Stella Calloni, neste amplo e completo dossier, revela tudo o que se deve saber sobre o suicídio do promotor Alberto Nisman,  ocorrido em 18 de janeiro na Argentina. Uma novela que envolve os serviços de inteligência locais associados a CIA e ao Mossad. O envolvimento dos meios de comunicação para confundir a opinião pública e servir aos interesses dos Estados Unidos e Israel na guerra que travam contra o mundo islâmico e contra os governos progressistas da América Latina.

Stella Calloni

Stella Calloni PerfilEstadunidenses e israelitas manipularam, desde o início, a investigação de um cruento atentado na Argentina em 1998. Por quase duas décadas buscaram acusar o Irã, mas nem uma só prova puderam oferecer. O último promotor do caso reportava secretamente à inteligência estadunidense os avanços na investigação e consultava sobre o rumo que tomariam as pesquisas.

Com a morte deste funcionário argentino, agora Estados Unidos busca fazer uma jogada de três lances: além de implicar o sempre incômodo Irã, agora que está orquestrando um “golpe brando” contra a presidenta Cristina Fernández. De prosperar essa manobra, em seguida sería Venezuela, para debilitar o bloqueio de países sul-americanos que colocaram um dique às ambições de Estados Unidos na região.

Caso amiaNo dia 18 de janeiro de 2015, o promotor Alberto Nisman, a frente da Unidade Especial que investigava a causa sobre o cuento atentado contra a Associação Mutua Israelense Argentina (AMIA) em 18 de junho de 1994, foi encontrado morto com um disparo na cabeça, no banheiro de seu apartamento e com todas as portas de sua casa fechada por dentro. Quatro dias antes tinha apresentado uma denúncia, sem prova alguma, mal redigida e com sérias contradições, em que acusava a presidenta da nação, Cristina Fernández de Kirchner, o chanceler Héctor Timerman, e a outras pessoas, de tentar encobrir a funcionários iranianos acusados -sem provas- de se culpados do atentado. Em poucos dias se tinha colocado em marcha um golpe encoberto de origem externa.

O promotor tinha sido designado para essa investigação em 2004, depois de dez longos anos, quando se encerrou o mais escandaloso e irregular julgamento da história sem conseguir encontrar os culpados do atentado que deixou 85 mortos e centenas de feridos. Esta fato aparece como um elo mai de um golpe em desenvolvimento, em que participam um setor do aparato judicial argentino, a oposição, os meios de comunicação de massa junto com a CIA (Agência Central de inteligência dos EUA) e o Mossad, de Israel.

Para entender isso é preciso entender do que se trata o caso AMIA e conhecer as graves irregularidades cometidas com a entrega, na década de 1990, da investigação aos serviços de inteligência estadunidense e israelense, que operaram conjuntamente com o grupo da Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE) argentina.

Investigação sob controle externo

O cruento atentado comoveu o país. O juiz que ficou a cargo da investigação, em julho daquele ano, foi Juan José Galeano, que começou sua atuação sob pressão claramente perceptível.

Em só 24 hora, a inteligência israelense -que enviou seus homens para colaborar desde as primeiras horas da ocorrência- e a CIA acusaram a República Islâmica do Irã e o Hezbolá do Líbano, sem provas.

Sem sequer ter iniciado a investigação, ofereceram uma testemunha importante ao juiz argentino Galeano, que viajou a Venezuela para entrevistá-la.

O homem se chamava Manouchehr Moatamer e se apresentou como um ex funcionario iraniano, que tinha fugido de seu país e que acusava o governo do Irã de ser responsávell pelo atentado, sem nenhuma prova. Suas declarações erráticas se derrubaram em pouco tempo. Quer dizer, a CIA e o Mossad tinham vendido à justiça argentina um falso testemunho.
Moatamer se tinha ido do Irã com sua família em 1993. Falta saber como chegou a Venezuela em 1994 e como terminou finalmente em Los Angeles, Estados Unidos, como “testemunha protegida da CIA”.

