É difícil escolher, entre tantos, apenas um aspecto da elaboração teórica ou da prática política de Karl Marx, 200 anos depois de seu nascimento, que justifique a afirmação de sua atualidade. Afinal, vivemos em tempos nos quais a humanidade se vê cada vez mais dominada pela lógica destrutiva das mercadorias, em que as desigualdades sociais chegaram a um ponto tal que apenas oito capitalistas se apropriam de tanta riqueza produzida por homens e mulheres quanto metade da população mundial.

Marcelo Badaró Mattos*

E as coisas só pioram, porque de toda a riqueza gerada no mundo em 2017, 82% ficaram concentrados nas mãos desse 1% mais rico. Uma época na qual, as novas formas de comunicação digital, sobre as quais depositam-se grandes esperanças de democratização das informações, têm servido muito mais para ampliar os limites ideológicos e fetichizantes a uma compreensão plena e crítica do mundo em que vivemos. Tempos em que as máscaras democratizantes do Estado burguês parecem cada vez menos relevantes ante o crescimento das formas abertas de coerção que caracterizam a dominação de classes contemporânea. Neste nosso contexto, Marx é cada vez mais atual. Neste texto, entretanto, limito-me a um aspecto dessa atualidade.

Nos anos 1840, quando desenvolveu, em parceria com Engels, a concepção materialista da História, Marx encontrou-se com o movimento da classe trabalhadora da época (Michel Lowy lembra os contatos com as sociedades secretas comunistas em Paris, as informações que Engels trazia sobre o cartismo inglês e o impacto da greve/revolta dos tecelões da Silésia) e desse encontro surgiu sua firme convicção de que aquela classe de proletários era potencialmente capaz de implodir não apenas a dominação burguesa, mas a própria divisão da sociedade em classes.1

Não há uma obra específica, ou uma redação definitiva nos escritos de Marx sobre a categoria classe trabalhadora, embora essa fosse uma das preocupações centrais tanto de sua análise crítica do mundo, quanto de seu projeto de transformação social. Há, entretanto, uma abundância de passagens e referências em seus textos sobre a classe, tanto em sua dimensão objetiva – do lugar social determinado pelas relações de produção em que se inseria – quanto do ponto de sua subjetividade – entendida no duplo sentido da consciência de classe e do seus potencial como sujeito da história.

Na teoria social contemporânea, porém, são recorrentes as análises que enfatizam que a classe trabalhadora definhou, perdeu centralidade, não possui mais (ou nunca possuiu) potencial revolucionário, ou adaptou-se à ordem do capital. Muitas dessas análises partem do declínio relativo do percentual da força de trabalho empregada no setor industrial das maiores economias capitalistas, para daí deduzir suas conclusões sobre o fim da classe, a adaptação do assalariado ou o predomínio do precarizado.2

Gostaria de partir de alguns dados sobre a classe trabalhadora em escala global, para em seguida resgatar a discussão de Marx, que continuo considerando muito mais rica e precisa para o entendimento da realidade dos “mundos do trabalho” na contemporaneidade.

 

Trabalhadores do Mundo! Hoje

 

A população global (em 2017) é estimada em cerca de 7,6 bilhões de pessoas e éramos menos da metade disso há 50 anos.3 Em 1950, apenas 30% da população mundial habitava as cidades. Em 2014, 54% do total de habitantes do mundo vive nos centros urbanos.4 Tal mudança, aceleradíssima para os padrões históricos da vida humana na terra, indica uma intensificação absurda do processo de proletarização nos últimos anos. Afinal, embora cresça também no campo a conversão ao assalariamento, a principal razão da migração campo-cidade é a expropriação completa daqueles que ainda encontravam meios de sobreviver principalmente do seu (e de sua família) trabalho agrícola, graças à propriedade ou posse de pequenos lotes de terra.

A urbanização, como se sabe, é mais antiga e consolidada nos países que viveram mais cedo o processo de industrialização, no Hemisfério Norte, considerados mais “desenvolvidos” e é mais recente e “agressiva” nos países do Hemisfério Sul, em que a industrialização é relativamente tardia e a produção interna de riquezas é menor. Tal diferenciação é fundamental para explicar determinados padrões demográficos que se refletem na composição da força de trabalho.

