O teu discurso não nega, racista

Existem muitas marchinhas divertidas por aí. Assim, deixar de cantar algumas que sejam ofensivas a grupos historicamente discriminados não vai acabar com a diversão de ninguém

Em meio a tantas falsas polêmicas criadas sobre marchinhas de Carnaval ofensivas, resolvi escrever esse texto. Os autoproclamados intelectuais brasileiros já saíram em defesa do que é indefensável, ao minimizar, relativizar, ou, ainda, pedir compreensão com músicas de cunho racista que guardam “tradição”.


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Uma vez que estamos no tempo de dizer o óbvio, como dizia Bertold Brecht, não é argumento dizer que essas músicas fazem parte de uma tradição quando toda tradição é inventada.

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Muito menos afirmar que fazem parte da cultura, quando o racismo, o machismo e a homofobia também são culturais. Compositores não vivem numa galáxia distante, logo também aprendem e internalizam esses valores.

A questão é: as pessoas não querem se dar ao trabalho de se tornarem melhores. Se os grupos alvos dessas marchinhas se sentem ofendidos, é hora de repensar. Além, não é mera questão de sentir, existe uma bibliografia vasta explicando por que se tratam de reproduções de opressões.

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Vamos a um trecho de uma delas, “O teu cabelo não nega”, de Lamartine Babo:

O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, quero seu amor

A letra é autoexplicativa, mas vamos a ela: a referência ao cabelo é feita de forma pejorativa, mas o mais chocante é o fato do amor da moça só ser desejado pelo fato “da cor não pegar”.

Ou seja, ele pode até amá-la, mas “sem se sujar” numa clara demonstração de nojo ou repulsa à cor negra.

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Além do que, o termo “mulata” é igualmente pejorativo. Trata-se de uma palavra de origem espanhola que vem de “mula” ou “mulo”, fazendo referência àquilo que é híbrido em relação ao cruzamento de espécies. Mulas são animais nascidos do cruzamento dos jumentos com éguas ou dos cavalos com jumentas.

Refere-se, portanto, a uma expressão pejorativa que indica mestiçagem, mistura imprópria. Utilizado desde o período colonial, essa palavra era empregada para designar pessoas negras de pele mais clara, frutos dos estupros sistemáticos de mulheres escravizadas pelos senhores de engenho.

Logo, não há explicação plausível para a insistência no uso do termo. A consciência sobre o que significa deveria fazer com que as pessoas se envergonhassem de usar.

Adjetivar o não uso da palavra e da marchinha como censura demonstra falta de compreensão sobre o que significa censura e um escárnio para quem verdadeiramente sofreu com ela nos tempos de ditadura militar.

O que se quer aqui é uma decência mínima e demonstração de humanidade, o contrário do que a censura impõe.

Vale dizer que as minimizações das ofensas reproduzidas nas músicas ocorrem porque essas pessoas não veem as históricas dores do povo negro da mesma forma como veem, por exemplo, a do povo judaico.

Ou alguém consegue conceber uma marchinha que ofenda judeus ou minimize o Holocausto? Falta empatia em quem reproduz o pensamento racista, obviamente.

Do mesmo modo, marchinhas como Maria Sapatão e Olha a cabeleira do Zezé são, além de mau gosto, ofensivas às lésbicas e aos gays. No Brasil, existe a ideia de se romantizar as coisas ou tratar como jocoso. É preciso entender o que há por trás disso – e tal tomada de consciência exige trabalho mesmo. Coisa que a maioria privilegiada, não acostumada a ele, não quer.

Existem muitas marchinhas divertidas por aí. Assim, não cantar algumas que sejam ofensivas a grupos historicamente discriminados não vai acabar com a diversão de ninguém.

Divertir-se com o escárnio do outro não deveria ser entendido como diversão.

Os tempos mudam, as pessoas evoluem, ainda bem. Vozes do passado precisam estar exatamente no tempo histórico em que estão.

 

Publicado originalmente no site da revista Carta Capital


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