A causa de Galeano prosseguiu navegando em um mar de irregularidades. Porém ainda em 1997, o juiz foi novamente ver a Moatamer, nos Estados Unidos, quem nada acrescentou a seu testemunho anterior. Em 2008, Moatamer finalmente confessou que tinha mentido para obter a visa estadunidense.

Em 1998, novamente a CIA e o Mossad ofereceram outro suposto testemunho, neste caso radicado na Alemanha, Abolghasen Mesbahj, chamado o “testemunha C”. Mesbahi tinha sido deslocado em 1989 se algumas tarefas menores para a inteligência iraniana, suspeito de ser agente duplo. Dedicou-se à atividade privada e realizou uma serie de estafas, depois do que foi para a Alemanha onde se radicou desde 1996.

Nessa época, Mesgani acusou o Irã de ser autor de cada um dos “atentados terroristas” ocorridos no mundo não esclarecidos -o que sempre sucede com os atentados de falsa bandeira- como o de Lockerbie, na Escócia e outros.

O “testemunho C”, que ficou famoso pelo mistério que envolvia seu nome, viu uma nova oportunidade acusando a Irã, com anuência dos serviços alemães, estadunidenses e israelense do atentado à AMIA.

Sem provas, contou sua versão na Alemanha diante de um juiz nacional e o juiz argentino Juan José Galeano, que viajou para esse país em 1998.

“Mesbahj declarou cinco vezes, sob juramento no processo e nos cinco pontos essenciais deu cinco versões diferentes e contraditórias, que não poderiam jamais servir como prova. Só palavras e palavras, e, claro, conjecturas e deduções de inteligência”, resume o advogado Juan Gabriel Labaké em seu livro AMIA-Embaixada, verdade ou fraude?

O advogado Labaké, certamente não governista, viajou a Teerã, Europa e Estados Unidos, reunindo dados e entrevistando-se com importantes fontes e finalmente chegou à conclusão de que não existiam provas contra o Irã no processo da AMIA, nem sob a direção de Galeano, nem sob a do promotor Nisman, que so recopilou e reescreveu os expedientes de seu predecessor y lhes deu certa ordem mas, sempre acusando o Irã, como ordenaram Washington e Tel Aviv.

O jornalista Gerth Porter, do The Nation, em artigo publicado em 16 de maio de 2010, escreveu que o embaixador de Estados Unidos na Argentina no momento do atentado à AMIA, James Cheek, disse-lhe em entrevista:
“Que eu saiba não há nenhuma evidência real da participação iraniana. Nunca provaram nada.”

O estranho é que quando Nisman acusa o Irã em 2006 já se sabia que ambos os testemunhos não eram confiáveis e que a justiça britânica inclusive tinha rechaçado por falta de provas, um pedido de extradição contra o ex embaixador iraniano na Argentina, Hadi Soleimanpour. O diplomata iraniano estava fazendo um curso em Londres que o detiveram em 2003 até que a negativa de extradição. Porém tiveram que liberta-lo em 2004 e pagar-lhe uma indenização de 189 mil libras esterlinas.

Também a Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) devolveu um primeiro pedido de alerta vermelha por falta de provas e, um segundo pedido em 2013, que permanece nos dias de hoje, por especial solicitação do governo de Cristina Fernández de Kirchner e o chanceler Héctor Timerman, tampouco tem o fundamento das provas que o juiz Rodolfo Canicoba Corral pediu a Nisman que investigase. Agora se sabe que Nisman não tinha conseguido reunir provas, mas somente simples deduções de inteligência que não servem à Justiça nem à verdade.

O primeiro processo da AMIA devia ter sido encerrado por escândalos e irregularidades graves, uma das quais consistiu em que o juiz Galeano, com apoio do então presidente da Delegação de Associações Israelenses -Argentinas (DAIA), Rubén Beraias, pagou 400 mil dólares a um desmonte de carros roubados, de Carlos Telledin, para que acusara a diplomatas iranianos e a policiais da província de Buenos Aires.

Estes últimos estiveram cinco anos detidos e puderam ser libertados por absoluta falta de provas, sem vinculações com a causa. Assim escandalosamente terminou esse processo.