No mundo como um todo, a força de trabalho (entendida como a população maior de 15 anos empregada, desempregada à procura de emprego e procurando emprego pela primeira vez; e excluídos os trabalhadores não pagos, o trabalho familiar e os estudantes) foi estimada, pela Organização Internacional do Trabalho, através de dados do Banco Mundial para 2016, em 3,427 bilhões de pessoas. Em 1990, eram 2,342 bilhões de pessoas. Tomando esse intervalo de cerca de um quarto de século, o percentual da força de trabalho em relação ao total da população era de 44,31% em 1990 e em 2016 chegou a 46,04%. Há desequilíbrios regionais significativos, especialmente entre as economias nacionais do Hemisfério Norte, mais desenvolvidas e as do Sul global, onde se encontram as menos desenvolvidas. Entre aquelas 47 nações que a ONU considera menos desenvolvidas, por exemplo, a participação da força de trabalho na população total era de 40,59% em 1990 e atingiu os 42,27% em 2016. Desigualdades ainda maiores podem ser encontradas se adicionamos os dados geracionais e de gênero. O percentual de mulheres na força de trabalho esteve sempre ao redor dos 40%, ao longo do período 1990 (quando eram 39,54% do total) a 2016 (39,38%).5

Dados estimados pela OIT indicam que o número de pessoas empregadas no mundo cresceu no período recente: eram 2,614 bilhões em 2000 e em 2016 teriam chegado à 3,253 bilhões. Em termos de distribuição pelos setores da economia, ainda segundo a OIT, em 2000: 39,6% dessa força de trabalho era empregada na agricultura, enquanto 19,5% na indústria e 40,9% nos serviços. Já em 2016, eram: 29,1% na agricultura, 21,5% na indústria e 49,4% nos serviços.6

O crescimento dos postos de trabalho, porém, é insuficiente para absorver todos os trabalhadores que chegam anualmente ao mercado de trabalho em busca do primeiro emprego, 40 milhões por ano, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em relatório datado de 2015,7 além daqueles que estão desempregados.8 O relatório aponta cerca de 201 milhões de desempregados no mundo naquele mesmo ano, superior em 30 milhões ao total no início da nova fase da crise capitalista em 2008. As mulheres (ocupando cerca de 40% da força de trabalho, como vimos), foram as mais atingidas pela crise, respondendo por cerca de 73% do déficit de empregos.9 Também revelador é o dado de que cerca de 50% do emprego no mundo é assalariado, mas em regiões como a África Sub-Sahariana e o Sul Asiático, esse percentual cai a 20%. Além disso, estimava-se em menos de 45% o total de assalariados regulares, sendo quase 60% contratados em empregos temporários ou de tempo parcial. Entre esses trabalhadores “precários”, as mulheres também são maioria significativa.10

Com base nesses dados, a OIT afirma que a grande marca do mercado de trabalho mundial atual é a precariedade: “em resumo, o modelo do emprego padrão [estável e de tempo integral] é cada vez menos representativo do mundo do trabalho atual, pois menos de um em cada quatro trabalhadores está empregado em condições correspondentes a esse modelo”. Por outro lado, no que concerne à “produtividade” do trabalho, o mesmo documento constata uma “crescente divergência entre os ganhos do trabalho e a produtividade, com a última crescendo mais rápido que os salários na maior parte do mundo”.11

Com mais tempo, poderíamos mostrar como esses dados se complexificam quando abordamos casos nacionais específicos, quer do Norte, quer do Sul global. Ainda assim são suficientes para afirmarmos que a melhor referência para os compreender continua a ser o conceito de classe trabalhadora e as análises sobre as relações sociais no modo de produção capitalista desenvolvidas por Marx.

 

A classe trabalhadora em Marx

 

A expressão proletariado aparece, quase sempre, nos textos de Marx, associada àqueles que nada possuem, ou melhor, não possuem outra forma de sobreviver, numa sociedade de mercadorias, do que vender também como mercadoria a sua força de trabalho. Nos Manuscritos econômico-filosóficos, de 1844, criticando a “economia nacional” (expressão através da qual Marx se referia, então, à Economia Política clássica) ele recorria ao termo romano (do latim proletarius, que é definido apenas por si e sua prole, seus filhos) para definir pela ausência o “proletário”, como “aquele que, sem capital e sem renda da terra, vive puramente do trabalho, e de um trabalho unilateral, abstrato.”12

Por isso, a classe trabalhadora foi por ele definida de forma bastante ampla, como o conjunto daquelas pessoas que vivem da venda da sua força de trabalho, através primordialmente do assalariamento. Ao tratar da classe trabalhadora, mesmo em seus textos de crítica da Economia Política, Marx nunca a restringiu ao operariado industrial, nem através de uma associação restritiva com os submetidos ao que ele chamou “subsunção real” do trabalho ao capital, nem tampouco por uma definição que fechasse a classe no “trabalho produtivo” (que por sua vez também não foi definido como restrito aos trabalhadores fabris). Todas essas categorias demandam alguma explicação.

