Na Argentina, durante a campanha eleitoral, o direitista Mauricio Macri repetiu diversas vezes em seus discursos, em referência ao governo de Cristina Kirchner, para amedrontar o povo: “estivemos muito próximos de nos tornar a Venezuela”.

Martín Fernández Lorenzo*, em Socialista Morena

A ironia é que, apenas três anos depois de Macri chegar ao poder, os argentinos estão mais próximos de “ser a Venezuela” do que os brasileiros imaginam. Confira:

1. Presos políticos

Nem bem Mauricio Macri assumia o poder e a mensagem já era clara: haveria perseguição ideológica e política a quem se opusesse a seu governo. A primeira presa política de Macri foi, e ainda é, a líder indígena Milagro Sala, encarcerada em 2016 por organizar um acampamento contra o governador da província de Jujuy, Gerardo Morales, aliado do presidente. A CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) pediu sua imediata liberação, mas o governo federal respaldou a autoritária decisão da Justiça de Jujuy. Milagro foi para a prisão domiciliar, mas, em 2017, voltou a ser presa e novamente a CIDH se manifestou pedindo sua soltura. Hoje, permanece confinada em sua casa sob a sentença de “prisão domiciliar”. Também sofreram estes abusos jurídicos o ex-vice-presidente Amado Boudou, o ex-secretário de Legal e Técnica, Carlos Zannini e o ativista Luis D’Elia, entre outros. Atualmente se encontram em liberdade. O caso recente e mais emblemático, porém, é o do ex-ministro do Planejamento de Cristina Kirchner, Julio de Vido. De Vido se encontra detido em “prisão preventiva” à espera de julgamento que comprove ou não sua culpa. A lógica indica que teria que estar em liberdade, já que ainda não há uma sentença definitiva.

2. Perseguição judicial a adversários

Dizem que a Justiça da Venezuela é “bolivariana”, mas, assim como no Brasil, também na Argentina o judiciário está sendo utilizado para tirar adversários do governo do caminho. No último dia 14 de maio, a ex-presidenta Cristina Kirchner foi indiciada pela quinta vez junto com seus filhos Máximo e Florencia, acusados de “lavagem de dinheiro” e “formação de quadrilha” no caso de um hotel que pertence a sua família em Buenos Aires. O juiz Julián Ercolini também processou Romina Mercado, sobrinha de Cristina, e o empreiteiro Lázaro Báez, já em prisão preventiva desde 2016 por outro caso, e ordenou contra todos eles embargos sobre quantias de até 800 milhões de pesos (32,02 milhões de dólares) para cada um.

Em novembro de 2017, Cristina prestou depoimento, negou todas as acusações e afirmou que está sendo perseguida juridicamente pela turma de Macri. No mês seguinte, outro juiz, Claudio Bonadio, pediu sua prisão pelo suposto acobertamento dos iranianos suspeitos de cometer o atentado contra uma associação judaica de Buenos Aires que deixou 85 mortos em 1994. Ela só não foi presa porque tem imunidade parlamentar como senadora. “Macri é o diretor da orquestra e Bonadio executa a partitura”, disse Cristina na época.

3. Demissões e expulsões de jornalistas

Em janeiro de 2016, o jornalista Victor Hugo Morales, um dos mais influentes do país, foi demitido da rádio Continental. “Isso ocorre em um contexto onde a situação é avassaladora, sufocante e terrível para a democracia e para a liberdade de expressão na República Argentina”, disse Victor Hugo. Em meados de 2017, o principal programa de oposição ao governo, Economia Política, foi retirado do ar, e seu âncora, o jornalista Roberto Navarro, foi afastado do canal C5N. Não por acaso, era o programa político de maior público na televisão argentina. “O governo conseguiu que me demitissem”, acusou o jornalista. Hoje seu programa pode ser visto através de um canal no YouTube. Quem seguiu seus passos e também foi afastado do canal televisivo foi o colega de Navarro, o mesmo Victor Hugo Morales que levou um pé na bunda da rádio Continental.

Ou seja, como se não bastasse tê-lo tirado das rádios, agora ficava fora também da televisão. Morales retornou à TV há poucas semanas. Nesta mesma semana seu apartamento sofreu uma invasão por ordens da Justiça. Em dezembro do ano passado, antes da reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), o governo Macri expulsou do país a jornalista britânica Sally Burch, acusando-a de defender “manifestações violentas” durante o encontro, embora a própria OMC tenha desaconselhado o governo a tomar tal atitude. “Essa não é uma atitude muito democrática do governo argentino”, disse a jornalista. Além de Burch, o ativista norueguês Petter Titland também foi impedido de entrar no país e foi enviado ao Brasil direto do aeroporto. A embaixada da Noruega protestou. “A decisão argentina, infelizmente, manda um sinal errado”, disse Guri Solberg, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores.