A emaranhada rede de falsidades e mentiras, pressões e interesses contida nos expedientes da causa do cruento atentado con a mútua judía AMIA obrigou a terminar o processo em 2004, e o então presidente Néstor Kirchner (2003-2007) exortou à justiça a aprofundar a investigação até a encontrar a verdade.

Criou-se então a Unidade Especial ao Proceso AMIA que, por decisão da Procuradoria ficaria em mão do promotor Alberto Nisman, o que surpreendeu, pois o próprio Nisman também já tinha sido parte do fracassado processo iniciado em julho de 1994 e encerrado dez anos depois sem nada ter apurado.

O caso Nisman

Nisman começou em 1997, em Morón, província de Buenos Aires, a trilhar seu caminho rumo a atual Promotoria. Em sua história há um caso que marcou sua trajetória que foi a investigação sobre o destino de Iván Ruiz e José Díaz, dois dos participantes no fracassado ataque ao quartel de Tablada, em janeiro de 1989, dirigido pelo ex chefe guerrilheiro Enrique Gorriarán Melo, durante o governo democrático de Raúl Alfonsín. Ambos os detidos, depois de cruento enfrentamento que deixou vários mortos e feridos, foram vistos pela última vez brutalmente torturados e levados por militares e policiais em um automóvel Ford Falcon.

Até agora estão desaparecido, porém Nisman e um juiz que o colocou a cargo da investigação apoiaram a versão oficial do Exército de que “tinham sido mortos em combate”, apesar das evidências do desaparecimento forçado.

Em julho de 1997, o então procurador geral Nicolás Becerra o convocou para somar-se aos promotores que investigavam o atentado contra a mútua judía AMIA, Jose Brbaccia e Eamon Mullen, por pedido expresso de ambos.

De acordo con Infojus Notícias de Argentina, “a equipe de Nisman, Barbaccia e Mullen trabalhou até o juizo oral, mas não terminou bem”. Durante esse julgamento da chamada “conexão local”, muitos testemunhas disseram que eles e o juiz Juan José Galeano tinham cometido uma serie de irregularidades que se comprovaram.

Ao final do debate, o Tribunal Oral absolveu o delinquente Carlos Telleldin, a quem o mesmo juiz entregou 400 mil dólares para que acusasse a funcionarios iranianos e a policiais, com a aprovação de Rubén Berajas, então presidente da poderosa Delegação de Associações Israelenses Argentinas.

Nos fundamentos da sentença se acusa Galeano -que terminou destituido e processado-, sua equipe e os promotores Mullen e Barbaccia, também processados.

“No julgamento oral ficou demonstrado que não se investigou absolutamente nada” na Causa AMIA, afirmou o Infojus Notícias para o advogado Juan Carlos García Dietze, defensor de Ariel Nizcaner, que foi absolvido de ter participado na adulteração da caminhoneta Traffic, qu supostamente teria sido utilizada no atentado.

“Sempre houve um tema paradoxal: Barbaria e Mullen ficaram imputados, e Nisman continuou no cargo. É estranho”, ponderou García Dietze.

Em 2004, Nisman já encarregado da Unidade Especial para concentrar todas as investigações vinculadas ao atentado, aproxima-se de um homem chave da então Secretaria de Inteligência do Estado, a antiga SIDE, Antonio Stiusso, aliás “Jaime”. Este tinha sido deslocado da Causa AMIA por ser parte das irregularidades do processo, mas com Nisman recuperou um lugar de importância. Ambos trabalham com a CIA e o Mossad.

A Unidade Especial recebia importante somas de dinheiro para investigar. Porém Nisman só se dedicou a classificar os expedientes de Galeano e continuou responsabilizando os iranianos, sem ter produzido, nos últimos dez anos, nenhuma prova para confirmar a acusação. eu primeiro pedido de alerta vermelho contra os 12 iranianos, diplomatas e funcionarios acusados, foi devolvido por falta de provas. Como sucedeu com o pedido de extradição enviado a Londres contra o ex embaixador iraniano na Argentina, Hadi Soleimanpour, quando a justiça britânica devolveu a solicitação por falta de provas, indenizando o diplomata em 2004. Uma vergonha para a justiça argentina.