No chamado “Capítulo inédito” d’O Capital, Marx define a subsunção formal e a subsunção real do trabalho ao capital. Associando a primeira forma à mais-valia absoluta e a segunda à mais-valia relativa, Marx procura demonstrar que o processo se inicia pela subordinação direta dos trabalhadores aos capitalistas, quando estes passam, na condição de proprietários/possuidores dos meios de produção, a controlar o tempo e as condições de trabalho daqueles, que foram reduzidos à condição de proletários. O passo seguinte, da subsunção real, apresenta-se como decorrência da acumulação propiciada pela etapa anterior, e materializa-se pela “aplicação da ciência e da maquinaria à produção imediata”.13

No mesmo texto, Marx apresenta a distinção entre trabalho (e trabalhador) produtivo e improdutivo: “só é produtivo aquele trabalho – e só é trabalhador produtivo aquele que emprega a força de trabalho – que diretamente produza mais-valia; portanto, só o trabalho que seja consumido diretamente no processo de produção com vistas à valorização do capital.”14 Associando as duas distinções, Marx vai afirmar que com o desenvolvimento da subsunção real, “não é o operário individual, mas uma crescente capacidade de trabalho socialmente combinada que se converte no agente real do processo de trabalho total”, não fazendo sentido, pois, buscar o trabalhador produtivo apenas entre os que desempenham as tarefas manuais diretas.15

Indo além, não é o conteúdo do trabalho desempenhado, nem o setor da economia em que se desempenha esse trabalho que definirá o caráter produtivo do trabalho ou do trabalhador. Por isso Marx faz questão de exemplificar o trabalho produtivo, com figuras como a do artista, ou do professor, embora reconhecendo que eram exemplos em que a subsunção ao capital ainda era formal

“Se nos for permitido escolher um exemplo fora da esfera da produção material, diremos que um mestre-escola é um trabalhador produtivo se não se limita a trabalhar a cabeça das crianças, mas exige trabalho de si mesmo até o esgotamento, a fim de enriquecer o patrão. Que este último tenha investido seu capital numa fábrica de ensino, em vez de numa fábrica de salsichas, é algo que não altera em nada a relação.”16

Se o caráter produtivo do trabalho e do trabalhador não se define pelo emprego na grande fábrica (nem, portanto, pela subsunção real), tampouco a classe trabalhadora aparece como restringida aos que exercem trabalho produtivo. Pelo contrário, é a condição proletária e o assalariamento que a definem. Marx lembra, naquele mesmo texto, que nem todo trabalhador assalariado é produtivo, mas que mesmo os que exercem profissões antes associadas a uma auréola de autonomia (como os médicos, advogados, etc.) cada vez mais se viam reduzidos ao assalariamento e caíam – “desde a prostituta até o rei” – sob as leis que regem o preço do trabalho assalariado.17

Nessa mesma direção, é útil a recuperação que Alex Callinicos faz de uma passagem de O capital, para defender que em Marx, o conceito de proletariado, ou classe trabalhadora, é bastante amplo.18 A passagem é aquela em que Marx nota que

“o extraordinário aumento da força produtiva nas esferas da grande indústria, acompanhado como é de uma exploração intensiva e extensivamente ampliada da força de trabalho em todas as outras esferas da produção, permite empregar de modo improdutivo uma parte cada vez maior da classe trabalhadora”19

Para Callinicos, a passagem sugere que:

“Marx não identificou a classe trabalhadora com nenhum grupo particular de ocupações, como por exemplo, aquelas na indústria manufatureira: empregados domésticos são ‘parte da classe trabalhadora’, embora uma parcela improdutiva, no sentido de não criar mais-valia. Alinhado com o entendimento geral, relacional, de classe em Marx, o proletariado é melhor definido como: a) compelido, pela ausência de acesso aos meios de produção, a vender sua força de trabalho; b) o uso dessa força de trabalho no interior do processo de produção é submetido à supervisão e controle do capital e seus agentes. Por esse critério, a classe trabalhadora cresceu consideravelmente no presente século [o século XX]”20

Os dados apresentados anteriormente confirmam fartamente a perspectiva de Marx de que o avanço do capitalismo geraria a expansão da classe trabalhadora. E se o setor da classe empregado nas indústrias decresceu em termos relativos na maior parte das sociedades do Norte do globo, ele cresceu de forma absoluta e relativa com a expansão do emprego industrial no Sul global.

