregala os olhos. “Ele disse: ‘Gosto tanto de você, fico tão feliz quando te vejo na tevê. Agora, Elke, que surrealista você ser mineira de Itabira.'”

Ela supôs que a estranheza do poeta vinha do fato de ser alta e loura, mas o que espantava Drummond era saber que uma itabirana tomara para si a missão de alegrar as tardes televisivas de sábado. “Ele disse: ‘Não é a imagem, é a alma diferente. Nós, itabiranos, somos fechados, taciturnos. Somos em cima do muro. E você é o oposto'”.

Sim, em cima do muro ela não fica. Logo à chegada do repórter para a entrevista, pronta para a guerra, põe-se a elogiar o Osama “original”, bem antes de se aventurar pelo bar do “falso” Bin Laden. Declara apoio à derrubada das Torres Gêmeas (“alguém tem que reagir, poxa“). Diz que a humanidade não é pacífica nem está preparada para a paz. E que adorou quando Bush Jr. se reelegeu, pois assim “a queda” seria mais rápida.

“Ídolo em grego é espelho, e eu não me vejo mal em Bin Laden”, confessa a moça extrovertida que divertiu e coloriu sábados e gerações de brasileiros. “Eu, como qualquer pessoa, sou deus, demônio, santo, bom, mau. Só que mostro mais a sombra, não tenho pudor de mostrar.”

Publicado originalmente no site Farofafá


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