Nisman e a Embaixada de Estados Unidos

Durante dez longos anos, os expedientes da investigação de Nisman, foram incorporando “informes fundados em deduções e armações” sem prova real, impossível de comprovar, que provinham da CIA e do Mossad, tal como fizeram ao proporcionar-lhe os falsos testemunhos.

Em 2010, cuando se publicou na Argentina, uma série de telegramas secretos concernentes ao caso AMIA, do Departamento de Estado de EUA, revelados por WikiLeaks, ficou evidenciado que o promotor Nisman antecipava as medidas que ia tomar nesta causa a diplomatas dessa Embaixada.

Estas revelações não provocaram nenhuma medida chave, como a de separar o promotor dessa causa já que não poderia ser “juiz e parte”, como sucedia em sua relação de subordinação a Estados Unidos e Israel.

A pista iraniana não conseguia reunir provas concretas, mas sem dúvida favorecia os interesses geopolíticos de ambos os países, que continuam tentando invadir o Irã, vinculando esta situação com o anunciado plano imperial do um Oriente Médio ampliado, que significou invasões e ocupações coloniais de vários países nessa região no século XX. Jamais a inteligência estadunidense ou israelense deveriam ter participado, monitorado e armado a Causa AMIA.

Em um despacho de 22 de maio de 2008, da sede diplomática estadunidense em Buenos Aires, se especificava: “Os oficiais de nosso Bureau Legal recomendaram ao promotor Alberto Nisman que se concentre nos que perpetraram o atentado e não nos que desviaram a investigação”

Isso, precisamente quando o então juiz federal Ariel Lijo ordenou a detenção e o inquérito ao ex presidente Carlos Menen, se seu irmão Munir -ja falecido-, do então titular da SIDE, Hugo Anzorreguy e outros, como o magistrado Juan José Galeano e doe ex comissário jJorge Palácios, por encobrirem o atentado.

Nisman não tinha informado essa medida a Embaixada estadunidense como fazia normalmente. Outros telegramas revelados por WikiLeaks demonstram que o promotor da Causa AMIA tinha se desculpado com os oficiais estadunidenses por não ter antecipado os pedidos de detenção. Há varios telegramas referentes ao tema, publicados pelo jornalista Guillermo O’Donell.
Já em 2013, Memoria Activa e familiares e amigos das vítimas do atentado de julho de 1994 se pronunciaram pelo afastamento de Nisman da Causa AMIA. Em novembro de 2013, em uma carta aberto ao promotor, os familiares apoiaram o Memrandum de Entendimento entre Argentina e Irã e questionaram “a falta de compromisso de Nisman e a paralisia da causa”, por considerá-lo “funcional aos interesses dos que sempre nos querem distanciar da verdade”.

O Memorandum de Entendimento com o Irã é um verdadeiro documento de política exterior que podia sentar procedentes n a solução de conflitos sem saída, como era o caso AMIA. Tratava-se de que os juízes da Causa AMIA pudessem ir a Teerã para indagar, diante da presença de uma Comissão de personalidades reconhecidas e neutras, aos altos funcionarios iranianos acusados -sem provas- do atentado. Por primeira vez se poderia saber a verdade, fosse a que fosse.

Ao completar vinte anos do atentado, em 19 de julho de 2014, os familiares das vítimas não declararam uma vez mais pelo esclarecimento do fato, como também solicitaram formalmente que se afastasse Nisman do caso por ter “mostrado sua total incapacidade para investigar nesta Causa”, como denunciou então Diana Malamud de Memoria Activa.

