Os Estados Unidos não querem para si o que impõem aos outros; pregam a liberdade e fecham as fronteiras para os demais povos; pregam o livre mercado, mas impõem suas leis através de organismos multinacionais. Agora sofrem as consequências.

Por Paulo Cannabrava Filho*

Paulo Cannabrava FilhoO povo estadunidense está sentindo na carne os efeitos da globalização e da hegemonia do capital financeiro nos centros de decisão. As indústrias, ao se espalharem pelo mundo em busca de maiores lucros, mão de obra e matéria-prima mais baratas e expandir mercados, deixaram ao léu milhões de trabalhadores.

A produção foi atomizada em centenas de países, produzindo severa desindustrialização e sucateamento do parque industrial estadunidense. Dinâmicos pólos industriais como Detroit, em Illinois, viraram cidades fantasmas e hoje fazem parte de roteiro turísticos.

 

O livre comércio foi bom enquanto serviu à expansão da hegemonia

 

A campanha que levou Trump à Presidência prometia fidelidade à consigna “America First” e indicava a intenção de privilegiar a reindustrialização do país, punir aqueles que praticassem práticas lesivas no comércio, e fechar as fronteiras. Isto num sentido bem amplo. Um muro para barrar imigração, revisão e/ou extinção de acordos multinacionais como o que une Canadá, EUA e México, notadamente os firmados com países asiáticos.

Na linha do projeto de Trump, o Departamento de Comércio taxou em 25% a importação de aço e em 10% a de alumínio, como primeiro ato de uma guerra comercial anunciada pelo próprio presidente Trump. Se o alvo era (e é) a China, o tiro saiu pela culatra.

Erro de cálculo temendo provocar uma guerra comercial e, ainda mais com a China. Não só desencadeou represálias pela China, que foram respondidas por Trump e replicada pela China. Em poucos dias, conseguiram provocar uma tremenda confusão na economia mundial, embananando o funcionamento de praticamente todas as bolsas, deixando perplexos investidores e especuladores.

 

A retaliação veio rapidamente

 

Dissemos, no início, que foi burrice deflagrar uma guerra comercial. A retaliação chinesa veio lenta, mas pesada. Começou com a imposição da taxa de 25% em oito itens e, de 15% em outros 127 itens de importações chinesas dos EUA. Na semana seguinte, simplesmente suspendeu a compra de etanol e impôs taxa de 25% sobre a carne suína, 15% sobre frutas, taxou praticamente todas as commodities. Esses 128 produtos são exportados por US$ 3 bilhões (uma merreca).

A China deu um golpe duro. Selecionou itens não só da agroindústria, como da agricultura familiar, e os escolheu nas áreas de produção em que Trump teve mais votos e isso com certeza terá consequências políticas. Lá, como aqui, os proprietários de terra são poderosos e suscetíveis. Fiquem atentos, pois já começaram a conspirar. Deixou de fora a soja. Esse foi o primeiro round.

A China produz etanol do milho e não atende a demanda. Contudo, ela tem espaço para ampliar as plantações, pode comprar dos países africanos, onde está investindo maciçamente. No Brasil, podem comprar dezenas de usinas de cana com destilaria que há anos estão paralisadas porque neste país não há planejamento.

Com relação à soja, a China é o maior importador e consumidor do mundo. Em 2017, as importações atingiram um recorde de 95,54 milhões de toneladas, 13,9% a mais que no ano anterior. O Brasil passou na frente dos Estados Unidos como maior fornecedor de soja para a China. Foram exportadas 50 milhões de toneladas do grão brasileiro e 33 milhões do estadunidense.

 

2o e 3o round decididos em tempo recorde

 

Começando o segundo round, Trump deu o troco às represálias da China e taxou 1.300 produtos em 25%, o que corresponde a importações no valor de US$ 50 bilhões. A lista inclui produtos farmacêuticos, semicondutores, máquinas, eletrodomésticos, etc. A medida vai provocar aumento no preço de venda aos consumidores estadunidenses desses produtos.   

No dia seguinte, 4 de abril, a Reuters informava que a China, pouco mais de dez horas depois, em resposta às tarifas sobre importação de 50 bilhões de dólares de produtos chineses, anunciou nova lista de produtos taxados, desta vez produtos importantes como soja, milho, carne, algodão e também produtos de alto valor agregado, como automóveis de luxo e aviões.

 

China é mais que a fábrica do mundo

 

A China hoje não é só a fábrica do mundo. É também o país mais rico do planeta. Esse país de cultura milenar, há séculos cultiva o hábito da poupança. Eles não precisaram de dinheiro externo para se desenvolver. Tem resistido até hoje às investidas do capital financeiro para entrar na economia. Sabem que isso seria danoso, pois tiveram a experiência da ocupação britânica, depois a japonesa. Estão vacinados.

Com todo esse dinheiro, estão comprando tudo em todos os lugares do mundo. Aqui no Brasil, as estatais chinesas estão investindo pesado na infraestrutura, como geração e distribuição de energia elétrica, portos, ferrovias, petróleo. Já são o maior parceiro comercial, com 23% das transações.

 

A China é a maior credora dos EUA

 

Atualmente, nos Estados Unidos, a China talvez já seja o maior investidor em muitas áreas da economia, inclusive nas estratégicas. Estão comprando tudo. Edifícios comerciais nas grandes metrópoles. Inclusive o Waldorf Astoria, hotel de luxo em Nova York, um ícone da cultura da belle époque estadunidense, já é chinês. Até o Iphone, outro ícone, este da tecnologia, é feito na China.

Setores da Segurança estão preocupados, porque se deram conta de que até no Vale do Silício, meca da cibernética e da tecnologia espacial, os chineses já são proprietários ou sócios de muitas empresas, inclusive de alta tecnologia. Como sócios, podem ter acesso à tecnologias sensíveis, e até a segredos militares e da Nasa.

A crise desatada em 2008 ainda não foi superada e os EUA acumularam uma dívida pública recorde superior a US$ 20 trilhões, dos quais a China é a maior credora, com mais de um trilhão dólares; um déficit público que a agência chinesa Xinhua qualificou de irresponsável de um trilhão de dólares: e mais um déficit igualmente alto na balança comercial de 53 bilhões de dólares.

Os Estados Unidos não têm como recuperar o atraso tecnológico em muitas áreas da produção. A China compra o minério de ferro no Brasil ou nos Estados Unidos e vende trilhos e aço a preços mais baratos do que produzimos. Não é uma questão só de escala, é de desenvolvimento tecnológico também. É só olhar o que são as novas cidades erguidas na China, os trens de alta velocidade.

Trump quer voltar ao tempo em que EUA era a grande potencia industrial. Quantas empresas ele já conseguiu trazer de volta? A globalização mundializou as grandes corporações que hoje não têm nacionalidade. São junção dos mais ricos do mundo. Vamos mostrar isso nos próximos artigos.

*Jornalista, editor de Diálogos do Sul

Fontes:

http://www.xinhuanet.com/english/2018-02/13/c_136972926.htm

http://www.valor.com.br/internacional/5309897/eua-fecham-2017-com-o-maior-deficit-comercial-em-nove-anos