Niko Schvarz*

colombia-la-escombreraNa madrugada de quinta-feira, 6 de agosto, no lixão de La Escombrera, comuna 13 de Medellín, departamento de Antioquia, Colômbia, iniciaram a tarefa de busca de desaparecidos depositados em fossas comuns. É outro ponto dos acordos entre o governo de Juan Manuel Santos e a guerrilha das FARC-EP no diálogo de paz de La Habana.

Começaram as escavações à toda máquina, segundo se pode ver por Telesur. As mães dos desaparecidos denunciaram que receberam ameaças dos paramilitares, sem dúvida autores dos sequestros e assassinatos. As autoridades colombianas nomearam 20 profissionais especializados para a investigação e esperam exumar pelo menos 90 corpos num prazo de cinco meses, ou até o final do ano.

A comoção domina a população de La Escombrera, de uns 250 mil habitantes, muitos deles marginalizados. Vimos na tela as feições de dor dos familiares que sofreram em carne próprio os desaparecimentos forçados.

Reclamavam em voz alta o cessar da impunidade que protege os assassinos. A fundação “Parque dos sonhos dos justos” colabora com as tarefas. O objetivo é entregar a seus familiares os corpos das vítimas para uma sepultura digna. Muitas mães chegaram ao lugar caminhando, para estar presente no início das escavações. Vieram acompanhadas das irmãs de uma congregação religiosa que foram testemunhas do massacre perpetrado naquele momento por paramilitares. As pessoas que chegaram a La Escombrera, considerada a maior fossa comum urbana do mundo (24 mil metros cúbicos), vestiam camisetas estampadas com as palavras de ordem de: “Cessar fogo bilateral”. Reivindicam o término da impunidade, podem que se julguem e condenem os culpados, cavando a verdade e desenterrando a justiça. Foi disposto um sistema de iluminação para toda a área para que possam trabalhar durante as noites. A prefeitura de Medellin agora está colaborando em todos os aspectos com o trabalho, contrastando com a atitude das autoridades em anos anteriores, durante os quais se continuou jogando lixo sobre as fossas comuns.

Complementarmente, a Procuradoria iniciou realização de provas de DNA a familiares dos desaparecidos, começando precisamente nessa comuna de Medellín. Ao mesmo tempo iniciaram operações com varre-minas para desativar bombas nos campos, primeiro em Antioquia, processo de comum acordo que avança satisfatoriamente.

Paralelamente, o governo colombiano resolveu integrar ao processo de diálogos com as FARC um grupo de assessores especializados sobre o tema da justiça: o presidente da Corte Constitucional, Manuel José Cepeda, o reitor da Universidade Externado de Colombia, Carlos Henao, e o catedrático estadunidense Doug Cassel, especialista em direitos humanos. As medidas a serem adotadas incluem um plano para o “desescalonamento” (tal neologismo utilizado nos documentos), com metas bem precisas. Em primeiro lugar acordar sem delongas um cessar fogo definitivo que inclua um sistema de monitoramento e verificação.

Tudo isso em cumprimento dos acordos gestados en La Habana, onde prossegue o diálogo, superando obstáculos e dificuldades de diferentes tipos, e cercado de uma crescente solidariedade internacional em todos os níveis.

Nesse sentido destaca-se o apoio expresso da ONU ao processo de paz na Colômbia, formulado pelo secretário geral Ban Ki-Moon, ao mesmo tempo em que seu secretário geral adjunto para Assuntos Políticos, Jeffrey Feltman, anunciou o enviou de uma equipe de especialistas a La Habana para colaborar na busca de solução para o conflito.

Essa equipe vai assessorar à Comissão para a Paz, que analisa as possibilidades de um cessar fogo bilateral e duradouro ao mesmo tempo em que prosseguem com o trabalho em comissões com o triplo objetivo de chegar ao conhecimento da verdade, outorgar reparações aos familiares dos desaparecidos (tudo isso, por sua vez, se relaciona com o que ocorre neste momento em Medellín) e assegurar que esses fatos não se repitam.

Nas tarefas de monitoração e verificação do cessar foto e da pacificação foi integrado o ex ministro de Defesa Nacional do Uruguai, José Bayardi, em representação da Unasul, que viaja à La Habana acompanhado de um militar retirado de alta patente e especializado nestes temas. O Uruguai está comprometido devido a sua tradição na defesa da paz e de solução pacífica das controvérsias, tema que foi enfatizado por Bayardi, diante desse conflito que tem mais de 50 anos de iniciado. Na recente VII Cúpula das Américas transcorrida no Panamá, o presidente Tabaré Vázquez ratificou seu apoio ao processo de paz na Colômbia.

*Colaborador de Diálogos do Sul, de Montevideu, Uruguai.