Irã sempre ofereceu sua cooperação, porem a CIA e o Mossad rechaçavam qualquer possibilidade. Nenhum pa’[is soberano no mundo iria entregar a um grupo d funcionarios acusados sem que se apresentasse as provas necessárias à justiça de terceiro países. Inclusive surgiu do Irã uma proposta de criar uma Comissão Mista, argentina-iraniana para investigar a causa AMIA.
No Irã não existe extradição e por isso o governo de Cristina Fernández de Kirchner tratou de encontrar um caminho, que foi rechaçado incompreensivelmente pelo governo de Israel.

A DAIA e a ANIA, que em princípio tinham apoiado o Memorandum tiveram que obedecer o mandato de Israel. A oposição argentina rapidamente se aliou a esse rechaço e surgiram juízes que declaravam a inconstitucionalidade da lei, o que era uma aberração jurídica.

Irã ficou na expectativa diante dessa situação. O que ninguém sabia é que, com base em falsas denúncias, convergiriam esse tema em uma manobra golpista contra o governo de Fernandez de Kirchener, o que mais trabalhou em favor da verdade, como se pode constatar nos esforços diante da ONU e no próprio Memorandum.

Em 12 de janeiro de 2015, em plena Feira Judicial, interrompendo uma viagem que realizava por países da Europa para festejar o aniversário de 15 anos de uma de suas filhas, o promotor Alberto Nisman, a frente da investigação sobre o atentado contra a mútua AMIA decidiu regressar imprevistamente a Argentina, segundo ele mesmo comunicou a seus amigo mais chegados em mensagem de WhatsApp.

Somente um dia depois de chegar a Buenos Aires, Nissman anunciou que apresentaria uma denúncia contra a presidenta da nação, o chanceler, o deputado Andrés Larroque, dirigente do movimento juvenil La Cámpora e contra dois dirigentes sociais, Luis D’Elia e Fernando Esteche, por tentativa de presumível encobrimento dos iranianos acusados através de um pacto secreto com o Irã por “intercambios comerciais”, um pacto que nunca existiu.

Trama de guerra suja

Em 18 de janeiro, Nisman foi encontrado morto, como se sabe, em seu apartamento. E a rigorosa investigação continua para não deixar nenhum espaço para dúvida em sua conclusão final.

A Feira Judicial permitia a Nisman eleger o juiz e buscou a Ariel Lijo, homem de causas criadas contra funcionários governamentais por denúncias fundadas em informações jornalísticas e sem provas. Em 14 de janeiro Nisman apresentou a denúncia, gerando um grande escândalo, sem apontar prova de suas incriminações, mas tampoco nada sobre o atentado que matou 85 pessoas em 1994.

De imediato a diligencia opositora saiu a respaldá-lo porque esta notícias permitia que montassem um ataque brutal contra o governo em ano eleitoral.

Nisman prometia dar a conhecer escutas telefônicas (ilegais até agora) para justificar sua acusação e, em 19 de janeiro falaria de sua denúncia diante da Comissão de Legislação Penal da Câmara de Deputados, convocado pela oposição, e também seria ouvido pela situação, que pedia que o evento fosse público e não fechado.

As desculpas transmitidas ilegalmente por um canal de televisão opositor de conversações entre dirigentes sociais e uma pessoa da comunidade islâmica jamais poderiam se provas de nada, Porém, em 19 de janeiro, a morte de Nisman comissionava o país, atraindo a atenção também fora da Argentina.

Nas declarações que fez diante da promotoria, a ex esposa de Nisman, a juíza Sandra Arroyo Salgado, que estava em Barcelona, Espanha, com outra das filhas do matrimônio, disse que Nisman a chamou em 12 de janeiro do Aeroporto de Barajas, em Madrid, para dizer que devia regressar urgentemente a Buenos Aires porque sua mãe ia ser operada de um braço e que logo voltaria a Europa para continuar sua viagem.

Arroyo Salgado disse ter discutido porque se negou a que Nisman regressasse com sua filha a Buenos Aires e concordaram em que a deixava no aeroporto para que sua mãe a recolhesse de Barcelona.

Acrescente-se que até a mãe de Nisman, Sara Garfunkel, declarou no Processo que ela já tinha sido operado do braço antes. Nissan tinha mentido a sua familia num regresso muito apressado.