Marx também ajudaria os técnicos da OIT a explicar o crescimento da precariedade e o aparente paradoxo de um avanço da produtividade do trabalho ser acompanhado de um decréscimo do valor dos salários. Para ficar apenas em um exemplo na obra de Marx, que ressalta como a precariedade é condição estruturante da relação de trabalho assalariada (portanto, o tal “modelo do emprego padrão” foi uma excepcionalidade histórica restrita no tempo e no espaço), resgato o capítulo de O Capital sobre “A lei geral da acumulação capitalista” (o XXIII nas edições em português)

O capítulo é um dos momentos em que se explicita o entendimento totalizante que preside o conjunto da obra, ainda que Marx não a tenha concluído. Mais citado por ser o capítulo em que ele define a “superpopulação relativa”, ou “exército industrial de reserva”, é também um dos trechos de O Capital em que Marx melhor discute vários argumentos fundamentais para a compreensão de questões como a composição, a concentração e a centralização de capitais. São aspectos decisivos para a compreensão não apenas da dinâmica de valorização do valor, tal como explorada no Livro I, mas também para as discussões subsequentes dos Livros II e III, que foram rapidamente destacadas aqui.

Para chegar à “lei geral”, o capítulo apresenta um percurso expositivo dos mais ricos. Na primeira parte, Marx demonstra a demanda crescente de força de trabalho para a acumulação de capital, explicando a questão da composição do capital.

A relação entre meios de produção (capital constante) e força de trabalho (capital variável), que constitui essa composição do capital não pode ser explicada por leis simples de oferta e procura. Afinal, a incorporação de novas massas de força de trabalho é uma decorrência da conversão de novas áreas da vida social aos ditames do capital (gerando expropriações) e uma necessidade do processo de acumulação – “acumulação do capital é, portanto, multiplicação do proletariado”21. O crescimento da demanda capitalista por força de trabalho poderia confrontar-se com uma oferta insuficiente, o que acabaria por gerar um poder de barganha maior e, consequentemente, uma melhoria progressiva das condições salariais e das condições de existência da classe trabalhadora sob o capitalismo. Para a maior parte das explicações da economia política que Marx critica, a regulação dessa tendência seria dada pela própria dinâmica populacional e a resultante de largo prazo levaria a um equilíbrio entre oferta e demanda de força de trabalho que garantiria os lucros do capitalista e um padrão de vida digno para o proletariado. Marx, no entanto, explica que a demanda por força de trabalho é crescente quando a acumulação se dá sob uma “composição orgânica do capital” constante, condição que não corresponde à dinâmica real da acumulação capitalista. Nesta última prevalece a lógica da extração de mais-valor

Por isso, a demanda crescente por força de trabalho é contrabalançada pelo fato de que a acumulação capitalista leva à concentração e centralização de capitais, como resultado de um processo de alteração da composição orgânica do capital, tema da segunda parte do capítulo. No princípio da explicação de Marx está a discussão do aumento da produtividade do trabalho – expressa no “volume relativo dos meios de produção que um trabalhador transforma em produto durante um tempo dado”22 –, que está relacionada à crescente incorporação de tecnologia ao processo de produção. Assim, “seja ele condição ou consequência, o volume crescente dos meios de produção em comparação com a força de trabalho neles incorporada expressa a produtividade crescente do trabalho”.23

Um reflexo desse processo do crescimento da produtividade é, portanto, o aumento da fração de capital constante (valor dos meios de produção) em relação à de capital variável (valor da força de trabalho) na composição do capital. Marx segue sua exposição, explicando como, após o ponto de partida posto pelo processo de “acumulação primitiva”, a concorrência e o sistema de crédito impulsionam a concentração de capitais em volumes cada vez maiores (empresas maiores absorvendo empresas menores e/ou ocupando maiores fatias do mercado). Explica também o processo que leva os detentores de capitais capazes de incrementar a produtividade do trabalho e obter maiores taxas de mais-valor a seguirem incorporando mais espaço no mercado e/ou a propriedade de outras empresas, em um viés de centralização do capital.

