Libro abiertoAproxima-se pelos corredores disposta a saltar sobre sua presa. Os olhos brilham com cobiça enquanto percorre com os olhos a oferta de papel e tinta. Sabe que tem que escolher bem, que não tem bolso nem vida para ler tudo. Acaricia as edições ao passar, como se dissesse “já voltarei por você”. Em um ato quase sexual vira um livro para ler suas costas e abri suas pernas para cheirar sua costura. Finalmente cai sobre sua presa com uma mirada devoradora.

Alfonso Gumucio*

cien-anos-soledadAssim é a feira do livro, um animal de extraordinária inteligência e sensibilidade, acostumado a alimentar sua imaginação com sinais impressos sobre papel, que seu cérebro decodifica e converte em imagens únicas, que ninguém mais pode recriar. A fera sabe que cada vez que adquiri um livro está levando mais que um objeto de papel e tinta, leva uma maneira de ver o mundo que nem sequer é a do autor, mas a sua, diferente de todas as demais.

Na imaginação febril da feira do livro, o galeão espanhol “rodeado de samambaias e palmeiras, branco e empoeirado na silenciosa lua da manhã…” que de repente José Arcadio Buendía descobre ao despertar não é o mesmo galeão imaginado por García Márquez. Cada leitor, cada fera, o reconstrói à sua maneira. Cada um de nós é proprietário desse galeão, diferente, especial, único que de repente se desenha em nossa imaginação. Essa é a magia da leitura cujo segredo as feras do livro conhecem.

O jogo de palavras me distrai enquanto assino uns poucos livros na nova edição da Feira Internacional do Livro de La Paz, realmente um acontecimento nesta cidade de poucas e dispersas livrarias. Uma vez por ano, desmoronam-se seus muros e dialogam a um e outro lado do corredor. Livreiros e editores se abraçam, se interrogam “como está indo pra você”, enquanto não tiram o olho das mesas onde as feras circulam.  De repente alguma pode levar o livro sem pagar.

No espaço generoso da Plural Editores
No espaço generoso da Plural Editores

Pensando bem, que as pessoas roubem livros para lê-los não é fora de propósito e aos autores isso não desagrada tanto como aos seus editores. Outra coisa é que roubem para vendê-los, como quem rouba uma joalheria.

Mas se os editores quisessem vigiar melhor seus produtos, podiam pôr-se de acordo com a Câmara do Livro para colocar na entrada principal do Campo Ferial Chuquiago Marka detectores magnéticos como os que há em todas as livrarias do mundo, em lugar de danificar o estômago com gastrite ou úlceras, com essa ansiedade que dura duas semanas. (Contam-me que senhoras “de bom aspecto” e aparentemente “respeitáveis” foram pegas no momento em que levavam livros sem pagar).

Confesso que sou dos despistados que publicam seus livros em qualquer momento do ano, quando caem da árvore porque estão maduros. Não tenho o sentido da oportunidade, não me ocorre que um bom momento para estrear é uma feira do livro, mas prometo corrigir esse erro.

Com o "Gato" Salazar e seu "best seller" sobre o Che
Com o “Gato” Salazar e seu “best seller” sobre o Che

Em todo caso, aí estive quase todos os dias, seja como leitor-fera em busca de algo novo, como apresentador do escritor homenageado do ano de 2017 (meu primo irmão Mariano Baptista Gumucio) ou autografando livros no espaço da Plural, que publicou nove obras minhas graças ao seu diretor José Antonio Quiroga.

Vender palavras é mais interessante do que vender roupa usada, não apenas porque não há lugar para a pechincha, mas porque aqueles que adquirem o livro estão convencidos de que encerra algo mágico e misterioso.

O encontro com os leitores é uma das experiências mais gratificantes para o escritor. Tenho fresca a lembrança das feiras de autores que lançamos há quatro décadas em El Prado junto a René Bascopé, Matilde Casazola, Jaime Nisttahuz, Manuel Vargas e outros amigos. Duas horas sob o sol domingueiro com nossas rústicas edições nos permitiam ganhar mais e melhor, porque ao preço se somava a conversa com os leitores.

Nestes quarenta anos de solidão há mais gente no mundo, mas proporcionalmente menos leitores. São publicados mais títulos, mas graças às novas técnicas de impressão diminuíram as tiragens e desapareceram as bibliotecas pessoais. Dizem as estatísticas que as horas dedicadas à televisão e aos telefones “inteligentes” centuplicam facilmente o tempo dedicado à leitura.

lectura-joseSe bem que há menos leitores, eles existem… São poucos pero valiosos como os personagens do relato de Ray Bradbury que caminham entre as árvores aprendendo de memória os livros que foram queimados. Por isso conversar com estas feras do bosque é enriquecedor. Os pais e mães que levam seus filhos às feiras de livros renovam minha convicção de que a leitura importa.

Nestes dias tive vários encontros estimulantes. Um pai jovem se aproximou com duas gêmeas, realmente idênticas, de uns 9 ou 10 anos de idade, ambas com óculos que denotam que usam seus olhos para algo mais que para ver televisão. Vocês lêem livros? Perguntei e responderam sim em uníssono como se estivessem coordenadas por um cordão umbilical imaginário, com um sorriso de orgulho.

Emilio Salgari

Outras crianças que vinham em busca de poesia me diziam que estavam lendo O Pequeno Príncipe, lindo começo para quem talvez não conheça as aventuras vividas por aquele extraordinário escritor e piloto noturno. Minhas primeiras leituras de livros foram Emilio Salgari, Agatha Christie, Alejandro Dumas, Rex Stout, Earle Stanley Gardner… bastante eclético quando tinha 11 ou 12 anos. Tenho saudades dessas velhas edições amareladas que foram se extraviando entre traslados voluntários e exílios forçosos.

Aproximou-se também uma mulher jovem que me pediu que dedicasse um dos meus livros de poesia para sua filha. Perguntei a idade da menina: “Sete meses”, respondeu. E ao ver meu assombro acrescentou: “Eu li poesia para ela desde que estava em meu ventre”.

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Que outros se jactem das páginas que escreveram. A mim me enchem de orgulho as que li.
Jorge Luis Borges