Por isso a pergunta é: quem chamou Nisman tão urgentemente para apresentar uma denúncia a só dois dias depois de seu regresso, nada menos que contra a presidenta?

A promotora que agora investiga a morte de Nisman, Viviana Fein, evidentemente sob intensa pressão, disse que o morto tinha a passagem de regresso para o dia 12 de janeiro comprada em 31 de dezembro. Isso coloca outra interrogante: Por que enviou uma mensagem de WhatsApp a seus amigos mais próximos, segundo informou a própria imprensa opositora antes que o juiz revelasse a compra antecipada da passagem, de que tinha que regressar de forma intempestiva? Ou era uma trama urdida de antemão?

A incriminação foi a notícia bomba no começo do ano eleitoral e a deputada direitista, Patricia Bullrich, da Unión Por Todos-Propuesta Republicana, organizou rapidamente para que Nisman explicasse a denúncia a uma Comissão do Congresso.
Bullrich, que falou varias vezes com o juiz antes da sua morte, está vinculada a varias fundações estadunidense  na Argentina e da mesma maneira a deputada Laura Alonso, ambas conhecidas por apoiar os setores mais fundamentalistas de Estados Unidos contra Cuba, Venezuela, Argentina ou qualquer dos países chaves na integração latino-americana.

No domingo 18 de janeiro de tarde, o juiz Nisman foi encontrado sem vida, por sua mãe, chamada pelos protetores diante da falta de resposta. O apartamento estava fechado por dentro, inclusive a porta de serviço, que tem duas fechaduras; a de cima, que podia ser aberta pela mãe, mas a de baio tenha uma chave travada por dentro e tiveram que chamar um serralheiro para que fosse aberta.

O corpo de Nisman obstaculizava para abrir a porta do banheiro. Tinha um disparo na cabeça, uma pistola e uma cápsula de bala calibre 22 estava no chão a seu lado. Uma imagem desoladora. Tinha 51 anos. E os primeiros resultados da autopsia realizada por reconhecidos forenses com presença de peritos especialistas determinaram que “não havia intervenção de terceiros”.

Toda informação, inclusive a que se conheceu depois, mencionava um só dispara a pouco mais de um centímetro da têmpora direita, o que levava a pensar em suicídio. A morte foi classificada como ‘duvidosa” até que se termine as perícias, algumas repetidas par que não fiquem dúvidas.

A presienta Fernández de Kirchner, em sua primeira carta no Twitter, nunca disse que foi um suicídio. Inclusive colocou em dúvida al escrever a palavra entre pontos de interrogação. E em sua segunda carta sustentou com maior precisão que não acreditava em suicídio. Em todo caso em um suicídio induzido, e não precisamente pelo governo, já que, na realidade, é o governo o único afetado neste jogo de serviços de inteligência estrangeiros e locais e da oposição interna, majoritariamente dependente de Washington e suas fundações.

Na Bolívia, o presidente Evo Morales definiu certeiramente esta situação: armaram uma emboscada à presidenta argentina, disse ao denunciar os fatos.

É de um simplismo aterrador pensar que um governo a cuja presidenta se acusa, sem prova alguma, com uma denúncia tão deficiente que nem sequer parece redigida por um promotor, pudesse interessar a morte deste.

A oposição política local, que já armou vários cenários golpistas no país, tomou o fato como uma bandeira para acusar o governo. Os meios de comunicação e especialmente o Grupo Clarin, que se nega a cumprir a Lei de Meios Audiovisuais que deve liquidar com os nefastos monopólios midiáticos, começaram a especular confundindo a população cativa de esse enorme poder desinformante.

É tal a intoxicação informativa que ninguém sabe distinguir entre o informe da Promotoria Investigadora e os “julgamentos paralelos” espetacularizados pela televisão.

Foi o governo que insistiu para que a reunião no Congresso fosse pública, ou seja, para que todo mundo pudesse ver o que la se debateria, o que curiosamente a oposição rechaçava. Os legisladores governistas, desde o primeiro momento em que Bullrich convocou a audiência especial, afirmaram que concorreriam para interrogar profundamente o Juiz com a determinação de ir a fundo no assunto. A morte do juiz o impediu.