Tendo em vista que a elevação da produtividade do trabalho é requisito e, cada vez mais, consequência desse processo, com a centralização “uma massa menor de trabalho basta para pôr em movimento uma massa maior de maquinaria e matérias-primas”.24 Uma decorrência necessária da centralização é, portanto, o decréscimo da demanda por trabalho. Esse é o contexto necessário para que Marx explore a seguir, na terceira parte do capítulo, a questão da “superpopulação relativa” ou “exército industrial de reserva”.

Após explicar como com “o avanço da acumulação modifica-se […] a proporção entre as partes constante e variável do capital”, Marx chama a atenção para o fato de que, “como a demanda de trabalho não é determinada pelo volume do capital total, mas por seu componente variável, ela decresce progressivamente.” Mas, o próprio processo de acumulação capitalista acaba por produzir, expandindo-se por novos territórios – físicos e sociais – uma população trabalhadora adicional, “relativamente excedente”, “suplementar”, “supranumerária”.25 Chega-se assim à enunciação daquela que Marx chama de “lei geral, absoluta, da acumulação capitalista”:

“Quanto maiores forem a riqueza social, o capital em funcionamento, o volume e o vigor de seu crescimento e, portanto, também a grandeza absoluta do proletariado e a força produtiva de seu trabalho, tanto maior será o exército industrial de reserva. A força de trabalho disponível se desenvolve pelas mesmas causas que a força expansiva do capital. A grandeza proporcional do exército industrial de reserva acompanha, pois, o aumento das potências da riqueza. Mas quanto maior for esse exército de reserva em relação ao exército ativo de trabalhadores, tanto maior será a massa da superpopulação consolidada, cuja miséria está na razão inversa do martírio de seu trabalho. Por fim, quanto maior forem as camadas lazarentas da classe trabalhadora e o exército industrial de reserva, tanto maior será o pauperismo oficial. Essa é a lei geral, absoluta, da acumulação capitalista. Como todas as outras leis, ela é modificada, em sua aplicação, por múltiplas circunstâncias, cuja análise não cabe realizar aqui.”26

Essa “superpopulação relativa”, que é “produto necessário” da acumulação, também se constitui em “alavanca” da acumulação capitalista, por representar um “exército industrial de reserva”, disponível para ser explorado pelo capital, independentemente do aumento populacional.27 A cada novo setor da economia ou região do globo desbravados pela expansão capitalista esse exército estará disponível para produzir mais-valor, na mesma medida que sua abundância garante ao capital a possibilidade de manter os salários dos efetivamente empregados em um nível suficientemente baixo para que os processos cíclicos de variação da taxa de lucro não signifique um freio definitivo à acumulação. Ao cabo desse percurso explicativo, Marx estará pronto para avançar, demonstrando que “toda a forma de movimento da indústria moderna deriva, portanto, da transformação constante de uma parte da população trabalhadora em mão de obra desempregada ou semiempregada.”28

Porém, a categoria analítica e o sujeito social historicamente contemporâneo a Marx – a classe trabalhadora – possui também uma dimensão subjetiva. Naquele mesmo capítulo de O capital, Marx apresenta uma síntese, introduz o elemento da conscientização dos trabalhadores sobre a lógica dessa exploração intensificada a que se submetem e, com isso, introduz a importância da luta de classes na explicação de todo o processo. Apresenta também mais uma crítica aos economistas políticos que, em sua incapacidade para explicar a questão da superpopulação relativa, não escondem a posição de classe à partir da qual defendem a “livre” negociação da força de trabalho. Dada a importância da sequência de argumentos, vale a pena uma citação mais longa:

“O capital age sobre os dois lados ao mesmo tempo. Se, por um lado, sua acumulação aumenta a demanda de trabalho, por outro, sua ‘liberação’ aumenta a oferta de trabalhadores, ao mesmo tempo que a pressão dos desocupados obriga os ocupados a pôr mais trabalho em movimento, fazendo com que, até certo ponto, a oferta de trabalho seja independente da oferta de trabalhadores. O movimento da lei da demanda e oferta de trabalho completa, sobre essa base, o despotismo do capital. Tão logo os trabalhadores desvendam, portanto, o mistério de como é possível que, na mesma medida em que trabalham mais, produzem mais riqueza alheia, de como a força produtiva de seu trabalho pode aumentar ao mesmo tempo que sua função como meio de valorização do capital se torna cada vez mais precária para eles; tão logo descobrem que o grau de intensidade da concorrência entre eles mesmos depende inteiramente da pressão exercida pela superpopulação relativa; tão logo, portanto, procuram organizar, mediante trades unions etc., uma cooperação planificada entre empregados e os desempregados com o objetivo de eliminar ou amenizar as consequências ruinosas que aquela lei natural da produção capitalista acarreta para sua classe, o capital e seu sicofanta, o economista político, clamam contra a violação da “eterna” e, por assim dizer, “sagrada” lei da oferta e demanda. Toda solidariedade entre os ocupados e os desocupados perturba, com efeito, a ação “livre” daquela lei.”29

Não conheço perspectiva analítica mais atual do que esta para o entendimento da classe trabalhadora e do mundo que habitamos. E quem interpreta o mundo dessa forma, não pode deixar de buscar transformá-lo. Esse foi o impulso vital de toda a obra e trajetória de vida militante de Karl Marx. Espero que continue sendo o nosso, 200 anos depois de seu nascimento.

1 Michel Lowy, A teoria da revolução no jovem Marx, Petrópolis, Vozes, 2002.

2 Não há aqui espaço para comentar a extensa lista dos que deram “adeus ao proletariado”, muito menos seus argumentos. Faço alguns comentários sobre esse debate no segundo capítulo de Marcelo Badaró Mattos, E. P. Thompson e a tradição de crítica ativa do materialismo histórico, Rio de Janeiro, Edufrj, 2012.

3 Os dados da população mundial e as perspectivas de crescimento futuro podem ser encontrados no relatório da ONU, World Population Prospects The 2017 Revision, disponível em https://esa.un.org/unpd/wpp/Publications/Files/WPP2017_KeyFindings.pdf, última consulta em julho de 2017.

4 World urbanization prospects, New York, United Nations, 2014, disponível em http://esa.un.org/unpd/wup/Highlights/WUP2014-Highlights.pdf, última consulta em junho de 2017.

5 Conforme os dados dos vários tópicos relativos a emprego e gênero do Banco Mundial, disponibilizados em sua base digital http://data.worldbank.org, última consulta em julho de 2017.

6 As planilhas de dados sobre emprego no mundo da OIT podem ser consultadas em http://www.ilo.org/global/statistics-and-databases/lang–en/index.htm, última consulta em junho de 2017.

7 OIT, World employment, and social outlook 2015: The changing nature of jobs, Geneva: ILO, 2015, p. 13.

8 A taxa de desemprego no mundo, segundo o Banco Mundial, em 2016 era de 5,75%. Os dados do Banco Mundial podem ser encontrados em http://data.worldbank.org/indicator/SL.UEM.TOTL.ZS

9 OIT, World employment, p. 18.

10 Ibidem, idem, p. 13.

11 Ibidem, p. 13

12 K. Marx, Manuscritos econômico-filosóficos, São Paulo, Boitempo, 2004, p.30.

13K. Marx, O Capital, Livro I, Capítulo VI (Capítulo inédito),São Paulo, Ciências Humanas, 1978, p. 66.

14Ibid., p. 70.

15Ibid., pp. 71-72.

16 K. Marx, O Capital, Livro I, São Paulo, Boitempo, 2013, p. 578.

17K. Marx, O Capital, Livro I, Capítulo VI (Capítulo inédito), p. 73.

18 Alex Callinicos, Making History, Chicago, Haymarket, 2009, p. 218.

19 K. Marx, O Capital, Livro I, p. 518.

20Alex Callinicos, Making History, p. 218.

21 Karl Marx, O Capital, Livro I, p. 690.

22 Ibidem, idem, p. 698.

23 Ibidem, idem, p. 699.

24 Ibidem, idem, p. 704.

25 Ibidem, idem, pp. 705-706.

26 Ibidem, idem, pp. 719.720 (grifos de Marx).

27 Ibidem, idem, p. 707.

28 Ibidem, idem, p. 708.

29 Ibidem, idem, pp. 715-16.