4. Disputa por comida

No ano passado, a cesta básica dos argentinos aumentou mais que a inflação. Como sinal de protesto pelos aumentos sofridos nas tarifas de luz, gás e água, agricultores e panificadores realizaram os respectivos “Verduraço” e “Pãozaço”, distribuindo às pessoas seus produtos. As cenas que se viram foram muito tristes. Filas desde as 4 horas da manhã, com a presença de muitos aposentados que aguardavam para poder levar para casa um molho de alface ou meio quilo de pão. Ano passado, outro “Verduraço” já tinha acontecido para ajudar, principalmente, os aposentados, quando foi aprovada a reforma da previdência que os prejudicava diretamente.

5. Repressão a manifestações

“Você vai para o Canadá e, a verdade é que, se um grupo de pessoas gera tal nível de violência, as forças de segurança atuam tirando esta gente da rua como têm que tirar. Se não conseguem, imediatamente passa um caminhão-pipa com mangueiras de água. E depois uma bala de borracha na perna. Não sei como é, mas seguem um protocolo”, sustentou a vice-presidenta Gabriela Michetti ao defender a repressão aos protestos contra a reforma da Previdência.

A repressão de dezembro foi feroz. Ao menos três pessoas perderam um dos olhos atingidas por balas de borracha, apesar de os próprios fabricantes do artefato recomendarem mirar nas pernas. Também sofreram o mesmo tipo de abuso deputados nacionais da oposição, que foram atacados com gás lacrimogênio e muita pancadaria.

6. Atentados aos Direitos Humanos

De exemplo em matéria de Direitos Humanos, a Argentina passou a ser agora questionada por organismos nacionais e internacionais. O caso de Santiago Maldonado, de 28 anos, que apareceu afogado após uma busca que durou 80 dias, ocorreu em seguida à ordem dada à polícia local para reprimir um bloqueio de estrada que derivou na posterior morte de Santiago. Ao de Maldonado, seguiu-se o caso de Rafael Nahuel, de 22 anos, morto com um tiro nas costas pela prefeitura Naval Argentina, uma polícia que cuida da segurança das águas. A ministra de Segurança, Patricia Bullrich, declarou no dia seguinte que sua morte se deu num contexto de “confronto”, mesmo eufemismo que a mídia brasileira utiliza para ocultar os abusos policiais contra manifestantes. Meses depois, as perícias determinariam que Nahuel não tinha restos de pólvora em suas mãos. A isto se soma a morte do menino Facundo Ferreira, de apenas 11 anos, assassinado com uma bala na nuca pela polícia.

Mais uma vez, justificaram que houve confronto, como disse o chefe de gabinete de Macri, Marcos Peña. Meses depois, um dos policiais investigados no caso não conseguiu passar no teste de doping. Também deve-se destacar que o presidente Macri recebeu na Casa Rosada ninguém menos que o policial Chocobar, afastado por matar um delinquente. O presidente recebeu-o como um herói. No vídeo se vê claramente como o policial fuzila pelas costas o homem, a apenas 10 metros de distância. Chocobar está sendo processado por homicídio qualificado.

7. Incertezas econômica e financeira

Enquanto ostenta o triste recorde de ser a moeda mais desvalorizada do mundo em 2018, a crise econômica parece não ter fim. Com um dólar que não para de subir (30% de desvalorização acumulada no ano), uma inflação sem controle que já atinge o 9,4% no primeiro quadrimestre (e que o governo projetava em 15% ao ano) e, como se não bastasse, o retorno ao FMI após 15 anos, não há expectativas nem de crescimento nem de melhoras a curto prazo, ao contrário. Vale destacar que nem os próprios funcionários do governo apostam no país, já que mantêm seu dinheiro no exterior, como o Ministro de Energia, José Aranguren, que declarou: “Sigo mantendo meu dinheiro fora. À medida que recuperemos a confiança na Argentina, regressaremos com este dinheiro”. Outro exemplo vem do Ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, que mantém 83% de seu patrimônio no exterior.  Se eles mesmos não confiam, o que sobra para os demais?

8. Tarifas de gás, luz e água impagáveis

A mídia comercial brasileira vive falando sobre o preço dos celulares e dos serviços públicos na Venezuela, e o custo de vida na Argentina de Macri não vira nem nota de rodapé nos jornais. O “Tarifaço” que impôs o governo chega a níveis exorbitantes dependendo de onde se viva ou tenha seu negócio. Em alguns casos, a conta de luz chega a ser maior que o próprio aluguel. Há várias histórias que mostram como o povo argentino está sofrendo com a perda de poder aquisitivo, a maior da América do Sul. Uma senhora de Buenos Aires, Eva, de 91 anos, sofreu um corte de luz por não poder pagar uma conta de 26 mil pesos, o equivalente a quase 4 mil reais. Uma vizinha filmou tudo e a reação nas redes sociais foi tão grande que acabaram religando o medidor.

Outra mulher, desesperada porque sua luz foi cortada, decidiu protestar literalmente jogando seu carro contra a empresa responsável, numa reação tresloucada que foi comparada ao personagem de Ricardo Darín no filme Relatos Selvagens.


*Martín Fernández Lorenzo*, em Socialista Morena