A morte de Nisman está sendo utilizada de uma maneira perversa pelos meios de comunicação da oposição e por toda a rede de desinformação mundial a serviço do poder hegemônico, tentando responsabilizar o governo em uma das campanhas mais duras que se recorde.

O golpismo encoberto está sendo desenvolvido por um setor do Poder Judicial, uma estrutura decadente que nunca se democratizou,  e pelos meios de comunicação de massa, a oposição e a ação dos serviços de inteligência locais que foram desalojados pelo Executivo e que existiam durante a passada ditadura e antes dela. E, sem dúvida alguma, por Estados Unidos e Israel.

O Estado israelense publicou nos Estados Unidos um breve comunicado na manhã de 19 de janeiro de 2015 sobre a “trágica circunstância” da morte de Nisman, termo que se utiliza para descrever um suicídio, e no mesmo día o secretario geral da DAIA, Jorge Knoblovits, disse aos meios argentinos -como está registrado- que “acreditavam ter sido suicídio” e que essa entidade estava preocupada com o destino da Causa. Po que logo mudaram de rumo?

Seguindo os lineamentos do Estado israelense, exortavam a continuar com a Causa – como se alguém tivesse falado em abandoná-la – e isto não se pode perder de vista- manter a acusação contra o Irã, o que significa continuar no círculo fechado que começou em julho de 1994 com pistas e testemunhos falsos. O que há nas sombras desta Causa?

Na cena do crime

O colaborador próximo do juiz falecido, Diego Lagomarsino, ‘especialista em informática”, contratado por Nisman com um salário inusualmente altíssimo, foi visitar o promotor no sábado 17 de janeiro. Ele mesmo se apresentou espontaneamente à justiça para dizer que tinha levada uma arma velha, a pistola calibre 22 com que logo o juiz se “suicidou”.

Primeiro disse que Nisman lhe pediu a pistola para se defender. Porém, na realidade, Lagomarsino este duas vezes no edifício em que vivia o juiz, supostamente seguro e altamente vigiado, como acontece com os compradores de apartamento nesse lugar. Da última visita na noite não ha registros de saída. A investigadora Fein disse, tal como foi publicado, que Lagomarsino saiu no domingo pela manhã, ou seja, no dia seguinte à morte de Nisman.

A denúncia publicada integra no dia 20 de janeiro é absolutamente uma peça sem valor jurídico por sua redação, suas contradições e a ausência de provas. As escutas telefônicas ilegais, que um canal de televisão da oposição deu a conhecer, também violando toda norma, não acrescentam nada, ao contrário, resultam pueris. Reconhecidos juristas alertaram que ainda que tudo o que se disse fosse certo não constitui delito porque nada disse foi realizado.

O curioso -e desconhecido no meio-  jornalista colaborador no sítio de internet do Buenos Aires Herald, Damián Pachter, que na noite de 18 de janeiro deu por Twitter e sem avisar a seu meio, a primicia de que tinha sido encontrado morto o juiz Nisman, decidiu abandonar o país alegando estar “com medo”. Primeiro comprou uma passagem de ida e volta para o Uruguai, mas logo apareceu em Tel Aviv.

O estranho nisso é que sai para o Uruguai e segue para Israel, onde diz que pediu refúgio. Logo se fica sabendo que Pachter é argentino-israelense e que viajou com seu passaporte de Israel. Por que pediu asilo, se era cidadão israelense e esteve tres anos no exército desse país?

Logomarsino também estava gestionando a atualizaçao de seu passaporte, par o que compareceu nos departamentos pertinentes no mesmo dia 12, quando Nisman ornou pública sua imputação. Imediatamente depois da morte de Nisman as autoridades lhe retiveram o documento e o proibiram deixar o país.

A suspeita sobre Pachter aumentou quando deu aos meios europeus várias entrevistas falando da perseguição a jornalistas na Argentina, onde os meios opositores publicam notas insultantes contra a presidenta e outros funcionários sem nenhum problema.
Outra dado importante a registrar. O promotor Nisman utilizava um automóvel de alto luxo, um Audi de um genro de um dos denunciados como encobridor local no caso AMIA, Hugo Anzorreguy, o ex chefe da SIDE no momento da explosão na AMIA. Além disso é ligado ao ex agente da CIA, Frank Holder, de conhecida trajetória na América Central, que como tantos ex agentes de outros países manejam agências de segurança locais.

Nos Estados Unidos, os setores mais recalcitrantes como o republicano Marcos Rubio, Bob Menéndez e outros, acusan a presidenta e o governo da Argentina sem prova alguma, o que é uma ameaça e uma pressão sobre a justiça local, a mesmo que exercem os meios de comunicação argentinos, que de diversas formas advertem a promotores e juízes de que esta causa, como a de AMIA, tem que ter os “culpados”  que eles determinam. Os chamados desses legisladores, evidenciam sua conexão com a direita argentina.

Querem uma destituição aparentemente ‘institucional” do governo, um golpe brando, porém com mortes. Não querem a verdade.
Além de golpear a Argentina no mesmo momento em que se incrementa o golpismo na Venezuela contra o presidente Nicolás Maduro, tentam debilitar os organismos de unidade e integração que se consolidam na América Latina.
Se algo faltava ao terminar este informe, soube-se que o ex presidente do Uruguai, José Mujica, desmentiu a versão de que um diplomata da Embaixada do Irã em Montevideu tivesse sido expulso duas semanas antes por estar vinculado à colocação de um aparente artefato explosivo nas imediações da Embaixada israelense naquela cidade. Essa versão foi publicada pelo diário israelense Haaretz e rebotada por vários meios em todo o mundo.
Fica então a pergunta que pode ter uma rápida resposta: O que está sendo preparado pelos especialistas em atentados de falsa bandeira em nossos países?

Notas:
“Causa AMIA: o atentado de 1994 foi provavelmente fomentado por um ex ministro argentino do interior”, Red Voltaire, 3 de julho de 2013

“Argentina’s President slams Israel Lobby”, Voltaire Netork, 18 fevereiro 2013

“Mensagem de Cristina Fernández sobre o Memorandum entre Argentina e Irã” por Cristina Fernández de Kirchner, Red Voltaire, 8 de fevereiro de 2013

“Ataques terrostas na Argentina 1992 e 1994: não foram de origem islâmico”, por Adrian Salbuchi, James Fetzer, Red Voltaire, 28 de outubro de 2009

“Iran and the AMIA Bombing in Argentina”, bay Belén Fernández, Voltaire Network, 26 de julho de 2009.

“AJC acusa o Hezbollah de atentados de Buenos Aires apesar da sentença da Corte Suprema argentina: , Red Voltaire, 28 de outubro de 2009,

“Fuga de documentação classificada de inteligência sobre o atentado terrorista”, por José Petrosino, Oscar Abudara Bini, Red Tango, Red Voltaire, 27 de agosto de 2006

“Acusam os muçulmanos pelos ataques a AMIA e a embaixada de Israel sem provas”, por Juan Gabriel Labaké, Red Voltaire, 4 de setembro de 2006

“Investigando a bomba na Associação Mutua Israelita”, por José Petrosino, Red Voltaire, 22  de julho de 2006

“Muçulmanos ou pista israelense?”, por José Petroniso, Oscar Abudara Bini, Red Voltaire, 22 de julho de 2006

“Washington pretende reescrever a história dos atentados de Buenos Aires”, por Thierry Meyssan, Red Voltaire, 20 de julho de 2006

“Kirchner e o sistema de inteligência argentino”, por Jorge Serrano Torres, Red Voltaire, 26 de setembro de 2004

“Nota do ministério de relações exteriores da Argentina, 25 de agosto de 2003”, Red Voltaire, 25 de agosto de 2003.

*Stella Calloni é colaboradora de Diálogos do Sul em Buenos Aires. Original de Contralinea, México.